sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Trampolins

Tenho esperado essa encomenda há mais de um mês. Diversas tardes passei angustiado, achando que qualquer barulho na rua fosse a campainha. Ontem, justamente quando estava no meu escritório do centro odontológico, um entregador foi em casa para ninguém.

Deixou-me um anuncio avisando da falha tentativa de entrega. Motivo no qual o despertador gritou as oito em ponto e as oito e meia eu trancava a porta principal de casa. Estaria nos Correios assim que abrisse.

Se eu fumasse, estaria na metade do segundo cigarro. Sentei no meio fio aguardando que a porta lateral abrisse, a esquerda de uma gigantesca garagem que recebia e despachava entregas, somente para funcionários.

“Bom Dia, vim retirar um pacote que ontem foi entregue em minha casa.” A moça do balcão me olha, esperando. “Tentaram entregar mas eu não estava” e retirei do bolso a notificação.

Ela era atraente mesmo na roupa azul e amarela dos Correios. Seu rosto fora agredido pelo tempo, mas ainda assim saira vencedora. Levou o papel para seu campo de visão e, acompanhando com o indicador um código de mais de treze dígitos, passou os dados para um computador.

“Está para entrega hoje, novamente. Ontem foi a primeira tentativa”. Esperou novamente.

“Seria possível retirar agora?”, e tentei apelar para meu sorriso mais convidativo. Ela retornou a olhar o papel, e num suspiro disse me que não. Entregas de produtos ainda em rota somente após as dez e meia.

Olhei para trás e, além de mim, só havia pedaços de papel picado no chão do salão. Vasculhei a mente a procura de um sorriso melhor que o anterior, acrescido da tentativa de olhar profundamente nos olhos. “Estou aguardando essa encomenda por mais de um mês, não posso mesmo pegar agora?”.

E, lentamente, eu vislumbrava meu pacote, preso embaixo de seu braço. Assim que colocou no balcão, arranhei com minha chave as proteções e retirei do envelope. Só havia um papel bolha entre eu e aquilo que considerava uma das belezas mais belas que já pus os olhos, perdão a hipérbole.

“Veja só, veja só, veja só”. O livro tocou levemente o balcão. Era novo, intocável. Suas mais de mil páginas lhe davam um peso que imaginei não ser capaz de suportar. Elevei-o até a altura dos olhos, “todas as peças de William Shakespeare”, sussurrei e, sem nenhuma vergonha, senti o aroma de papel recém impresso.

“Parece especial”, me disse. “Sim”, respondi, “um dos meus autores máximos e um dos maiores da literatura. Desculpe se exagerei”, tentando corrigir minha contemplação anterior. Ergueu-me uma das sobrancelhas ao invés de chamar-me de maluco. O computador imprimia uma ordem de entrega que ela me deu, instantes depois, para assinar. “Nome completo na linha e me mostre sua identificação, senhor”.

Quando meus olhos pousaram novamente nela, ela sorria. Minha vez de erguer a sobrancelha. “Está tudo certo e, a propósito, meu nome é Mônica”.

A manhã me atrasou em segundos para compreender seu sorriso e, quando percebi, eu já havia começado um amarelo. Essa sentença que me persegue pouco depois de meu nascimento, provavelmente, estaria comigo até o fim da vida. Ter um nome, ou parte dele, de uma canção que se tornaria famosa em todo o Brasil pela banda de rock de Renato Russo.

“Prazer, Eduardo”, disse, mantendo o sorriso e estendendo-lhe a mão, suave, alias. Esperamos, sabendo que nenhum dos dois diria mais nada.

Meia hora depois, a obra completa de Shakespeare iluminava minha mesa como nada foi capaz. Folheei as páginas como um devoto que encontra as palavras de seu deus. Romeu e Julieta, segundo ato, segunda cena, entra Romeu: He jests at scars that never felt a wound.


