sexta-feira, 6 de abril de 2012

O Velho, a Cachalote e o Mar


Olhou para o relógio, impaciente. Depois relaxou, afinal tinha o resto de sua vida para ficar naquela fila. Alcançou o kindle em sua pasta de couro e retomou a leitura de um dos livros de Murakami. Entre os dedos, tinha um moeda. Uma brisa acariciou o rosto quadrado e cansado do homem encostado na parede, posição que lhe permitia jogar o peso do corpo em uma perna de cada vez, o sol da primavera banhava toda a fila, tornando a temperatura agradável. Depois de algumas páginas a fila novamente andou.
“Finalmente”, alguém falou atrás dele. “Não tenho minha vida toda para ficar aqui!”, o tom sarcástico da frase arrancou-lhe uma risada, liberada em uma explosão engasgada. Ainda tossindo ele se virou e apertou a mão do responsável pela piada. Pela primeira vez em sua vida, teve o prazer de literalmente chorar de rir. Ainda dobrado sobre o próprio estômago, lutando por ar e pensando na ironia de morrer de tanto rir no lugar em que estava, ele reparou no tênis do homem que estava atrás dele. Calçava um par surrado de tênis brancos para corrida. Manchas de terra cobriam as laterais dos tênis.
“Gosta de correr?”, perguntou depois de finalmente recuperar o fôlego.
Não poderiam formar maior contraste. Ele vestia um terno de corte perfeito, costurado sob medida, uma gravata de seda e ostentava um corte de cabelo que provavelmente era mais caro que o livro digital que tinha nas mãos. Aproveite que está observando o estereótipo apresentado, caro leitor, e veja suas mãos, note a marca pálida ao redor do quarto dedo da mão esquerda, onde uma aliança costumava ficar.
O homem com quem conversava vestia uma flanela estampada com um padrão quadrangular, verde e vermelho. Grossos óculos sustentados por uma armação barata, cabelos monumentalmente bagunçados e um livro de capa mole nas mãos, com uma pequena moeda entre as páginas, ele notou. O pobre livro parecia ter sido impresso pelo próprio Gutenberg e o modo como o jovem o segurava não contribuía para seu estado de conservação.
“Quase todos os dias. Estava precisando me exercitar, você sabe, muito tempo sentado na frente do computador, trabalhando e escrevendo, escrevendo e trabalhando. E não foi uma transformação lenta, gradual, ah não! Foi um... boom! Numa semana eu era um palito, na outra não conseguia entrar nos meus jeans.” Tinha uma voz calma e monótona, deixando pouco espaço para continuar o diálogo. Ele percebeu que o jovem não gostava muito de conversar.
“Eu também gosto de correr. Odiava no começo, era um sacrifício sair de casa. Todo o ritual de me trocar, colocar a roupa desconfortável de academia, desligar a TV e finalmente sair do sofá era muito cansativo. Eu trancava a porta de casa já pensando no momento em que estaria de volta. Mas, devagar, conforme fui superando um ou dois quilômetros antes das minhas pernas virarem geléia, fui gostando de correr. Meu cérebro viajava para bons lugares quando eu estava na academia.” Quando o jovem não disse mais nada, pensou em vão em algo para falar. Voltou para sua posição, observando os olhares desinteressados das outras pessoas na quilométrica fila.
“Eu corro em parques”. As palavras chegaram com surpresa em seus ouvidos. “Corro para ver pessoas, desviar dos cachorros e desafiar os carros que teimam em não respeitar as faixas de pedestre”, o jovem continuou com uma voz tímida.
“Eu percebi que você corria em lugares abertos”, apontou com o queixo, “seus tênis não estão mais exatamente brancos.”
“Isto? Isto não é terra, é saibro. Sempre evito o mesmo percurso, então algumas vezes tenho de cortar campos de futebol ou quadras de tênis. Normalmente os jogadores me xingam... principalmente se eu paro para roubar algumas bolas e um ou dois gatorades”, os dois gargalhavam. Estudando sua fisionomia, o jovem disse: “Você não parece o tipo de cara que chega tarde do trabalho e, no lugar de abrir umas cervejas e assistir um jogo de futebol qualquer, sai para correr.”
“Comecei por causa do Haruki Murakami.”
“O cara do Norwegian Wood?”
“Ele mesmo. Tem um livro dele sobre correr longas distâncias quase todos os dias e como isso o influência. Fiquei curioso enquanto lia e decidi tentar, apenas para confirmar as coisas das quais ele falou. Para ele, qualquer ação pode ser meditativa, desde que você a realize vezes o suficiente... qualquer coisa, como por exemplo correr. Seu corpo se acostuma, os músculos respondem ao estímulo e logo sua mente começa a divagar.”
A fila andou e os dois se calaram por alguns momentos. O homem de terno estava de costas para a direção da fila, saboreando aquela discussão com um prazer raro em sua vida. Pelo menos nas últimas decadas. Sem perceber, brincava com uma aliança invisível em sua mão esquerda, mão que segurava, persistente, a moeda.
“Eu gostaria de ter lido esse livro, às vezes teria me estimulado mais”, continuou o jovem. “Meus amigos que leram algumas coisas dele sempre falaram que é um autor obrigatório. Parece que as histórias dele chegam como um meteoro disfarçado de livro e muda completamente a maneira de pensar. Sempre pensei nele como uma espécie de droga, como a heroína, que muda a química do cérebro e, de repente, você está viciado, você precisa daquilo para seu cérebro estar no estado normal.”
