sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O Cavaleiro e o Troll (final)

Primeira parte: http://oscarasdoclube.blogspot.com.br/2013/08/o-cavaleiro-e-o-troll-1.html

Deluc ergueu a espada e, num furioso ímpeto, cortou na direção do monstro. Quando a lâmina encontrou a pedra dura da ruína, o cavaleiro sentiu a horrível onda de choque percorrer seu corpo, quase fazendo com que derrubasse a arma. Deluc tinha o equipamento e o cavalo, mas estava longe de ser o cavaleiro que sonhava ser. Distante até mesmo do bravo herói que pensava ser. Jean Deluc continuava com o infeliz costume de descobrir as coisas um pouco tarde. Por exemplo, no exato instante em que o fio da espada encontrou a pedra, ele descobriu que lhe força e boa constituição. Seus braços tremiam por causa da fraqueza de seus músculos e as pernas tremiam por um motivo diferente.
De repente, Jean Deluc sentiu o líquido quente jorrar pelas pernas. Ótimo, ele pensou, Jean Deluc, o incontinente.
O Troll carregava um machado e, depois de saltar para trás e evitar o lento golpe do francês, avançou com a arma: o cabo feito de madeira e cabeça talhada em osso. Deluc tentou se mover, mas o peso da armadura atrapalhava os movimentos dos pés e o despreparo físico clamava o esforço da batalha. Ele sentiu o impacto, uma onda de dor explodiu em seu ombro esquerdo e sua mão ficou dormente. Tudo bem, a armadura absorveu o corte, você vai ficar bem. Você vai ficar bem. Você vai ficar-, o Troll disparou mais um golpe contra ele, errando por pouco; depois, realizou um corte transversal, e outro, e outro, e outro ainda. Deluc esqueceu da urina que escorria para fora da armadura. Era difícil esquivar dos golpes do monstros e a qualquer momento poderia cair morto, ou com algum membro quebrado. Precisava atacar o quanto antes.
Corte após corte, o monstro esverdeado grunhia em fúria e girava o machado improvisado. Quando finalmente encontrou uma abertura na defesa do Troll, Deluc estocou com seu braço direito e sentiu, com prazer quase sexual, o metal cortando carne. Uma carne macia, para sua surpresa. A criatura verde soltou um berro de dor e se escondeu nas sombras, desaparecendo antes que ele pudesse atacar novamente.
Ele respirou fundo, tentando acalmar o coração e controlar os movimentos novamente. Sentia-se surreal e infalivelmente forte, apesar das dores musculares dizerem o contrário. Olhou para trás por alguns instantes, prestando atenção nas dores que o molestavam. Deveria se recolher e disparar sobre o cavalo, voltar para casa e se calar com Mariè? Poderia tirar alguma felicidade durante as colheitas e nas horas em que ela estaria lá para aquecer a cama? Mariè Delamoure e suas coxas gordas, seios fartos e buraco quente. Talvez pudesse voltar e esquecer toda aquela loucura. A armadura estava amassada, é verdade - e mijada, não posso esquecer que ela está mijada - mas ainda poderia vendê-la por um bom preço. Principalmente se a espada fosse junto. Ficaria com o cavalo, ele seria útil no campo, mas o que poderia fazer com a vestimenta e a arma, se tudo contra o que teria de lutar era o calendário? Jean Deluc cheirou seu próprio mijo e decidiu que aquela não era sua vida. A invencibilidade esvaiu-se de suas veias, tão rápida quanto chegou. Aos diabos com fama e glória. Mariè, minha gorduchinha linda, estou chegando! Abra as pernas para seu varão!
Começou a andar com passos apressados, passos que ecoavam pela ruína como o arrastar de cadeiras em uma biblioteca silenciosa. Se fosse rápido, talvez o Troll não atacasse novamente. Ao menos era para o que rezava.
Já perto dos pilares que marcavam os limites da ruína, Jean escutou um movimento há pouco metros e disparou em uma corrida. Ezequiel estava amarrado a árvore fina e os dois camponeses haviam desaparecido. Filhos de meretrizes, cheios de escrófulas! Olhou para trás e viu o Troll, agora de baixo do sol. Foi então que notou que havia algo de errado com aquele monstro.
Trolls, ele bem sabia, deveriam temer o toque do sol, pois eram atormentados por uma maldição que os transformava em pedra. Mas aquele espécime, em especial, parecia não se importar com o calor da gigantesca bola de fogo que iluminava e aquecia o céu. O monstro ainda corria em sua direção, machado em mãos e gritando furiosamente. Trolls têm o sangue vermelho? O monstro, ele notou afinal, não tinha nada de monstruoso. Jean Deluc olhou bem para o homem barrigudo que corria em sua direção, gritando como uma criança que atacava uma matilha de cães. Ele vestia um pano esverdeado, um pedaço de tecido que já conhecera dias melhoras, dias gloriosos em que seu tingimento estava vivo e limpo. Mas agora, agora era um pedaço velho e sujo de cores desbotadas, rasgado em mais de uma parte. O homem tinha ainda uma máscara de madeira pendurada no rosto, com dois olhos pintados sobre um fundo marrom, a boca negra em um esgar cômico. A máscara sequer é verde!, ele pensou, irritado.
Sentiu vergonha de sua covardia dentro da ruína e pulou sobre o homem vestido de Troll, enterrando a espada no centro de seu peito. Com o choque entre eles, a máscara de Troll se desprendeu e caiu na terra batida que rodeava a antiga igreja. O homem dirigiu um olhar surpreso, quase magoado, para o cavaleiro francês antes de deixar o último suspiro escapar pelos lábios entreabertos.
Jean Deluc puxou a arma de rasgou ainda mais o corpo já sem vida. Ele retirou o elmo e tentou enxugar, sem sucesso, o suor que ardia em seus olhos. O Troll era, afinal, um dos camponeses que contaram a história do Troll, o gordo que sabia falar latim. Ele estava mais feio, morto. Meu primeiro Troll, Deluc pensou. Agora, onde estaria o mudo? Havia outro monstro para caçar. Deluc, caçador de Trolls. Fama e fortuna. Fama. Fortuna.
O cavaleiro francês, também ele um camponês, mas com sede de riqueza e reconhecimento, pensava sobre moedas de ouro empilhadas e mulheres que se jogavam aos seus pés. Quando a flecha entrou em seu crânio e estourou um dos olhos em um sonoro pop, Jean Deluc, novamente atrasado em suas descobertas, entendeu que gostaria de levantas as pernas de Mariè e se deliciar em seus buracos. Plural. Dado o devido tempo, Deluc subiria em seu cavalo e voltaria ao lado da mulher gorda, de onde nunca mais sairia. A última coisa que registrou antes de morrer, foi o cheiro acre da própria urina.
O camponês teve dificuldades em retirar a armadura do francês. Ele xingou enquanto enxugava, o melhor que podia, o mijo que se acumulava no interior do metal. Andou até o corpo do francês e o perfurou com uma flecha que tinha em mãos, a mesma com a qual havia retirado sua vida. Isso o fez se sentir um pouco mais calmo. Quando ele estava completamente vestido e com espada em mãos, o sol já começava a desaparecer no oeste. Escutou um cavalo se aproximando e se voltou para a origem do som, descobrindo dois cavaleiros e seus escudeiros.
“Acalme-se”, disse um deles em perfeito espanhol, “estamos apenas de passagem.”
“O que aconteceu aqui?”, o outro perguntou com um tom alarmado.
O camponês subiu no cavalo- O nome dele é Ezequiel e é melhor eu segurá-lo com mãos firmes -, que relinchou em protesto, na esperança que o odor do eqüino anulasse o cheiro de mijo que ele exalava. “Esses dois me ajudaram a lutar contra um Troll, o sacrifício deles nunca será esquecido. Meu nome é Jean Deluc e sou um matador de Trolls.”
Os dois cavaleiros trocaram olhar e apertaram a empunhadura de suas armas. “Onde está o corpo do monstro?”
“Dentro da velha igreja. Vá ver com seus próprios olhos, se duvida de minha palavra. Mas esteja preparado para embate, quando voltar de lá, defenderei minha honra.” O camponês, conhecido na pequena vila por ser mudo, gostava de brincar com as palavras e tinha aptidão para ameaçar com apenas uma breve alteração na voz.
“Não há necessidade”, o cavaleiro respondeu, lambendo os lábios que ficaram repentinamente secos. “Esse lugar já viu violência o suficiente. Eu não sabia que havia Trolls em nossa terra, acreditava que ele viviam para o norte.”
O mudo apontou para a ponte de pedra, tão velha quanto a igreja. “É o que dizem, onde há pontes…”
Após concordarem com a cabeça, os dois homens convidaram o novo companheiro para beber com eles e contar sua história. Deluc, o matador de Trolls. Era uma história digna do tempo deles.
Era, afinal, o início da história do cavaleiro que matava monstros, carregando apenas sua espada e seu arco.