Só ri de uma cicatriz quem nunca foi ferido. E meus pensamentos eclodiram no sorriso de Mônica. Na posição perfeita dos dentes em contraponto as marcas desgastadas na pele. Quantas escaras aquele riso já teria colocado para fora, refleti. Ela esteve comigo em pensamento por aquele dia todo. Eu estava condenado.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

molho

Hoje ele não veio ao bar. Supostamente um milhão de coisas o ocupam agora, umas bem boas, outras nem tanto, meia dúzia de se jogar fora e três muito importantes.

A mesa do canto esquerdo, lá no fundo, está vazia. Nem seus amigos vieram. Ele tem coisas que o ocupam, os amigos não sei dizer. São todos uns vagabundos, esses caras, então devem não ter vindo para encher a cara em outro lugar.

A garçonete vai ter menos gorjeta, essa noite.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Devagar

Otávio não me deixou fazer a limpeza da sala no final de semana. Atrasando minha estréia como escritor com uma sala própria para terça-feira. Limpei o local na segunda, pela manhã, e contemplando o vazio, novamente imaculado, do lugar senti um arrepio.

Me vi em um devaneio em que as personagens que criei apareciam diante de mim, olhando fixamente em meus olhos, esperando que eu tomasse alguma atitude. Lembre-me de diversos argumentos que esbocei e nunca cheguei ao fim. Seria possível que personagens incompletas agonizassem, como um ser vivo, acidentado, sem discernir real ou ficção?

Fechei meus olhos com força e ao abrir, novamente a emaculação do branco das paredes. Tudo não passava de um susto, talvez produzido pelos exercícios que fiz na ultima hora. Para quem passa boa parte de seu dia sentado em uma cadeira, tirar entulhos de um quarto e varrê-lo é uma breve morte.

A tarde, um amigo que convenci para me ajudar nos móveis, contrariou-me a respeito da escrivaninha. Evidente que meu desejo prevalesceu e ela ficou contra a parede de entrada, com uma luminária na ponta e itens básicos para um escritor. Notebook e papeis avulsos, comumente usados para escrever agressões próprias e pendurar pelas paredes.

Eram três horas da tarde quando o cursor do programa de texto piscava incessantemente. A mesma ladainha de sempre. A cadeira que comprei no final de semana era confortável e, como criança, fiquei a girar, falando com voz baixa, uma idéia, uma idéia, tenha uma idéia. Nada veio.

A garganta estava seca e sai da sala, rumo a de pacientes para pegar um copo d´agua. Seria necessário estocar alguns engradados de água, para evitar que eu saísse de lá o tempo todo. Como gostava também de refletir deitado, pensei em comprar um colchão para deixar no canto, mas tive medo que Otávio imaginasse que eu quisesse me hospedar ali. Ou que transformasse aquele local com água e um colchão no chão em um improvisado cativeiro.

Decidi que não era a hora exata para pensar a respeito. Com a sala montada, o local estaria definido. Oficialmente, começaria escrever amanhã assim Hilda abrisse o consultório.

Sai as cinco horas, Otávio ainda estava com pacientes. Não pudemos conversar mas, que diabo, ele estaria presente amanhã. Fui a loja da quadra seguinte e estava pronto. O cartão de visitas que pedi mais cedo. Era um prazer que dediquei a mim mesmo, caso precisasse, nunca se sabe.
Em papel marfim, levemente poroso, com letras pretas. Trazia meu nome, profissão e o telefone para contato. Um símbolo estúpido, confesso, mas que, para mim, significava muito. Além de um local para escrever, as pessoas poderiam me procurar para estabelecer contatos. Era o começo daquilo que gostaria de viver desde que era uma criança.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

moscas

Abro mais uma sentado aqui. O tampo de mármore dessa mesa gela meus dedos mais que a cerveja. Ouço um silêncio da porra, isso sim. Silêncio demais pra mim, até. Esse bar era melhor, tenho certeza disso. Tenho certeza.

Outra vez a porta se fecha. Nem me viro mais para olhar. Só o barulho acusa: um outro filho da puta deixou o salão. Pela reação da atendente a gorjeta foi pouca. Ninguém mais respeita ninguém, ninguém mais.

A cerveja acaba, já quente. No fundo do dente um pedaço de amêndoa resiste. É a única, casca grossa.