sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Lá e de volta outra vez.


Quando entramos na sala quase começava o A Sociedade do Anel, conhecíamos pouco um do outro. Assistimos o filme sem igualmente conhecer muito sobre o universo de Arda e ainda menos sobre o que esperar do resto do dia. Era nossa segunda hora de conhecimento mútuo; as primeiras palavras trocadas na fila do cinema, onde eu estava atrás dela, entre um elfo e um hobbit gordo e cheirando suor.
“Você não veio fantasiado”, ela constatou.
“Está errada, senhorita”, respondi fazendo um leve gesto com a mão, tentando manter um ar élfico - ao menos até onde tal coisa é possível - “sou um elfo, mas estou vestido de humano.” Coloquei as duas mãos sobre as orelhas, tentando esconder as orelhas pontudas. Ela sorriu, um sorriso estranho quase como um soluço. O hobbit atrás dela girou os olhos. “Leu o livro?”
“Não, mas amo cinema. Não sei o que esperar, nunca li uma palavra dos livros.”
Eu também não tinha aberto o livro uma vez sequer, mas estava naquela fila para ficar por dentro das conversas no escritório, nada poderia me preparar para o que estava para começar.
Nossos queixos ficaram, quase que literalmente, caídos durante todo o filme. Foram mais de três horas de suspense e fantasia pura, mãos entrelaçadas e trocas de olhares. Naquela noite, fizemos amor pela primeira vez e nos apaixonamos. Foi algo que nos atingiu com a sutileza de um meteoro caindo sobre a Terra… não, foi com a sutileza do Melancolia, aquele planeta que destrói a Terra naquele filme. Existíamos apenas para nossos corpos e mentes, aos poucos queimamos tudo: amigos, emprego, moderação. O tipo de bolha que formamos e não percebemo o quanto somos egoístas, esquecendo de todo o resto, de tudo aquilo que importava.
Tudo, menos a Terra Média.
Compramos e trocamos os três livros, devoramos cada página do épico de mais de mil páginas. Três vezes. Eu destacava as passagens que mais gostava e ela as lia em voz alta, depois de ler, com direito à interpretação, as falas do Gandalf. Ela amava as palavras daquele que trazia problemas.
Estávamos em uma espiral tão profundo que nunca percebemos o quão longa da superfície havíamos viajado.

Depois veio As Duas Torres. Dessa vez, enfrentamos a fila para a primeira sessão, de madrugada. Ela tinha os cabelos prateados e eu usava uma imitação dos pés peludos dos halflings. Eu fazia caretas para as mudanças do roteiro e ela sussurrava cada fala de Gandalf.
Nosso relacionamento, assim como a trilogia, alcançava o ponto agridoce do segundo ato, quando todo o cenário está posto e não há alternativa, tirando continuar caminhando ate o fim. O corpo dela era um território conhecido e explorado e praticamente não havia novidades; lugar confortável, receptivo. Qualquer sinal de cansaço passava despercebido e os telefonemas que ela atendia depois de sair do quarto foram completamente ignorados.
Tudo estava indo bem na Terra Média, eu acreditava.

Durante o Retorno do Rei nossas mãos nunca se tocaram. Quase não dialogávamos e nosso relacionamento se resumia apenas nas noites de sexo. Fazíamos amor de forma fria, distante. Apenas pelo orgasmo, sem qualquer sentimento. Enquanto a saga que coroou nosso amor chegava ao ápice, havíamos atingido o nadir pessoal.
Ela era uma pessoa praticamente desconhecida, fechada para qualquer investida de minha parte. Não respondia mais minhas mensagens ou respondia minhas perguntas. Ficava quase uma semana sem aparecer. Começou a fumar e a se refugiar em festas, muitas vezes acordando sem qualquer memória do que tinha acontecido na noite anterior, enchia minha caixa de mensagens com vergonha e arrependimento, para depois lançar olhares de desprezo e superioridade.
Arrumou outros amigos e logo não estava mais falando comigo.
Lia outros livros, que desapareciam antes que eu pudesse ler uma única linha.
Assistia aos filmes sem perguntar se eu queria ir junto, saía para longas horas de caminhada no meio do dia.
A distância se tornou intransponível.
Eu me transformei em passado.

Quase uma década depois, eu escrevo isso no meu tablet, equilibrado sobre um livro do George R. R. Martin. Estou agora na fila para comprar minha entrada para a sala 8, O Hobbit. Estou usando barba falsa, uma armadura pesada que me custou dois meses de salário e vinte semanas de meu precioso tempo, além da peruca ruiva. Ela está na minha frente, mas não me reconheceu, por baixo de toda a fantasia. Está usando uma blusa curta, com dois esqueletos se abraçando; meia-calça rasgada e sombras negras ao redor dos olhos.
Meu coração está saindo pela minha boca, literalmente: acho que estou sentindo gosto de sangue.
Claro que tive meus anos perdidos por causa dessa mulher. Cheguei ao fundo do posso. Catatônico. Bêbado. Perdido. Vagabundo e ainda mais adjetivos. Escolha algo degradante; eu fui, mas retornei, voltei a andar com minhas pernas.
Ainda assim, meu corpo se inunda com algo incontrolável nesse momento.
Imbecil. Eu me odeio.

Não. Passou. Finalmente, não sinto mais nada. Estou livre. ‘Liberdaaaaaaaaaaade’, como gritou William Wallace.
Ela chegou na bilheteria e disse: “Um para o Amanhecer parte dois, por favor.”

Vaca.


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