Jean Deluc, o flagelo de monstros, deflorador de donzelas. Pela fama. Pela fortuna. 

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O Cavaleiro e o Troll (1)

“Segure com mãos firmes”, Deluc comandou. “Ou usarei suas orelhas num colar.”
“Mais firmes do que quando estou segurando tetas”, o camponês prometeu e cuspiu no chão, uma saliva viscosa e escurecida. “Pelos diabos, eu mesmo usarei minhas orelhas em um colar, se deixar um cavalo bonito destes escapar dos meus dedos. Por todos os diabos juntos, eu usaria minhas próprias bolas. As duas.”
“Eu não quero suas bolas, sequer suas orelhas. Quero apenas que fiquem de olho no Ezequiel. Ele custou metade das terras de meu pai." O cavaleiro desceu da exuberante montaria e caiu pesado no chão espanhol, chocando as várias placas da armadura que vestia em um baque metálico que deixou um incômodo zunido nos tímpanos. Maldição de peso, ele pensou, usando o cavalo como apoio. A armadura limitava seus movimentos e o deixava lento, mas protegia contra a lâmina que procurava rasgar a pele e quebrar os ossos. Jean Deluc olhou para os dois camponeses e descobriu que já esquecera os respectivos nomes. Não que fosse importante, afinal eram dois moradores daquela pequena vila abandonada por Deus; duas almas atoladas em pecados e ignorância, que viviam sem ter como aprender sobre as Escrituras e sobre o tormento eterno que os aguardava. Mas posso ajudá-los com isso, Deluc pensou, inflando o ego adquirido junto do cavalo e da armadura. Jean havia deixado para trás uma vida que deixaria seu dorso imprestável aos vinte e cinco anos, as mãos calejadas por causa dos trabalhos na terra e a obrigação de sustentar Mariè Delamoure, gorda e peluda, mais qualquer prole que ela pudesse gerar com sua semente. Pequenos monstros, Deluc tinha certeza; todos eles, pequenos monstros. Um arrepio escalou sua espinha e ele pensou que estava melhor naquele lugar horrível, árido, onde as pessoas falavam na língua estranha. “Onde vocês aprenderam latim, afinal?”
“Os anjos me visitaram em sonhos e assim eu aprendi a falar com eles.” O homem barrigudo enfiou um dedo no ouvido e tirou uma bola amarelada de sebo e fios de cabelo e, em seguida, engoliu tudo. Deluc sentiu uma revolta no estômago, mas a controlou facilmente. Não era o seu papel julgar as mentiras de homens baixos. Se ele podia conviver com aquela mentira nas terras de Torquemada, estava tudo bem. Estava ali para matar o Troll e nada mais. Seguiria para Portugal naquele dia, quem sabe. Lá poderia procurar por mais serviços em nome do Senhor. E em busca de fama e fortuna, é claro. “Ele não”, apontou para o outro camponês, um homem de cabelos revoltosos e sujos. “Os anjos me escolheram, mas Deus quis que ele fosse mudo. Nenhuma palavra, juro. Se alguém o colocar de joelhos e enfiar tudo no rabo, não fará um som sequer”, ele colocou um dos dedos no buraco que tinha no meio do queixo gordo, “mas acho que é porque ele gosta, não porque é mudo.”
O mudo arremessou uma pedra que tinha nas mãos e acertou o exato centro da testa do gordo, que se desequilibrou e caiu, formando ondas de gordura por todo o corpo. “Ei”, protestou do chão, “você precisa trabalhar seu senso de humor. Diabos.” Passou a mão pela testa e verificou se estava sangrando.
Jean Deluc revirou os olhos e respirou fundo. “É mesmo um Troll, vocês têm certeza?”
“Absoluta, ou corto minhas bolas-”
“Sim, sim, coloca ao redor do pescoço”, Deluc o interrompeu, já sem paciência. “Vocês estão com o pagamento?”
Levantando um saco de pano, o homem mudo mexeu as vinte moedas de ouro.
“Eu pensava que Trolls existissem apenas nas terras do norte”, Jean falou, observando as paredes em ruína.
“Eles são como fogo”, ainda procurava por sangue na testa, fechando o rosto cada vez que encostava na bola roxa que já começava a surgir.
“Como fogo?”
O rosto rechonchudo se iluminou, como se estivesse esperando há anos para soltar alguma frase inteligente: “Dizem que onde há fumaça, há fogo. Mas é claro que há fogo onde a Divina Providência o quer, como quer e quando quer, isto é, sempre que Deus deseja chamas, haverá chamas. Nunca antes. Nunca depois. Mas no exato momento em que Ele o quiser. Como as chamas são instrumentos de limpeza da al-”, ele parou a verborragia quando o mudo cotovelou a barriga flácida. “Resumindo, onde há ponte, há Troll.” Apontou dois dedos, gordos como cabeças de galinhas, para o norte. “É uma regra.”
Deluc girou os ombros e olhou a antiga ponte de pedras. De alguma forma, ela parecia ainda mais antiga que a igreja. A igreja em si estava em ruínas. Dela, apenas as estruturas das portas e das naves permitiam identificar a antiga Casa de Deus. O resto estava coberto por trapadeiras e pequenos animais a procura de comida. Um dia, perdido no passado, aquela fora uma igreja grandiosa e Jean quase podia sentir a onda de fé e paz que o antigo terreno abrigava. No entanto, a última pessoa presente em uma missa naquele lugar, estava de volta ao pó há anos. O cavaleiro suspirou por baixo da armadura, sacou da espada e começou a caminhar lentamente para dentro da ruína.
“Ei, vá com cuidado! Trolls gostam de ficar na sombra.”
As palavras do gordo ecoaram em sua cabeça e ele se preparou, caso o absurdo no qual estava envolvido fosse verdade. O interior da antiga igreja estava no mais puro caos. Restos de cachorros apodreciam em quase todos os cantos, ratos gigantescos corriam sobre os pedestais velhos e pombas voavam, vez ou outra. As plantas também invadiam o lugar e reconquistavam a pedra, engolindo alguns bancos e praticamente toda a ala oeste. Maldita, maldição de porcaria de armadura. Enquanto escutava seus passos se espalhando pelo lugar. Não havia abordagem sutil, ele descobriu demasiadamente tarde, quando se está dentro de vinte e cinco quilos de aço. Talvez seja melhor voltar.
Deu mais alguns passos, o som metálico parecia mais alto, conforme avançava para o centro da igreja. De repente, um barulho explodiu ao seu lado e ele cortou com a espada recém-forjada, e soltou um pequeno, porém agudo, grito. Uma pomba caiu morta, com o pescoço quebrado. Merda! Chega, estou voltando agora mesmo, Mariè Delamoure, abra suas pernas gordas e se prepare: estou voltando. Girou e começou, com passos apressados, a avançar para fora. A imagem de seu pai trocando a preciosa terra que haviam conquistado com muito suor pelo cavalo, armadura e espada, além do pequeno saco de moedas de ouro para pagar sua peregrinação, invadiu sua mente, vívida e detalhada. Podia ver o misto de tristeza e esperança no rosto de seu pai, podia sentir a saudade de sua mãe no exato momento em que virou as costas para sua antiga casa e cavalgou, talvez para sempre. No íntimo, sonhava com uma volta triunfante para o interior da França, onde tomaria o controle da cidade e seria justo para todos os franceses. Ele faria fama e fortuna, lutaria em nome do bem e de Deus, seria reconhecido por todo o mundo cristão como o mais bravo cavaleiro. Não poderia correr como uma garotinha medrosa apenas por causa de um pássaro. Um pássaro! Jean Deluc firmou o aperto na empunhadura e entrou ainda mais na ruína. Sua história começava naquela igreja. Fama e fortuna.
Seu pensamento mudou no exato momento em que viu o Troll, protegido pelas sombras da igreja.

Continua: http://oscarasdoclube.blogspot.com.br/2013/08/o-cavaleiro-e-o-troll-final.html

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Saga: pedras e brasas

Nesta noite de inverno, ao colocar as calças do moletom marrom, primeiro a perna direita, depois uma pausa para equilibrar e colocar a esquerda, Getúlio, nome de batismo em homenagem ao presidente,decidiu tornar-se um homem mudo.

A decisão não aconteceu de repente como parecia. Se fez lentamente como as machas de mofo do teto. Uma a uma até o dia da incontestável afirmação de que o ambiente estava inabitável e incomodava a respiração. Como gotas sulfúricas que caem em um copo, dissolvendo-o.