“Hum... Nunca havia pensado dessa forma. Posso concordar.” Ele olhava para a pequena tela do livro digital, lendo palavras aleatórias. “O Murakami é um cara de sensibilidade, que sabe como escrever sobre a vida em detalhes, de uma perspectiva talvez única.”
“Talvez. A verdade é que muita gente soube escrever da vida em uma perspectiva única. A minha vida, por exemplo, pode ser comparada ao Moby Dick. Não que eu seja uma espécie de Ahab, mas com certeza tenho minha cachalote branca.” Um esgar cruzou o rosto do rapaz.
“Uma obsessão, hein?”
“Forte. Escrever livros, contar histórias. Minha paixão, minha maior frustração. Nunca fui capaz de escrever uma linha de frases fortes e sólidas, tudo que criava era frágil, sem vida, insípido e simplesmente não funcional. Escrever é minha baleia branca e queimei tudo e todos que tinha para perseguí-la, essa vadia do mar.” O jovem de tênis de corrida fechou o livro, revelando a capa surrada do volume, com quatro imagens distintas, representando um ciclo anual. Começo, meio e fim: Quatro Estações, com Stephen King escrito em letras garrafais e chamativas.
“A maioria das pessoas nessa fila poderia contar a mesma história, garoto. Também tive minha obsessão, mas acho que sou outro livro. Eu alcancei aquilo que queria e fui teimoso em continuar, mesmo quando tudo começou a se deteriorar. Eu fui, por anos, o mais bem sucedido especulador nas bolsas. Dinheiro, fama, poder... amor. Eu tive tudo”, mostrou a marca da aliança para o jovem, “mas tudo acaba algum dia, não é? Infelizmente minha vida não foi um Murakami, eu fui um Hemingway, mais precisamente O Velho e o Mar. O velho teimoso... Santiago, se não me falha a memória, pegou um gigantesco pei-”
“Um peixe espada”, cortou o jovem.
“Um peixe espada. Ele fisgou esse peixe e foi arrastado para o mar aberto, bem longe da costa, longe demais, percebe? Santiago tinha aquele animal extraordinário, igualmente forte e lutador, o que o condenou. Pensando melhor, o que o condenou foi a teimosia própria, não a do peixe. Quando ele voltou para a vila o que tinha para mostrar?”
“Apenas o que sobrou depois dos tubarões.”
“Exatamente, apenas o que os tubarões deixaram. Meu peixe foi atacado pelo sistema, pelas horas que fiquei longe de minha família, pelas coisas que ignorei, pela ganância. Mas eu não queria acreditar que teria de escolher. Eu era um super-homem, um administrador nato. Poderia facilmente conciliar minha vida profissional com a pessoal.” Novamente ergueu a mão esquerda: “Esse é o resto do meu peixe.”
“Gostaria que minha vida fosse um Stephen King. Não precisa me olhar com esse espanto na cara, não me refiro aos litros de sangue, aos monstros, fantasmas ou alienígenas anais. Conta Comigo, eis uma lição para carregar. A aventura, a amizade, a magia... e um pouco de ingenuidade. Não tem como ser mais perfeito! Nós gastamos os dias, um atrás do outro, na espera de envelhecer e morrer. Buscamos por distrações para não ficarmos entediados nesse meio tempo, eis a pura verdade. O certo seria viver e não apenas existir. Eu nunca andei nos trilhos do trem para achar um corpo, por assim dizer.”
Enquanto a fila novamente andava, o homem de terno guardou o Kindle e afrouxou o nó da gravata. Os dois tiraram os calçados e jogaram em uma grande caixa, cheia de sapatos, chinelos, sandálias e sapatilhas. Daquele ponto em diante, todos estavam descalços. Mais duas pessoas na fila, um velho e uma mulher na casa dos trinta e sua espera acabaria. Um embrulho tomou conta de seu estômago.
“Meu maior problema são as pessoas. No meio em que vivi, não havia bondade, apenas uma gigantesca arena, onde a lei era matar ou morrer”, ele disse enquanto desabotoava a camisa. “Não há felicidade dessa forma. Não existe tal coisa como pessoas boas num lugar em que você tira suas chances diretamente das mãos de outros.”
“Acho que as pessoas são tão boas quanto a bondade que têm com quem menos gostam. Estamos nivelados no nosso pior. Digo, o que adianta você ser a melhor pessoa com seu amorzinho e um bosta com o resto das pessoas? Nesse caso, você é feito de merda, cara. Do mesmo modo, se você é bom com todos, mas um imbecil com... sei lá, uma garçonete ou um frentista, você ainda é feito de fezes. Puro cocô.”
“Sendo assim, sou uma péssima pessoa. Horrível mesmo.”
“Todos somos.”
Sorriram. Despiram-se ao mesmo tempo, com naturalidade e sem pudor qualquer. Manteve o relógio, entretanto: sem o aperto no pulso, sentia-se nu.
“Obrigado pela conversa. Há anos não tinha algum momento simples assim. Obrigado, de verdade”, ele disse com sinceridade. Olhou para a cabine azul e pensou no Super-Homem, no Doctor Who, na Inglaterra e, surpreendentemente, em um clube lotado de stripers. Estava na sua vez.
“Você é uma pessoa que sabe muito sobre a vida. Eu agradeço pela conversa”, respondeu o jovem, agora descalço e nu. O livro ainda estava em suas mãos, guardando a moeda entre as primeiras páginas.
Caminhou para a cabine, cantando Norwegian Wood em sua mente. Cabine Para Suicídio Nº 19, diziam as palavras pintadas na porta da cabine que lembrava um telefone público de Londres. Funciona com moedas de 25c e 50c, não retorna troco.
Antes de entrar, virou-se e disse ao jovem:
“Se você der tempo suficiente para uma história, ela invariavelmente acabará em morte. Acho que foi o Neil Gaiman, no Sandman.
Hesitou, ainda tinha tempo.
Nah, pensou, o que eu sei sobre a vida?
Apenas com o relógio e a moeda de 50 centavos, entrou na cabine.

