sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Poeira e Memória


Quando cheguei em casa, segui o ritual. Despejei as sacolas que carregava em um canto da pia, abri a geladeira e alcancei a lata de cerveja mais gelada e retirei o peixe crú; separei arroz, cebola, tomate e dentes de alho. Olhei para o relógio e ignorei o início da madrugada. Eu não poderia esperar os horários das pessoas normais, seguindo a vida que levava para pagar as contas que se acumulavam na pequena mesa da cozinha. Tinha de trabalhar, não é? Esse é o ritmo normal das pessoas que se formavam em minha área de estudo: deixar de lado o diploma e iniciar uma carreira em algum emprego desumano. Puxei a camisa preta de dentro de minhas calças e abri a cerveja, sentindo-me imediatamente mais relaxado. Apertei um botão no rádio e Since I’ve Been Loving You, do Led Zeppelin começou lentamente. Antes de começar a preparar meu jantar, como todas as noites, notei que havia esquecido a porta aberta. Não sou o tipo de pessoa neurótica com segurança, mas gosto de manter minha integridade física e não sou ingênuo a ponto de pensar que todas as pessoas são boas. Há o tipo como eu, calmo e quieto, introspectivo e pensativo; mas também existe o indivíduo capaz de enforcar, sufocar, esfaquear e picotar pessoas exatamente como eu.
Andei até a porta e coloquei as duas mãos sobre a madeira para fechá-la, quando um pé surgiu entre a porta e a parede, quebrando meu movimento completamente. Como uma criança que se vê surpreendida por um carro em alta velocidade, eu fiz o mais sensato e condizente com o instinto de preservação: fiquei completamente paralisado pelo aparecimento súbito do membro estranho: era um pé feminino, calçado em um sapato que provavelmente custaria três meses de meu salário e de unhas bem feitas, pintadas com um vermelho vivo.
“Olá?”, a voz surgiu do outro lado da porta.
Puxei a madeira e vi o resto do pé. Ela tinha cabelos compridos, naturalmente ruivos e olhos escuros, escuros como o abismo que atormentava Nietzsche toda vez que ele o encarava. “Pois não?”, tentei manter a naturalidade e provavelmente falhei miseravelmente.
Ela colocou um dedo sobre o queixo e perguntou se podia entrar. Abri espaço para ela passar e limitei-me a esperar, calado, enquanto ela deixava a bolsa do lado de minhas contas e estudasse o pequeno apartamento. “Quer algo para beber?”
“Uma estranha aparece”, ele checou o relógio de pulso, “à meia-noite e quinze sem qualquer aviso e a primeira coisa que você faz é oferecer bebida?”
Concordei com a cabeça. “Se você vai ficar por aqui, é o mínimo que eu poderia fazer.”
Um sorriso cresceu, lentamente, em seu rosto. “O que você tem?”
“Nada muito ostensivo. Água, cerveja… um suco, talvez.” Abri a geladeira. “Não. Água e cerveja. Ah, um vinho.”
“O vinho.”
“O vinho.” Retirei a rolha e servi o líquido vermelho em uma taça. “Você estava na festa”, afirmei.
“Sim.” Deu um pequeno gole e olhou, com desprezo, para o rótulo.
“Não foi a melhor safra”, desculpei-me.
Ela ignorou o vinho barato e continuou, encostando o corpo perto de onde eu estava: “Não me deixe atrapalhar, pode continuar o que você estava fazendo. Sim, estava na festa.”
“E você me seguiu.”
“E eu te segui. Boa música, o que é isso?”
Estava cortando uma cebola, quando a faca escapou de minha mão e quase arranquei um naco do meu próprio dedo. “Você não conhece Led Zeppelin?”
“Led Zeppelin… Stairway to Heaven?”
“Não me diga que só conhece essa música deles.” Ela me olhou com uma expressão vazia no rosto. “Meu Deus, você só conhece Stairway to Heaven. Foi para isso que você veio? Conhecer o principal pilar da música ocidental?”
Sorriu novamente. Seu rosto ficava perfeito quando ela sorria, mostrando todos os dentes da frente. “Eu vim… eu vim porque te achei interessante.”
“E como eu poderia ser interessante? Quero dizer… olhe para mim, chegando em casa no meio da noite, depois de horas servindo bebidas e comidas para pessoas estranhas que sequer notaram meu rosto, com uma carreira como jornalista esquecida em qualquer ponto do passado e sem qualquer perspectiva concreta à frente. O que uma mulher como você poderia ver de interessante em mim?”, parei novamente de cortar a cebola e cruzei os braços, olhando para ela profundamente.
“Não tente polarizar as pessoas assim. ‘Uma mulher como você’”, ela me fez soar como um imbecil, “Somos todos humanos iguais, defeitos e qualidades. Não importa se você me serviu comida em uma festa ou se me pediu uma dança, todos somos iguais. Você chamou minha atenção, só isso. Pareceu um cara legal no meio de toda a conversa enfadonha na qual eu agonizava lentamente. Odeio essas festas, odeio com todo meu coração.”
“Então não vá! Fique em casa, ou vá dançar, como todas as outras…”