Então, na manhã seguinte, decidiu ser o mesmo homem cordial que era, mas com menos palavras. Não poderia se dar ao luxo de ser mudo sem parecer deslocado, sem evitar um julgamento prévio dos vizinhos e do porteiro. O mundo exterior não lhe incomodava. Estava dentro de seu campo neutro de convivência. Agudo era o outro, o circulo interior, que ultrapassava as portas da casa imaginária. 

Decidiu se fechar para os conhecidos, os colegas, os amigos, a família. Um protesto que, por estar silencioso, ninguém compreendeu a razão. Quando lhe indagavam os motivos de seu silêncio, erguia uma das sobrancelhas, fazia um meio sorriso e balançava a cabeça em negação, como se risse de todos.

Getúlio queria que o olhar falasse mais que palavras. Um cinema mudo, anterior ao verbo, que expressasse, de maneira mais nítida, os sentimentos sem a verborragia das línguas. Desejava ser simples. E, em sua simplicidade, optou por ficar em silêncio.

Os amigos estranharam e só perceberam uma relação de causa e consequência quando refletiram que todos, sem exceção, recebiam o mesmo tratamento. Alguns se sentiram culpados, achando que haviam feito algo ao rapaz. Retomaram mentalmente últimos diálogos, mas não encontravam razão para seu silêncio, a não ser um sentimento que não tinham observado ou loucura completa.

Mas Getúlio desejava ser simples. Naquela noite enquanto aquecia-se do frio vestindo seu moletom, lembrou-se de Laura e de como era difícil manter qualquer diálogo que fosse, até o mais trivial. Laura, que conhecera há cinco anos, sempre parecia inserida em um senso de abarrotamento e velocidade que nunca lhe permitia conversar com Getúlio. Nenhuma mensagem. Nenhum olá. Nenhuma resposta as suas perguntas ínfimas sobre assuntos que ela poderia gostar, apenas para manterem uma conexão quase morta.

Ainda semi nu naquela noite, fez de Laura a perspectiva de sua vida. Como cartas de baralho foi expondo cada relação sobre a mesa. Cada morte antecipada por desentendimentos, acidentes aéreos, despedidas involuntária, desprezo e uma sensação de quase morte que lhe tirava quase toda vida.

O toque do tecido em suas pernas lhe deu alívio. Dando-lhe uma sensação de completude responsável pelo sentimento de clareza que lhe surgiu naquele instante. Então, decidiu emudecer.

Percebeu que como sua casa, a vida dentro de seu imaginário abstrato, estava cheia de bolor. Laura, cuja a ida para outra cidade matou mais que a amizade; Jonas e o casamento que o tornou um homem melhor e indigno de viver com os solteiros; Amanda e a sensação de que lhe fizera um mal irremediável; Carlos que lhe disse sem expectativas sobre a amizade, por não ter aquilo que desejava; E até uma paixão do colégio, Natália, lhe parecia estranha quando, após diversas semanas de encontros e expectativa, parecia alheia a ele, como se tudo não passasse de uma simulação.

Getúlio preferiu fechar-se em si mesmo. Deglutir a própria solidão e viver com seus fantasmas. Mudo sentia somente a si. Na entrega que havia feito a outros, recebeu apenas tristeza. As relações eram fogos de artifício; brilhavam e morriam. Mudo completava a si mesmo. Negava a própria sensação de ser negado. Afastava-se para não assistir o definhar lento da morte. Das mortes de cada um de seus entes queridos. A distância. O silêncio. A mentira. Se tudo viraria cinzas, preferiu se calar.

Parecia infantil. Como o perdedor que vira o tabuleiro quando se encontra encurralado. Getúlio estava velho e infeliz. A vida o encurralou. A consciência de que tudo era transitório e, a cada noite, a cada pergunta não respondida de Laura, a cada desistência de encontros com Carlos, ele sentia-se um pouco mais só.

Sozinho no meio de um salão que imaginava cheio de entes queridos mas que, ao procurar diálogos, encontrava-se distante de qualquer conversa. Um salão a meia luz, com um chão forrado de uma pós festa sem nenhuma comemoração. O bolor das paredes como a única constante. O mais antigo conhecido.

Getúlio se calou naquela noite em diante.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

o tema de hoje é em duas semanas cada qual com oitocentas palavras

- Como é que é?! Quanto?

- Oitocentão, bicho.

- Oitocentas palavras? 800? Assim, ó, oito zero zero?

- É, exato. Exatamente.

- Mas que maluco. Não, não, maluco é pouco: totalmente pirado. Chué. Lelé da cuca, digo logo.

- Pois foi o que eu disse.

- E eles?

- Eles quê?

- Quando tu disse? Que que eles disseram?

- Ah, na verdade não sei. Não. Não, peraí. Não disse não. Eles não disseram nada porque eu não disse nada.

- Ma como? Tu disse que escreveria OI-TO-CEN-TAS palavras pra hoje?

- Acho que eu disse. Ou fiquei quieto e deixei subentendido. Não sei, não lembro.

- E agora, bicho, que tu vai fazer?

- Agora? Agora, só semana que vem. Joana!, mais uma cerveja, por favor. Joshua, meu amor, pendura a dolorosa. Bota na conta. Eu pago, eu pago, eu juro que eu pago.

- Paga?

- Jacaré paga? 'Tão nem eu.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Flor de Amy