3 comentários:

  1. Puta que pariu, que pedaco de texto animal!
    Cara, eu confesso que sempre venho ao clube pra ler o Thiago e vez ou outra, acabo lendo o Leandro tb. No entanto, eu nunca tinha lido vc. Hj, to aqui no shopping, na fila na fila do correio esperando a minha vez, pra mandar um postal pra minha mae qdo resolvi passar pelo clube novamente. Qdo vi seu texto, fiquei com raiva pelo tamanho dele. Eu gosto de passar no clube rapidamente, tomar meu cafe ou qq outra coisa e sair fora rapidamente, apos ler os textos do Th ou Leandro. Nao sei pq, hj resolvi ler o seu e qdo percebi, a minha fila aqui tinha andado e e eu nao tinha ficado pra tras. Na real, nem liguei pq embarquei total nas suas linhas muito bem conduzidas. Well, parabens e saiba que de hj em diante, vc ganhou um leitor!

    PS: sou personal trainer e suas linhas iniciais ganharam minha atencao. Apos isso, percebi que era apenas o comeco!

    Do caralho!
    cheers

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    1. Falou e disse Rafael!, concordo indeed :)! E mais, alem dos contos envolventes aprecio muito as dicas de grandes obras e escritores que o Mauricio Ieiri divide com seus leitores como o Murakami, H. Melville...como ja havia dito; excelente, informativo e envolvente. Sou sua fa número 1, parabens! Meliza

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    2. Obrigado Rafael! Agradeço as palavras e sei que os contos são um pouco longos às vezes, mas acho que é um bom espaço para brincar com as histórias.

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