quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A Linha

Especulam que um crime nunca pode ser considerado perfeito por conta de seus perpetuadores. Aquele que realiza o ato, não importando se cedo ou tarde, cometerá um erro que propiciaria a descoberta. Dessa maneira, estando à margem de seus erros, especialistas afirmam que a completude de um crime pode ser estabelecida apenas com a morte daquele que a executa.

Alguém capaz de eliminar as provas físicas do crime, tendo como último erro sua mente, anularia futuros desencontros em sua execução e consagraria a concepção de um crime perfeito, em que assassino e assassinado mantém o mesmo peso perante a morte.

A lição que custou-me a vida pela demora do aprendizado. Eu imaginava que a morte como um esporte traria uma espécie de quietude para minha alma sempre revolta.
Mas me enganei. Quando você se torna um ceifador, a morte também cobra seu preço.

As leituras tornaram-se pequenas demais para mim, apesar da biblioteca imensa. Livros que dissecavam a mente dos psicopatas mas não me preenchiam com a pergunta que sempre me perseguiu, qual o gosto da morte?

Então, tentei ser um homem correto. Me dediquei a disciplina que adquiri em livros, tentando planejar um crime sem rastreamentos. Luvas, armas afiadas, material de primeira qualidade para transformar as evidências explícitas de um crime em uma morte casual. Mas na forte facada contra o peito, não foi o sangue que me surpreendeu. E sim a sensação que confirmava que a cidade continuava com ou sem o assassinato que cometi.

A contagem de corpos ampliou-se, assim como a técnica. Concebi na prática o esforço teórico. Mas a morte tornou-se parte de mim. Como água, comida, café, sem nenhuma mudança real.

Foi após o quinto assassinato que sucumbi. Alguém que me reconhecia pelo coleguismo passado. Desesperei-me e, nervoso, mal consegui retirar-lhe a vida. Minha consciência patética tomou conta de mim.

A imagem que eu criava de alguém superior, nas literatura e nos livros históricos, era uma bobagem. A morte e o sangue não me fez melhor, apenas mais miserável. Era como se, cada vez mais, eu cortasse minha garganta sem nunca morrer. Sufocando em mim.

Minha imagem virou semelhante a qualquer um. Ocultando um segredo que me dilacerava. Percebi minha parcela de pecado. Não era a morte que me faria diferente e sim a vida que havia em mim. O quanto a preservava que deixa-me isento de culpas. Mas minha consciência tornava-se a pior das evidências. Era faca encravada no crânio que me agonizava sem parar.

Mas foi tarde. Eu já havia me tornado uma espécie de crocodilo, enrugado e com as garras afiadas. Restava-me aguardar o encontro frio entre a morte e minha lâmina.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Diário íntimo II

Quando se assumem éticas novas, religiosas, todos que te conhecem reagem da mesma forma: COMO? - eles dizem - Você não come carne? Nem frango? Nem nada? E peixe? Peixe não é carne, vá...

Mas tudo bem, a gente acostuma. E responde. Pois o lance não é só parar por parar de comer. É parar de matar. E daí que, ao parar de matar pra comer, o passo seguinte é parar de matar. Por matar.

Gritam nas multidões: matem os estupradores!, os vilões!, matem os pequenos trombadinhas marginais, fuzilem os antirrevolucionários, ya!

E gritam, no meio da sala, na cozinha, quando uma barata entra voando sozinha, em noite de calor: MATA!, MATA!, MATA! Mas não.

Eu não mato.

Não posso matar, sabe? Não posso matar, não posso ferir nem posso atacar. Não posso e, a partir do momento que “não se pode”, começa a fazer sentido o “não se deve”. É uma coisa que muda a coisa toda, parar de matar. Mesmo que seja uma barata. Que entre voando pela sacada. Mesmo que seja um bicho da gota, que tá ca moléstia, mesmo que seja.

Quando ela entrou, voando, brilhosa, dava até pra sentir a respiração. Ofegante. Eu via o casco em cansaço, parado na moldura do quadro. Tremi. Não matar pernilongo, muriçoca, tudo bem, basta concentração e entrega, desapego. Ele vem e vai te picar, levar teu sangue, fazer coçar, mas tudo bem. É fácil.

Mas barata? É nojenta, meu deus, é nojenta. Ô Buda, abre uma exceção, vai, eu até ofereço mais incensos no altar. Deixa eu matar?

Não.

É um bom exercício, é zen, rodar pela sala atrás da barata, fazê-la sair sem quebrar a carcaça. É sim. É feito um trabalho monástico, uma meditação: preste atenção, rapaz, preste atenção no momento, na ação, respire lenta e suavemente – NÃO!, não aperta a vassoura, não faz que ela morra, não... cuidado... vai, isso... cuidado.

Foi? Rendição? Barata alçou voo e voltou pra janela, pra noite, pra estrela, pro esgoto, lixão? Ótimo.

Buda, um incenso a menos pra você, meu amigo: desafio do dharma vencido.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Retorno à casa


Preso num vórtice, solto no mar, voltava de viagem depois de muitos anos. Ele olhou na imensidão das lembranças de tudo mais que viverá e escolheu, sem muito pensar, o caminho à direita.