Zack abriu a cerveja que tinha nas mãos e a empurrou para o último cliente daquela noite. A garrafa esverdeada escorregou suavemente pelo balcão e pousou na mão do outro homem. “Pode contar, estamos sós.”
O homem levantou a cabeça, os olhos assustados. Seu rosto era bonito, olhos escuros como aquela noite e uma barba que subia até as frontes. Esta, igualmente escura; aquela, acompanhando o rosto quadrado. “Vo… Você falou comigo?” Na frente do homem, um vaso permanecia intocado por algum tempo. Uma orquídea estava cuidadosamente plantada na terra escura.
“Claro, acabei de falar que estamos sós. Com quem mais falaria?” Zack estudou a confusão na expressão do rapaz. “Eu faço isso há anos e posso dizer com segurança quando alguém tem algo a dizer. Normalmente, segurar essas coisas no seu íntimo não faz bem. Elas crescem e as raízes que criam podem sugar toda sua energia.”
“Por favor, não fale isso.” Ele se tornou subitamente pálido. “Eu… eu não sei se consigo. Nunca contei isso para ninguém.”
Zack puxou um banco e se sentou, o balcão entre eles. O luminoso estava apagado, a mesa de bilhar vazia e o barulho do banco sendo arrastado ecoou pelo Clube. De repente, Beatles começou a tocar na Jukebox, como se ela estivesse protestando pelo tom melancólico que tomava conta do lugar. A mesa de bilhar pareceu concordar. “Sua mente explodiria se eu contasse todas as histórias absurdas que á ouvi deste lado do balcão. Sua história estará segura comigo. E, no final do dia, quem melhor para contar algo difícil do que um bartender?”
Os olhos negros se iluminaram e um pouco da cor voltou para o rosto quadrado. “Eu a conheci enquanto acampava. Quando vi a tatuagem, estranhei e pergun-”, ele parou e virou a garrafa de cerveja, deixando apenas um terço da bebida. “Bem”, passou a manga na boca, “vamos começar do princípio. Sou botânico. Vivo em Porto de Amy há alguns anos, vim por causa de minha pesquisa. Sabia que essa cidade tem a fauna mais inusitada que você poderia encontrar? É sério, chega a ser bizarro. Espécies novas aparecem aqui, como se fosse… O Mundo Perdido, ou algo do gênero.”
“Eu sei como é, acredite.”
“Eu já presenciei uma espécie de orquídea surgir e desaparecer em menos de três semanas, inacreditável. Eu estava acampando no sul da ilha, procurando por novas espécies, quando a encontrei. Ela tinha o cabelo cinza, lindo. É estranho, certo? Sempre que eu fantasio em cenas como a que aconteceu, a mulher é ruiva. Ou oriental. Talvez espanhola, mas nunca com o cabelo cinza. Ainda assim, ela não seria tão bela… não, hipnótica, caso tivesse outra cor. Eu havia caminhado por mais de quinze quilômetros, entrando no coração de nossa mata, coletando espécimes e amostras de terra e água. O trabalho completo. Todos os músculos do meu corpo doíam e no momento em que terminei de montar o acampamento, deitei e dormi por algumas horas. Nunca faça isto, aliás, um acampamento completo pode ser a diferença entre vida e morte. Eu simplesmente estava cansado demais para qualquer outra atividade.” Parou de falar e terminou a garrafa de cerveja. “Mais uma?”
Zack buscou duas.
“Quando abri os olhos, uma sombra estava parada na entrada da barraca. O primeiro pensamento que cruzou minha mente, foi que logo estaria no estômago de algum carnívoro - o ciclo da vida, certo? -, então vi que o vulto era humanoide e meus medos se acentuaram. Melhor acabar morto por um animal do que sofrer nas mãos de… bom, de outro animal. ‘Você tem alguma comida para partilhar?’, eu escutei na voz mais sedosa do mundo. Peguei minha lanterna e a iluminei. O que vi, fez meu coração parar por alguns segundos. Os olhos eram amarelados, como âmbar, o queixo fino e o corpo esguio, as roupas estavam surradas, mas estranhamente limpas e o cabelo acinzentado a deixava divina. A mulher mais linda que vi em toda minha vida. Era estranho, ela parecia estar naquela mata há algum tempo já e, ainda assim, suas roupas estavam bem conservadas. Sem rasgos ou manchas de lama. O cabelo estava penteado e a pele limpa. ‘O que você está fazendo aqui?’, eu perguntei, ainda um pouco torpe. Ela sorriu e respondeu: ‘Eu moro aqui, bobo. O que você está fazendo aqui?’ Eu não soube o que responder, apenas levantei e saí da barraca, procurando por madeira para iniciar uma fogueira. Nada de andar com pequenos botijões de gás pela floresta: se é para fazer a busca na natureza, vamos fazer à moda antiga. ‘Faz tempo que você está aqui?’. ‘Seu bobinho’, ela me respondeu com um sorriso, ‘não vê pelas minhas roupas? Eu vim hoje. Eis minha nova vida. Sou uma delas agora’, respondeu antes de ajudar a recolher os galhos caídos por perto”. Ele parou novamente. Zack viu pelo brilho de seus olhos as lágrimas beiravam suas emoções. “Ela se movia com facilidade entre a mata fechada e tocava as plantas como se fosse a sensação mais natural. Parecia que ela estava mais acostumada com a madeira áspera do que com o toque suave das teclas de um computador, por exemplo. ‘Qual seu nome?’, eu perguntei enquanto carregava alguns galhos para o monte que fazíamos. ‘O que mais gosto daqui é que não precisamos de nome. Uma vez que meu tempo passar, vou fazer parte do todo’, ela respondeu, com um sorriso pesando nos lábios. Eu realmente não entendia o que ela dizia, por isso achei melhor ficar calado. Coletamos a madeira necessária e começamos a cozinhar a comida que eu tinha. Fizemos um belo ensopado e comemos pão com pasta de atum. Bebemos uma garrafa de vinho e observamos as estrelas, revezando o binóculos astronômico que tinha comigo. Foi uma noite agradável, ainda que poucas palavras foram trocadas.”
A Jukebox terminou de trocar o disco e Elvis Presley iniciou uma canção, algo sobre um hotel. Zack estava confortável bebendo a cerveja e escutando a história que estava sendo narrada. Às vezes parecia que o balcão era uma espécie de divã para lunáticos e o Clube com certeza funcionava como ímã para pessoas com histórias estranhas para contar. Zack olhou para o canto escuro do Clube e se perguntou quando as três velhas haviam levantado e se retirado, nunca percebia quando elas saíam ou chegavam. Voltou-se para o homem e pegou uma frase pela metade.
“…eu falei, mas então ela não respondeu, ficou olhando para as estrelas, como se fossem a única vista que teria até morrer. ‘Eu não tenho muito tempo’, ela disse, uma voz diferente e profunda, ‘já estou morta, praticamente, apenas esperando para acontecer.’ Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela esticou os braços e retirou a blusa que usava. Admirei-a nua, os seios assimétricos balançando com seus movimentos, a barriga branca refletindo a luz prateada do luar. Acho que foi esse o exato momento em que me apaixonei perdidamente por ela. Ela se virou e me mostrou uma pequena tatuagem no centro de seu dorso. ‘Como você viveria, se soubesse que tem pouco tempo nesta terra?’, seus olhos estavam voltados para o outro lado, mas eu podia sentir as lágrimas escorrendo, chovendo de seus olhos escuros. ‘A tatuagem, essa é a minha sentença. Por anos eu percorri o mundo na procura de quem realmente sou. Meu nome não importa, minha alcunha é agora um punhado de cinza jogado contra o vento. Eu vaguei por essa terra, posso afirmar; talvez mais do que qualquer um em séculos: eu vaguei por essa terra. Estive no coração de 5 continentes, visitei as florestas equatoriais e vaguei a solidão do Atacama; molhei meus pés no Nilo e no Rio Amarelo; dormi sobre as estrelas de Burma. E nunca, nunca me encontrei. Vivi uma vida egoísta, envolta no meu próprio umbigo, oca, superfícial, vivendo de noite em noite, de parceiro em parceiro, uma festa atrás da outra… uma droga nova toda semana. Abortei, entrei em overdoses, paradas cardíacas e comas alcoólicos. Eu fiz de tudo. Até me cansar, até meu espírito pedir - não, implorar - por algo diferente. Dizem que a mais longa das viagens começa com um simples passo. Então um dia eu comecei a andar e nunca mais parei. Quem eu era ficou para trás. Quem serei, está ao nosso redor.’ Ela ainda estava parada, sentada de costas para mim, banhado pela luz prateada da lua perfeita pendurada acima de nós, como se estivéssemos em um palco da broadway. Porto de Amy é uma cidade realmente linda, se você souber procurar. Mas estou divagando. Ela tinha uma tatuagem, como eu já te contei: uma mudinha de planta, recém brotada de uma semente. Sem terra, sem adubo, sem água. Apenas uma semente arredondada e uma muda. ‘Eu aceitei uma bebida em Goa’, ela me disse, ‘e quando acordei, senti uma pontada de dor nas costas. Uma velha de, sei lá, trocentos anos, a mesma que me deu a bebida, disse que em breve, eu seria parte da do todo, que estaria integrada onde deveria estar. Essa tatuagem? No começo era só uma semente. Agora já tem uma muda, certo?’ Eu assenti com a cabeça, era tudo que podia fazer. Todas as palavras haviam fugido de meu cérebro por causa daquele absurdo. Uma tatuagem que se transforma? Quem ela pensava que eu era? Ray Bradbury?”
“Porto de Amy nunca deixa de nos maravilhar”, Zack estava taciturno. “O Clube é um farol para histórias malucas, escreva o que estou dizendo.” Escreva, gritou uma voz na mente de Zack, mas ele logo a sufocou.
“Ela se virou e me pediu para beijá-la. Eu o fiz, claro. Fizemos amor quatro vezes, as estrelas em nosso teto e um pano entre nós e o solo. O cabelo, tão prateado quanto a luz da lua, me cercava e cobria, varria suavemente o meu peito. Ela estava sedenta pelo meu toque, minha saliva, minhas próprias sementes. Queria me secar, tomar toda a vida que havia em mim para somar ao pouco tempo que tinha. A mulher com a tatuagem nas costas consumiu todas as minhas energias. Quando acordei, estava sozinho e minhas amostras haviam sumido. Eu entendi o que ela quis dizer, para não aprisioná-la, não fazer com outras plantas o que poderia fazer com ela. Nas próximas semanas eu retornei para o mesmo lugar, mas ela apareceu apenas uma vez, quase seis semanas depois. Estava diferente. Os cabelos acinzentados cresciam selvagens até o quadril nú; as unhas das mãos desciam como raízes por mais de cinco centímetros e em seu torso, protuberâncias eram visíveis de onde eu estava, como se algo dentro dela tentasse romper a pele e se libertar. Ela não se aproximou, não disse nada. Apenas se virou, lentamente, os pés grudados na terra, e desapareceu na mata. Pude ver a tatuagem, uma maldição que seguirá meus pesadelos até que seja a minha vez de morrer. A semente estava inteiramente desenvolvida e caules enrolados cobriam toda as costas. Os galhos maiores formavam elevações nos músculos e em alguns pontos, sangue escorria na pele perfurada, tingindo de vermelho o verde da tinta. Eu nunca mais a vi. Não com vida.” Ele parou e molhou a garganta seca, depositando sobre o balcão mais uma garrafa vazia. Zack não se preocupou em pegar outra bebida: aquela história estava no final e ele estaria apagando as luzes em poucos minutos.
O homem tocou na planta e, horrorizado, Zack notou pela primeira vez que a orquídea no vaso era cinza. “Semana passada eu a encontrei, pouco tempo antes de um caçador passar pelo corpo e chamar a imprensa. Restavam apenas os ossos e alguns tufos do cabelo. Sei que ela pediu para não ser presa, mas não pude deixá-la naquele lugar, tão longe de mim. Eu a trouxe. Pelo menos um pedaço. Uma orquídea. Engraçado, sempre pensei nela como uma papoula. Algo mais… entorpecente. Essa é a minha história, bartender. Obrigado por me ouvir, obrigado por seu meu farol.”
Ele jogou duas notas de vinte reais sobre a mesa e desapareceu para sempre.
Onde antes estava o vaso com a orquídea cinza, Zack viu o jornal local, a data de três dias no passado. A manchete dizia em letras escandalosas que um novo mistério havia começado e a foto mostrava o porquê: uma ossada quase completamente soterrada por um emaranhado de caules e flores, dezenas… talvez centenas de orquídeas, todas elas cinzas, cobriam o esqueleto. Zack não precisou ler a reportagem para saber que os peritos identificaram ossos de uma mulher, na casa dos trinta anos, sem sinais de doenças severas ou mal-tratos. Abuso de drogas não são facilmente identificados nesses casos, ele bem sabia.
Zack fez como sempre. Aceitou o ninho de histórias bizarras que rodeava sua vida, olhou por cima dos ombros para se certificar de que as três velhas tricotando não estavam sentadas perto do balcão e apagou as luzes. Desligou a Jukebox, recolheu os tacos de bilhar e saiu pela porta.