“Eu não gosto de dançar. Não vejo o ponto de balançar os braços e pernas para alguma música idiota, sem sentido. Fico completamente sem graça nas pistas de dança. E faltar nessas festas… simplesmente não é uma opção. Você quer alguma ajuda?”, bebeu mais vinho e dessa vez pareceu apreciar o sabor.
“Pegue outra faca na terceira gaveta e corte esses tomate.” Coloquei o arroz na panela e comecei a fritar a cebola. A quarta música do Led Zeppelin começava, Kashmir. “Já que você não gosta dessas festas obrigatórias e de danças, você resolveu me seguir?”
“Exatamente. Estou presa em um mundo de fachadas e superficialidades, uma espécie de mulher troféu, um robô programado para acenar, sorrir e ser agradável. Vim à procura de uma conversa de verdade, uma companhia real. E veja: eu cheguei, entrei e agora estamos conversando, como dois seres humanos normais, enquanto preparamos uma refeição juntos. Essa é provavelmente minha primeira conversa de pia.”
“Conversa de pia?”
“É. Não estamos sentados em um sofá caro, tomando cuidado com a postura e bebericando café feito por empregados mal pagos. Engraçado pensar que é a primeira vez que falo com alguém enquanto sujo minha mão de tomate!” Olhei para a tábua de vidro e vi o tomate fatiado sem qualquer uniformidade, fatias tortas e desproporcionadas. O corte mais sincero que ela poderia fazer.
Ela não parecia uma pessoa estranha. Era mais uma garota da alta sociedade que estava submersa em um mundo isolado da realidade, povoando uma existência dividida em carros de luxo e festas absurdas, verdadeiros festivais de bizarrices e exageros. Uma vida que muitos não hesitariam em pular e mergulhar até não sobrar qualquer traço de suas personalidades, mesclando suas individualidades em um enorme teatro regida por vodka e drogas.
“Eu te reconheci de hoje”, confessei. “Seu rosto era o único que não tinha um sorriso predatório estampado, a única mulher fora das pistas de dança, quem sabe o tipo de pessoa que prefere conversar por horas e não ficar pulando música após música, até os pés sangrarem.”
“Não, sem sangue nos meus dedos, muito obrigada. Eu segui o seu carro até aqui. Quando te vi, sabia que seria interessante conversar com você, mas como poderíamos ter uma conversa longe de todas aquelas vozes que cuspiam palavras vazia? Você me pareceu um cara legal e queria te conhecer, nada muito estranho.”
“Nada estranho? E se eu for uma pessoa violenta… um psicopata ou algo do gênero?”
“Você é?”
“Não, claro que não. Mas se fosse não diria, certo?”
Ela estudou meu rosto e eu a olhei de volta. O abismo encara de volta, percebi.
“Acho que vou ter que arriscar minhas chances. Preciso de novos pensamentos, conhecer pessoas e falar de outras coisas. Aprender sobre Led Zeppelin.”
“Definitivamente.”
Cortamos cebola, alho e tomate. Esperamos o arroz ficar pronto e temperamos o peixe.
“Coloque o peixe na frigideira, por favor. Obrigado. E sobre o que você quer falar?”
“Qualquer coisa.”
“Como, qualquer coisa?”
“Um assunto qualquer, oras.”
“Eu não consigo pensar assim. Precisamos de um fio condutor, um tópico para seguir, uma trama principal para essa história.”
“Não seja bobo, não estamos em uma história. Não temos uma trama principal, apenas uma costura confusa sem começo, meio ou fim, sem propósito e sem sustento. A vida é assim. Minha vida é assim, a sua também. Qual o propósito de servir comida para pessoas que provavelmente iriam te odiar enquanto você poderia estar fazendo o que ama?”
“Pagar as contas?”
“Você poderia pagar as contas como jornalista. E não estaria fritando peixe de madrugada. A vida das pessoas raramente tem um propósito. Não há sentido, meio ou fim explicativos. As coisas simplesmente acontecem e mudam ou acabam. É assim, e não podemos mudar, apenas seguir com nossos cotidiano. Até que ele se acabe, ate que nada sobre, apenas poeira e memória.”
“E há algum sentido para você estar aqui, ao meu lado, enquanto frito peixe de madrugada?”
Ela ponderou. “Acho que não preciso de um propósito. A resposta mais sincera é que quero estar aqui, com você. Um relance de uma outra vida, quem sabe. Um espiada fora da bolha, na esperança de que ela finalmente se rompa.”
Tirei a bolsa e as contas da mesa, coloquei uma toalha limpa, dois pratos, talheres e duas taças. Quando terminei de fritar o peixe com cebola e alho, montei os dois pratos e comemos com calma, aproveitando a conversa e a música.
Não havia sentido na visita inesperada daquela mulher. Apenas um início. Ela comeu o peixe que preparamos juntos, aprendeu sobre rock inglês enquanto fazíamos amor e desapareceu na manhã seguinte. O único indício de sua existência eram os pratos sujos na pia e alguns fios do cabelo vermelho.
Como numa colcha de infinitos retalhos, ela se perdeu na confusão de costuras e fios que eram meus dias, deixando para trás apenas o absurdo de se conhecer apenas uma música do Led Zeppelin.