Seguiu à direita e logo avistou um porto que lhe era familiar. Aportou o barco, amarrou as cordas, afundou a âncora e partiu.

Parou num bar, sentou-se na mesa, pegou um pão - que havia pedido à garçonete  - partiu-o em dois e comeu um pedaço. Uma lágrima escorreu do canto dos olhos, ele sorriu e sentiu-se completo.

Estava em casa finalmente.

Naquela noite ele bebeu por dez, brigou por cem. Riu como quem jamais teve um problema.

Arrumou uma moça, dessas sem muita pretensão ou direito de escolha. Alugou um quarto. Curtiu o final da noite como se a manhã jamais fosse chegar.

A manhã chegou, veio tão clara de doer seus olhos cansados. Não se importou.

Partiu novamente, no barco ancorado no porto da cidade. Não foi ver a esposa e os filhos. Não, já havia encontrado ali, naquela taverna, toda a familia de que precisava.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Um Ano

A tela plana da televisão refletiu seu semblante impaciente. Olhou novamente para o relógio, presente dela, e procurou algum objeto naquela sala que ainda não tivesse observado com atenção. Mas tudo, somente naquele momento, tinha sido observado, avaliado, catalogado por seus pensamentos enquanto a esperava.

No patamar superior da televisão, uma foto do casal apresentava-se como decoração central. Uma imagem que não lhe deu prazer em fotografar mas, pelo estado fervente de impaciência e teimosia dela, aceitou sem escolha.

Era uma imagem capturada em um estúdio, com toda artificialidade que tal feito pode produzir. Um fundo em tom pasteis dava a sensação etérea da cena. A manipulação resgatando o estilo de imagens antigas, em sépia, intentava ser nobre, mas o amarelado da foto lhe pareceu triste.

Encostados em um abraço programado, sorriam para a câmera, de maneira perfeita. Sem erros ou falhas, retirados após uma edição. Era uma cena repleta de falsidade pelo seu conjunto e, por ele, pela má vontade de produzi-la. Porém, o que mais lhe afligia era a moldura, feita de maneira, com dois traçados e com uma pequena placa de metal dourado que gravava as palavras Um Ano no centro inferior dela.

A somatória apresentada na moldura da foto lhe produziu engulhos. Foi até a cozinha pegar um copo d´agua e, na escuridão, apoiou-se na janela, refletindo. O totem exposto na sala era um incomodo, não um motivo de orgulho. Houve um momento – e sempre há, em todas as histórias – que a contagem diária dos números possuía algum sentido.

Hoje parecia somente uma corrente. Uma longa corrente de trezentos e sessenta e cinco elos presos em seu pescoço. Peso que lhe machucava imaginariamente as costas.

Nós últimos meses, Jorge mais brigara com Amanda do que alimentaram a chama do amor. Farpas penetravam em qualquer parte do corpo, por qualquer motivo. Uma desatenção após um dia cansado, uma informação compreendida de maneira errônea, ciúmes doente. Sensações que mais o deixam em um torvelinho de desespero de que paz. O que, supostamente, deveria ser um dos alicerces para a construção de um bom amor.

Não, pensou. O número de vezes que retornaram nem estava mais em suas memórias. Momentos em que ela deixava a caixa com seus pertences, e os presentes dado a ela, na frente de seu apartamento. Ligações para a mãe de Jorge, evidenciando como o filho era canalha. Brigas que terminavam em lágrimas e uma espécie de loucura que fazia com que ele, silenciosamente, desse um passo para trás, lentamente.

Um ano repleto de elos quebrados, pensou. Lá permanecendo de volta. Ao mesmo lugar que parecia aconchegante para seus olhos mas sem a sensação de um conforto verdadeiro. Após a última briga e a reconciliação marcada por esse jantar tudo parecia falso. Como o retrato que, novamente, voltou a observar.

Havia medo dentro das entranhas. De abandonar o que lhe era visível para um mergulho na escuridão. Mas novamente a força da imagem de mentira do retrato lhe causou tanta repulsa que não teve escolha. Aplicou o pensamento que, há certo tempo, estava escondido dentro de si.

Deixou as flores sobre a mesa, pois tinha escolhido especialmente para ela. E deixou o apartamento vazio para o amor que ela transformou em pedaços.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Diário íntimo I

“É uma estupidez
não ter esperança”

(O velho e o mar
- Hemingway)

Quando se retorna, seja lá donde se venha, a única coisa que importa é o quanto se vai ficar. Quando se está fora, longe de casa, a única coisa que importa é não pensar na volta, nunca, de jeito nenhum.

Exceto quando se volta.

E eu volto agora como volta o clube, como volta janeiro, como volta o mundo. E voltando na rua cedo, por sob a chuva, ouvindo o riso de uma criança à toa, brincando perto, sorri um pouco.

Nada demais, vocês logo percebem. Nada no mundo é nada demais.

O retorno quebra o ânimo e entusiasmo. Cada retorno mata um pouco. Cada volta que a gente dá aumenta em dois os centímetros da alma.

A cada morte de cada volta os centímetros se transformam, se tornam metros e algumas horas. A cada volta a pouca morte faz crescer, e desprende. Estamos mais velhos com o retorno, e melhores.