Quando estava andando perto da orla, olhou para cima e viu a lua inchada no céu, como um queijo prateado. Pensou nas flores cinzas, que naquela mesma ilha, estariam ainda mais prateadas naquele exato momento, banhadas pela luz lunar, singelas e lindas, como ela sempre fora.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Traços

A reforma obrigou-o a realocar a biblioteca. Estava em pânico com qualquer dano que os cadernos de desenhos, guardados desde a adolescência, poderiam sofrer. Eram um item precioso catalogado em ordem cronológica desde os quinze quando começou a ilustrar e percebeu que esta seria sua maneira de expressar-se para o mundo.

Realocando-os em caixas, evitava o mergulho na memória. Mas de 1990 caiu uma pétala morta de uma rosa. Pegou-a nas mãos como se a lesse.. Caiu atrasada demais, pensou.



A garota chegou atrasada. Combinaram no início da tarde. Veio as quatro. Ele estava desesperado. A empregada avisou-o da chegada e o garoto foi recepciona-la. Fez uma mesura, abriu-lhe o portão e ela entrou em silêncio, na sua frente, sem importar-se em ser conduzida.

Trajava um vestido preto com botões até a cintura. A pele leitosa gritava. Evitou olhar para as pernas mas não conseguia distrair-se. Viu as veias embaixo da pele branca. Ela se vestira para ele.

Ainda envergonhada por estar no quarto do garoto, abriu a bolsa e retirou uma rosa. Era uma flor murcha, amassada, colocada as pressas e roubada pelo caminho. Esticou-a a sua frente dizendo: para que me desenhe com elas. Como Marilyn Monroe.

Eles haviam folheado algumas revistas de fotografia do pai dela. Ela achou bonita uma imagem de uma mulher quase desnuda com rosas pelo corpo. Mas não era Marilyn Monroe. Ele não sabia quem era.

Já havia desenhado a garota antes. Desenhava-a desde que a conhecera há quase dois anos. Esboços distintos naqueles cadernos. Esboços feitos com ou sem a presença da garota, tamanha sua memória por ela.



O homem procurou na sala desarrumada seu atual caderno de esboço. Com o lapis na mão desenhou-a mais uma vez. Uma imagem que só existia por conta de sua memória. Riu ao descobrir que ainda lembrava como se fosse ontem.

A pétala de 1990 era a única lembrança física que restou. Anos depois, a esposa obrigou-o a jogar três cadernos inteiros por conta daqueles desenhos e, contra a vontade, após uma discussão que terminou em uma noite dormida na casa dos pais, ele cedeu.

As velhas mãos ainda reproduziam os traços daquela garota que a esposa tentou apagar. Mas certas memória, sabia, não se apagam mesmo que tente sufoca-las.



Ela estava na cama, com as pétalas espalhadas sobre si. Deitada de lado e a posição realçava suas formas. O garoto sentia-se feliz pela garota sentir-se tão a vontade. Pediu que ela mudasse de posição, deitando de costas, com os cabelos avolumados sobre a cama e as pétalas em volta. Poderia desenha-las como quisesse, mas gostava de vê-la assim. Registrar a cena além dos desenhos.

Sentado de frente para a garota, conversavam pouco para que ele desenhasse compenetrado. Ela estava linda. Quando se mexeu levemente, cansada da posição com as mãos acima da cabeça, uma pétala curiosa atreveu a entrar em seu vestido.

Ele riu. Ela perguntou porque. A pétala, disse. E ela, também rindo, olhou-o e abriu um botão do vestido. Fica melhor assim? Os olhos do garoto faiscaram. F-fica, gaguejou. Desenhou com os olhos livres do papel, fixos na garota.

Novamente realocou as pétalas. Deixou que caissem sobre seu pescoço e sobre a pele agora desnuda da abertura do vestido. Estava ao seu lado quando ela percebeu sua intenção. Sem dizer palavra, levou as mãos até o próximo botão e abriu-o.



O velho se recorda da discussão com a esposa. Dos gritos, do pedido de silêncio para os vizinhos não pensarem que ali havia um futuro assassinato. Eram desenhos, apenas. Diversos desenhos de adolescência que ajudaram a desenvolver o seu trabalho. Para ela não importava se eram importantes ou não. Ela sabia quem era e desejava que tudo fosse destruído. Enquanto ela gritava, ele pegou um dos cadernos e folheou. O tom subiu mais ainda enquanto ele admirava as ilustrações que havia feito.



Ela sabia que o garoto estava nervoso. Deitada na cama dele, com os botões do vestido aberto, entrevendo o volume dos seios, ela sentia-se em um misto de timidez e adoração. Ele olhava de uma maneira tão terna. E soube o que a garota faria em seguida quando uma das mãos posou levemente sobre o vestido e desceu. Se olharam, cúmplices.

As revistas que os meninos trocavam, escondidas sob o material escolar não lhe preparam para o momento. Não havia a tensão, o respirar acelerado e contínuo e uma sensação acolhedora que parecia esmagar-lhe por completo. Lembrou-se de um filme que assistiu com a mãe em que ela censurava a semi nudez da mulher e que ele, desconcertado, passou horas depois lembrando das imagens exibidas pelo tubo da televisão.

Mas era a primeira vez que observava as formas femininas dessa maneira. Ele soltou uma prece quase em silêncio e a fez rir. O movimento de seus seios o deixara surpreendido. Era como uma novidade reconhecer que, ao contrário das imagens, eles não eram um figura sem dimensão e tinham volume.

Ele desenhou-a durante a tarde toda naquela cena. O vestido aberto, os seios a mostra e as pétalas destruídas mas que restauravam-se em suas mãos no caderno. Atentava-se aos detalhes, maravilhado com a descoberta. As vezes, concentrava-se no entorno, no interno, na composição, nos traços do rosto, pescoço e colo.

Estava exausto. Nunca havia desenhado tanto o mesmo objeto e desenharia-o novamente se a mão direita não estivesse como se em chamas. Tracejou um último esboço, trêmulo, e avisou que finalizaria.

Ainda desalinhada, ela sorriu, perguntando como tinha se saído. Bem, ele disse. E, aos poucos, a garota fechava o vestido. Enclausurando, ele pensava, sua novidade. Sentou-se ao seu lado, pedindo para olhar os desenhos. E ele entregou o caderno com as mãos ainda trêmulas e ressecadas pelo esforço.

O garoto respirava fundo enquanto ela olhava os desenhos. Ainda confidente do que ele achava, até então, misterioso e intocável. 

Olha, disse sem jeito, você é muito bonita.

E você desenha muito bem. Adorei. E deu-lhe um beijo terno no rosto.



O velho havia desenhado três ou quatro vezes a mesma imagem, recordando-se de uma lembrança que, não fosse a memória e a pétala, seria nada. Na beleza juvenil situava-se a transição. A descoberta nítida do menino para o homem, como diria seu pai. Ele amaldiçoou a si por ter destruído os cadernos mas observou que pouco se importava as evidências sensíveis.

Ela estaria sempre em seus traços até a morte. No passado de carvão, lápis e papel. Memórias que ultrapassavam a expressão das ilustrações; das explicações dada a esposa; da pétala que jogou ao lixo após colhe-la nas mãos.