8 comentários:

  1. Adorei Mauricio. Texto leve, descontraido, gostoso. Uma boa leitura pra terminar a semana. Bom mesmo.

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    1. Esqueci de me identificar. Ana Eliza.

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  2. Leve e enebriante. Meio onirico ate. Muito bem escrito!

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  3. Bem legal o texto. Descontraído e interessante, muito profundo, talvez. Estive olhando e vi que você postou este texto ás 00:01. kkkk.

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  4. "Você poderia pagar as contas como jornalista. E não estaria fritando peixe de madrugada. A vida das pessoas raramente tem um propósito. Não há sentido, meio ou fim explicativos. As coisas simplesmente acontecem e mudam ou acabam. É assim, e não podemos mudar, apenas seguir com nossos cotidiano. Até que ele se acabe, ate que nada sobre, apenas poeira e memória.”

    Fora isso, dei 4 risadas de fazer barulho sem pensar a respeito de quem estava ao meu redor. Em especial no trecho dos tomates. (risos...)

    Leitura macia e bem convidativa. Congrats

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    1. Novamente, obrigado Rafael! É bom saber que você gosta dos textos e se diverte com eles =)
      Vida longa ao Clube!

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  5. Adoro seus contos Maurício, são de uma profundidade e sensibilidade ímpar! O engraçado é que sempre me identifico com um personagem e outro. Algumas pessoas aprendem a escrever com o passar do tempo, mas vc, já nasceu com isso! Adoro o seu estilo, a forma como vc consegue transmitir uma ideia, um sentimento...simples e profundo! Parabéns mais uma vez! MRN

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