Onde ela poderia estar?, pensou. Lembrando-se da última vez que a vira, há mais de quinze anos. Não importava seu destino. Ela sempre seria residente daquele mil novecentos e noventa e seus traços de aprendiz.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Chove

O Legista parou o carro e desceu, já com a proteção branca ao redor dos sapatos. Olhou para o céu e franziu a testa: nuvens pesadas rolavam acima da sua cabeça ameaçando destruir todas as provas. Aquele poderia ser mais um trabalho do Destino, depois de tantos anos de caçada, ele podia farejá-lo no ar, sentia sua presença, como se estivesse assistindo ao seu trabalho. Tinha de pegá-lo, não havia alternativa. Ou sua própria cabeça iria rolar. Começou a agir rapidamente, gritando ordens, berrando advertências e cuidados para a novata, tirando fotos e procurando montar na cabeça a linha cronológica do assassinato. Destino era um inimigo escorregadio, sabia muito bem o Legista. A verdade era que ninguém tinha um número seguro para suas vítimas, como ele deveria provar as ações de um assassino que criava em perfeição cenários que pareciam acidentais? Fios antigos em curto, provocando um incêndio alguns anos antes; semáforos defeituosos; escadas de madeira roídas por cupins. A lista rolava indefinidamente. A cada acidente, em todas as calamidades que atingiam Porto de Amy, o Legista usava o olhar clínico, treinado e afiado, para encontrar seu nêmesis. Destino, era a alcunha auto-nomeada. Ele acontecia, nada poderia pará-lo, nem o próprio tempo. Mas como, o Legista se perguntava novamente, provar a existência do Destino? Estudava a cena horrível, pensando se o braço - pendurado no corpo feminino apenas por uma pele esticada - estava na posição correta para provar se o esmagamento pela caçamba fora acidental. Olhou com cuidado, procurando vestígios, indícios… um trovão explodiu no céu e ressoou por quilômetros e quilômetros. O Legista tinha pouco tempo. A caçamba de metal - azul, manchada de ferrugem, ele notou - havia deslizado junto com a terra molhada, caindo pelo barranco e esmagando a mulher contra um muro, deixando pelo caminho rastros azuis e carros amassados.
“Já temos uma idade?”, ele perguntou para uma jovem de máscara branca. Ela era bonita, tinha cabelos vermelhos e uma tatuagem triforce na nuca.
Ela bateu alguma fotos, segurando uma régua ao lado do membro quase decepado e cortou a pele com um bisturi, traçando um corte limpo e preciso. Ela segurou o braço na altura dos olhos e o girou, procurando por sinais que indicavam idade. “Entre quarenta e 45 anos. Provavelmente”, respondeu, entoando fortemente a essa palavra. “É difícil dizer qualquer coisa com certeza. Pobre mulher.”
A novata tem razão, pensou o Legista: a cena deixava poucas evidências e aquilo que colhiam indicavam uma infelicidade. A caçamba cheia de entulhos fora cuidadosamente colocada em lugar permitido e seguro, apenas a chuva forte da noite anterior poderia ter causado o deslizamento e a péssima sincronia que acabou por matar a mulher incógnita. Merda, ele pensou. Sentia o turbilhão de perguntas invadindo a sua mente, corroendo a sanidade como um parasita ácido, desenvolvido para deixá-lo louco e obcecado. Como vou para o Destino?
Como uma resposta do… bem, do próprio destino, uma folha voou contra o metal gelado e revelou um pequeno ponto vermelho sobre o metal. O Legista largou a câmera no chão e correu para a caixa de metal puro. As primeiras gotas começavam a cair.
“Rápido”, ele gritou para ela. Quando não a encontrou, correu para a caixa que levava sempre para as cenas de crime e agarrou o material. Merdamerdamerdamerdamerda
A chuva começou a cair em gotas pesadas.
O perito pescou a película com mãos trêmulas na terceira tentativa, precisava daquela digital embebida no sangue da mulher. A evidência estava num ponto onde ela não conseguiria alcançar, era a chave para pegar Destino.
A chuva, no entanto, lavou a mancha vermelha. O Legista assistiu, incrédulo, o Destino escapando de seus dedos.
Sua mente não registrou o pneu queimando contra o asfalto e os grito que se seguiu.
Ele apenas assistiu o fio vermelho escorrendo com a chuva, lavando a identidade de sua obsessão.

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Mário dirigia com pressa. Furava sinais vermelhos, fazia curvas fechadas e costurava os outros carros que também tentavam chegar ao trabalho. Quando o trânsito desta maldita cidade ficou tão caótico?, perguntou-se pouco antes de travas a direção na direita, evitando bater em duas motos que esperavam sua vez de prosseguir. Uma buzina de carro disparou contra ele pouco antes do motor bombear energia e o carro disparar rua acima. Mário dirigia com pressa, muita, muita pressa. Quando chegou na avenida principal de Porto de Amy, encontrou o trânsito fluindo com mais agilidade e coordenação, achando que poderia acelerar um pouco mais. Seu celular vibrou no bolso e ele ergueu o corpo alcançar o aparelho.
“O que é?”, atendeu num tom irritado, o único que tinha para sua ex-mulher.
Ela balbuciou alguma coisa sobre a pensão alimentícia atrasada e começou a xingá-lo, sutil como sempre. Mário dirigiu, admirando mais a paisagem oceânica de Porto de Amy do que o trânsito que enfrentava, incólume por algum milagre. “Filho da puta!”, escutou alguém gritando e enfiando a mão na buzina. Limitou-se a mostrar o dedo do meio. Dirigiu por quatro minuto até que ela ficasse sem vocabulário ofensivo e abriu a boca para falar. “Eu faço a porra do depósito hoje. Mais alguma coisa?” Um trovão ecoou, grave e denso.
A mulher continuou a gritar, mas ele jogou o celular entre as pernas e continuou a dirigir, checando a hora no relógio de pulso. Filhodeumaputaatrasadacaralhoporra!, pensou, pisando ainda mais no acelerador. O carro voou pela avenida de Porto de Amy. No céu, nuvens carregadas ameaçavam derramar o segundo dilúvio em instantes e um fio percorreu a espinha do motorista. A cidade sediava chuvas torrenciais que deixavam os moradores apreensivos e muitas casas pararam no mar durante os anos anteriores. Na noite passada, a chuva causara deslizamento e afogamentos. Os cidadãos de Porto de Amy queriam uma folga da chuva desgraçada que caía sobre eles. Mas não era o caso. E Mário planejava estar seguro, dentro do escritório e com o carro na garagem coberta do prédio quando a chuva começasse a cair sobre eles.
Quando virou para uma das ruas de intersecção, Mário diminuiu a velocidade levemente, continuando muito acima do permitido, e escutou o telefone tocando. Depois, tudo aconteceu muito rápido.
A chuva começou a cair em gotas pesadas.
Primeiro, Mário viu a faixa amarela cercando o corpo esmagado por uma caçamba. Era uma cena feia e dois legistas faziam seu trabalho. Mário registrou, com a visão periférica, um braço ensacado e algumas poças de sangue. Ele também notou que um dos Legistas corria para a caçamba com um plástico retangular em umas das mãos, mas as primeiras gotas de chuva caíam sobre as evidências. Lá se vai um caso, ele pensou, juntando todo o conhecimento adquirido em CSI.
Em seguida, seu celular voltou a tocar. Com uma mão, Mário pescou o aparelho dentre as pernas e olhou rapidamente para o número: Restrito, piscava a tela. Apertou o botão verde e levou o celular ao ouvido. “A-alô?”
Nada. Podia ouvir a respiração pesada do outro lado da linha.
“Alô?”, tentou novamente, desta vez mais alto. Em resposta, escutou três palavras, todas fatais. Cada uma entrou em cérebro como minúsculas facas, traduzidas em sinais elétricos, que destruíram tudo em seu caminho. Mário largou o telefone e sentiu o mundo perder o foco. Quando viu o vulto, já era tarde demais e o pneu do carro queimou contra o asfalto numa tentativa vã de freiar. O asfalto molhado não permitia tanto atrito quanto ele gostaria e o carro em alta velocidade atingiu o corpo.
Mário viu pelo retrovisor a massa vermelha e branca pelo retrovisor.
No seu colo, o celular dizia que a ligação estava cortada.

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Link chegou atrasada para o trabalho. Colocou a máscara e calçou a proteção para os tênis. Ela gostava do All Star que usava e mesmo depois de assumir um cargo de grande responsabilidades, descobriu que simplesmente faltava-lhe a coragem para se separar deles. Usava o jaleco branco, as luvas de látex e todo o resto do uniforme padrão para um legista médico, somando o All Star. Link gostava de personalizar todos os aspectos de seu cotidiano e não era sempre que as pessoas podiam ver uma ‘cientista’ de cabelos vermelhos e com três triângulos amarelos tatuados na nuca. Era uma piada interna, o seu nome. Seus pais começaram o relacionamento - no que ela acreditava ter sido a mais tórrida noite de sexo, suor e arrependimento mútuo - depois de discutir como são idiotas as pessoas que chamam Link de Zelda. Zelda, ela sabia, era a princesa e não o corajoso elfo que parte em seu resgate e ter nome do verdadeiro herói e não da princesa-fresca-sempre-em-perigo era o maior agradecimento que ela tinha para os pais. Eles eram separados e vivam suas próprias vidas agora, com outras famílias e outros problemas. Para Link, sobrava a busca pela Triforce em sua vida, busca que estava marcada eternamente em sua pele. Por baixo da tatuagem, apenas alguém com bons olhos poderia ver a cicatriz que marcava o capítulo mais dramático na luta pela vida. Ela sobrevivera aos obstáculos e estava na hora de continuar a vida. Uma nova vida, com um novo emprego e o velho diploma.
Enfrentou uma infância difícil e sua saída foi debruçar-se sobre os livros para conseguir o emprego dos sonhos; construiu, aos poucos, seu porto seguro contra os abusos paternos e maternos. Era o único modo para Link: dividir todo o tempo que tinha entre os livros e os controles, só assim conseguiu manter a lucidez. Link sentia que estava no caminho certo e sua vida estava sob controle próximo e severo; sabia exatamente o que iria acontecer com sua carreira, planos artísticos e construção familiar. Link não tinha problemas, seguia o próprio caminho, com as próprias pernas e com a espada mágica, é claro. Afinal, ela não era uma princesa em perigo, que só conseguia ser uma vaca e reclamar da situação, sem nunca mexer a porra de um dedo para fazer algo.
Um trovão explodiu acima e ela voltou para o mundo real.
Ela segurou o braço pendurado apenas por uma estreita faixa de pele e o liberou com um bisturi. Sucesso crítico!, ela pensou quando o corte se mostrou preciso e limpo. Guardou sua espada +3 no estojo e levou o braço para análise. Se pudesse contar os anos de uma pessoa como nos anéis de árvores contadas, ela já teria uma resposta para seu colega. “Entre quarenta e 45 anos. Provavelmente”, respondeu. “É difícil dizer qualquer coisa com certeza. Pobre mulher.”
Olhando para cima, Link ficou preocupada com a chuva que ameaçava despencar sobre eles. Uma chuva dessas apagaria qualquer possibilidade de pegarem o Destino, o que não seria nada, nada, nada bom. Franziu o cenho e estudou a face do Legista. Ele era legal com ela, considerando que era uma novata no campo. Mas sua obsessão em descobrir a identidade do assassino serial a preocupava. Ele havia perdido mais de dez quilos nos últimos dois meses e ela desconfiava que voltara a apostar, um vício que tinha manchado seu passado, pelo que ela escutara nos corredores do laboratório. Nada bom, meu chapa, ela pensou, passando a mão sobre a tatuagem em sua nuca, sentindo-a molhada.
A chuva começou a cair em gotas pesadas.
Link sentiu uma vibração no bolso e pegou o celular. O sinal estava cortado e ela escutou algumas palavras, sem entender realmente o que a outra pessoa dizia. “Como é?”, ela gritou, parando o dedo coberto pela luva suja de sangue há poucos milímetros do ouvido. “Não estou ouvindo! Repita, por favor.” Caminhou para procurar sinal melhor e passou por baixo da faixa amarela, que limitava o acesso público à cena do provável crime, sem perceber o homem que levantou a faixa. Também ignorou os gritos do Legista.
“É perigoso ir sozinho”, a voz disse pelo alto falante do aparelho em suas mãos, “pegue isto.”
A mulher sentiu um frio percorrer sua espinha; depois, um carro.
Link voava e sua espinha estava agora quebrada.
A chuva molhava as tatuagens expostas e, perto, alguém gritava desesperado contra a chuva, que também molhava sua cicatriz.

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Destino percorreu o dedo no sangue da mulher. Como previsto, ele precisou de pouca interferência para que ela seguisse seu destino. Esmagada por entulhos, que final trágico. Todo homem deve morrer, eis a verdade última. Não cabia a ele decidir se Deus existia ou não, se as pessoas encontrariam um homem barbudo, um elefante com oito braços ou uma mulher segurando chicote e espada. Seu papel era fazer com que as pessoas fossem de encontro ao seu destino e o Legista logo descobriria que aquela mulher escapara da tuberculose por causa da medicina moderna. Ela já deveria estar morta há meses e estar viva não era um direito do qual partilhava. Não mais. Sua existência na Terra era algo terrível e deveria ser anulada o mais breve possível. Uma ligação e um pouco de água em um ponto geograficamente fraco e pronto. O Universo estava um pouco mais no eixo. Em poucas horas a policia estaria no local e voltaria a chover. Ele tinha mais uma correção a fazer. Deixou uma marca vermelha para o Legista, pressionando fortemente o dedão ensangüentado contra a caçamba. Ele poderia pegar sua digital, ou a chuva lavaria tudo antes. Deixaria nas mãos do Destino.
O tempo passou rápido e quando ele menos esperava, o circo estava montado. Destino colocou um boné de equipe forense, o casaco azulado e infiltrou-se entre os policiais que aguardavam pela chegada do Legista. Eles nunca pensam que alguns pintores gostam, de fato, observar sua obra. O céu cinzento continuava a rolar com velocidade e um vento gelado cortava a cidade. Tudo de acordo, destino em curso.
A chuva começou a cair em gotas pesadas.
Observou, com enorme prazer, o trabalho dos dois legistas. O cuidado com as provas, as mentes trabalhando em conjunto para entender a física e o peso dos entulhos, as impressões digitais. Ficou decepcionado quando o Legista não encontrou sua impressão digital, talvez o Universo ainda precisava de mais… sincronia. Link, afinal, ainda respirava. Logo estaria chovendo e o destino seguiria o caminho. Nada mais natural.
A garota cortou um pedaço de pele e guardou o braço em um saco plástico. Destino observou tudo de perto. Retirou o celular do bolso e ligou para Mário, o analista de sistema que passava naquele ponto todos os dias. As probabilidades estavam do seu lado, como deveriam estar. O Destino não toma outras vias que não a principal. Mário passava por problemas familiares e estava sempre atrasado, uma combinação perigosa naquela chuva pesada, que começaria a cair em breve. Destino escutou o Legista gritando e se permitiu meio sorriso quando viu a impressão digital -sua impressão digital - ser lavada pelas primeiras gotas de chuva. Que pena.
Seus dedos pressionaram outros número: Link atendeu a chamada que se originava há poucos metros. Poucos segundos depois, ela procurou por uma recepção melhor, o que não seria necessário, caso o tempo estivesse limpo. Destino ergueu a faixa amarela para ela e a deixou passar, sem saber o que estava para ocorrer. O homem sorriu, disse as palavras e se deliciou com o barulho do carro de Mário.
BAM!

Destino tirou o chapéu e desapareceu no meio da multidão que se formava para ver o novo acidente, já procurando em seu celular por uma nova história, um novo desvio do Universo para ser reparado.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Norte

Do norte, desceu uma semana de temporal. Uma sensação fria que não serviu para aplacar os espinhos da alma. Era apenas alteração climática documentada. Observada por séculos e normalmente errada em previsões.

Era este pensamento que permanecia em Ricardo enquanto aguardava a ebulição da água para o chá. Não trouxe roupa alguma de frio, mesmo supondo que ele viria. Com a única manga comprida que tinha, com leve marcas de uso nas axilas, e um short que não lhe cobria os joelhos, sentia um frio que repousava em si como uma tristeza. Projetando um falso desespero que escondia o trincar dos ossos.

Lembrou-se do pai lhe contando que quase o batizara de Richard para homenagear o avô britânico. Por muita insistência da mãe, além de uma cara feia que durou mais de um mês, desistiu. Deixando o nome como é conhecido na língua portuguesa.

Enquanto prepara o chá pronuncia em voz baixa as variáveis de seu nome. “Olá, meu nome é Richard, em que posso ajudá-lo?”, “Sim, sou eu, Ricardo”, “Hello, my name is Richard” e ri de si mesmo ao pronunciar o nome inglês com sotaque brasileiro, richárdi.

Ricardo está sozinho as duas da manhã de uma noite fria que não pôde ou quis prever. Sentado na cozinha desta pequena casa que mal conhece, contemplando uma chuva feito uma personagem romântica. Não sabendo se retoma a leitura, tentando se enrolar no único cobertor da casa ou continua observando a chuva.

Sente-se deslocado de si por estar há cinco dias em um lar pouco familiar. Esperando que a chuva que não dá trégua termine para que possa sair do local, resolver os problemas que prometeu ao pai que resolveria e regressar para a casa.

A cidade vizinha está incomunicável por causa das estradas feitas de terra. Um rio temporário de lama que interrompe os caminhos de aproximação. Por isso está na casa do avô Celso. Uma herança usada por costume pelos outros familiares. Casa que não gosta pelo vazio, pela lembrança do avô morto. Não entende porque deixaram a casa de pé e não venderam quando foi possível. Agora é apenas monumento que lhe prende a um momento anterior.

Enquanto a chuva não passa, permanece enclausurado. O computador não reconhece sinal da internet e tem somente dois livros como amigos para passar o tempo. Um deles terminado ontem, com o crime de tráfico de remédios placebo vendidos para o terceiro mundo resolvido e protocolado. Resiste a prosseguir na leitura do segundo romance, mas não há outra maneira de ver as horas passarem.

Ontem dedicou-se a explorar a pequena casa, gaveta por gaveta. Encontrou retratos antigos e os vestígios da última passagem das tias pela casa. Uma embalagem de Confete com poucos doces que, aparentemente, pareciam comestíveis, mas não quis arriscar. Ir ao banheiro implica sair na chuva, por isso tem comido pouco dos suprimentos que trouxe.

Agora sente-se arrependido de ter assumido a vontade do pai. Lembra-se da viagem enjoada que fez até o meio do caminho, do pneu furado, da sensação de vazio tão vasta quanto essa ao estourar o pneu em uma rodovia pouco trafegada.

Os papéis estão dentro da mala no mesmo envelope puído que o pai lhe deu. Um envelope tão velho e cansado como o próprio pai. Por isso resolveu vir. Não achou que o velho suportaria a viagem somente para reconhecer o corpo do irmão que não vê há tanto tempo. Irmão que desgarrou-se do seio da família e agora retorna como morto, a cobrar um tributo que nunca pediu em vida.

A chuva assola seus planos. Deixa-o em um vazio que o faz pensar, regredir e pensar novamente. Mastigar sua vida até este momento em que a dor parece projetar-se maior que a felicidade. É a chuva, pensa. É a chuva. 

Mas o frio penetra-lhe a pele e permanece em dor.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

temporal

Hoje lembrei de um livreto de poemas que montei, um bem mambembe, pra primeira namorada. Muito, muito depois de ela não ser mais. Muito depois. Se chamava Temporais. Hm, não, não. Era Temporal. Lembro até da capa, mambembe também, toda tipografada, parecia poesia concreta. Era ruim que nem poesia concreta. Era assim:

TEMPORAL
            TEMPORAL
                        TEMPORAL
                                   TEMPORAL
                                               TEMPORAL

até bater no fim da página, na outra margem. Era assim ou algo assim, não lembro. Talvez o temporal viesse da direita pra esquerda, que nem escrita chinesa, de cima pra baixo que nem escrita chinesa. E eu nem sabia chinês, veja bem, na época eu nem sabia chinês. Ela, a menina, eu aposto que ainda não sabe. Mas era mesmo disso que eu falava, não era do livro, era da menina e do livro para a menina. Porque hoje acordei e pisei na rua e o céu ensaiava uma bruta chuva – inda ensaia, pra ser sincero, inda ensaia que não choveu. Céu todo preto, carregado, vou te falar, pensei “temporal vem vindo aí” e pronto, lembrei do livreto, lembrei da menina que no livreto eu dizia jamais esquecer, jamais, nunca nunca. Pois bem, pois é, esqueci. Vê você? Até mesmo antes do temporal. Simples assim, esqueci. Alguma coisa choveu, desceu água trovão e raio, pronto, tava lavado, nem mais sinal da menina pra quem o livreto foi livrado. Evoé, diria minha encarnação bacanálica de séculos atrás.

Engraçado. No livreto eu citava, no começo, Mario Quintana. Citava assim:

Que importa se –
depois de tudo – tenha "ela" partido,
casado, mudado, sumido, esquecido,
enganado, ou que quer que te haja
feito, em suma? Tiveste uma parte da
sua vida que foi só tua e, esta, ela
jamais a poderá passar de ti para ninguém.
Há bens inalienáveis, há certos momentos que, 
ao contrário do que pensas,
fazem parte da tua vida presente
e não do teu passado.
E abrem-se no teu sorriso mesmo quando,
deslembrado deles,
estiveres sorrindo a outras coisas.
Ah, nem queiras saber o quanto
deves à ingrata criatura...


Rapaz, vou te dizer. Nem sei mais se ela é ingrata. Nem sei mais quem era ela, ser sincero, nem sei mais muito bem direito, não. A ex-mulher desse livreto foi total e sumamente olvidada. O problema, meu amigo, é a mais recente namorada. Essa ainda não choveu. E as núve aqui tão preta como hora da morte.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

"Mi" - "Lá"

A lua brilhava no céu, sorrindo como o gato nas histórias da pequena Alice. O Trompetista tomou fôlego, fechou os olhos e deixou suas notas correrem soltas pela noite gelada. Elas subiram e seguiram o vento, belas e suaves, enchendo a noite gelada com o a alma do Trompetista. Eram notas longas, prolongadas além do suposto, traduzindo no Jazz, o verdadeiro olhar de blues do homem que segurava o trompete, olhos como duas bolas de gude brilhando sob o sol que morria por trás dos telhados altos que o cercavam, um brilho que em breve se extinguiriam, carregados da saudosa lembrança por algo que nem mesmo eles reconheciam. Uma tristeza que existia pelo bem de existir, pura e simplesmente. Por isso ele fechava os olhos e derramava os sentimentos pelo trompete.
As notas subiram em cadeia, sem nunca deixar de soar em direção à lua que, impassível, ria no céu escuro.
Pessoas, passos apressados, tosse seca, o som insuportável de celulares. No meio da multidão, o Trompetista declamava poesia, dizia as verdades mais enterradas em seu coração e seguia ignorado. Vez ou outra, o tilintar das moedas no seu chapéu virado de ponta cabeça aos seus pés, moedas que vinham em sua direção mais por hábito do que por reconhecimento.
O Trompetista de olhos fechados tecia a narrativa. Contava sua história no Jazz, ainda que a única a escutar era a lua a sorrir, o sorriso cruel: o gato da Alice.
Foi então que ela chegou, toda ouvidos. Primeiro, aproximou-se com timidez, passo atrás de passo atrás de passo, balançando ao sopro do Trompetista. Carregava a enorme caixa com formato de contrabaixo, jogando todo o peso do corpo magrelo do outro lado, tentando compensar o peso do instrumento.
O fôlego morreu e a nota extinguiu-se pela metade. Segurando o trompete silenciado, estudou a garota. Ela era bonita, os olhos negros e selvagens, o cabelo preso numa confusão de fios e curvas. Nas orelhas, dois brincos em formato de clave eram molestado pelo vento frio. Colocou o instrumento nos lábios molhados e uma nota se seguiu, curta e repentina: sonora questão. A garota sorriu e deitou a enorme caixa, dobrando o corpo sobre os joelhos protegidos por uma calça desbotada. Seus dedos ágeis liberaram o contrabaixo e ela o apoiou na calçada, dedilhando em resposta para o Trompetista. Em seguida, apresentou-se em escala de dó sustenido.
Ele escutou com atenção, absorvendo o que ela dizia. A lua, vacilou o sorriso. Ressoou o trompete e respondeu com três notas rápidas, seguido de um longo grave. A Baixista batucou a madeira e correu os dedos pelo braço cheio de cordas, pressionando com velocidade e precisão; exclamando para o metal.
Puxou novo fôlego e disparou nota sobre nota, escala seguida de escala, exclamação, interrogação, tese, antítese e síntese.
A garota concordou com vigor, balançando a cabeça rapidamente e girando o contrabaixo no próprio eixo. Ela exclamou em mi, ele perguntou em . E logo conversavam em melodia, madeira e metal em perfeita sintonia. Falando ao mesmo tempo, dizendo em vozes baixas e altas, eles se conheceram. Souberam tudo um sobre o outro, sem nunca trocar palavras, fizeram amor melódico - uma jam perfeita -, fumaram em seguida as partituras improvisadas.
Entre um solo e outro, o blues ficou apagado e os olhos do Trompetista se iluminaram na mais pura bossa.
A lua, sem poder sorrir para a tristeza do Trompetista, desapareceu e o céu escureceu, deixando apenas o Jazz para enfeitar a noite gelada.