sexta-feira, 20 de abril de 2012

As Várias Vidas de Zack - 1


Há momentos em que o tecido da realidade permanece fino, instável em sua própria natureza. Nesses momentos, uma física anárquica toma conta de pequenos espaços mundanos; o caos impera e o paradoxo reina. São momentos mágicos, musas quase sobrenaturais para poetas loucos ou romancistas psicóticos, momentos esses que são causados por eventos aleatórios ou entidades poderosas.
Zack, proprietário e bartender do velho Clube da cidade, estava preso em um desses momentos, desencadeado pela presença de três entidades míticas. Naquela singela tarde, uma tarde sem nada de especial na ignorante opinião de Zack, a vida de algumas pessoas tomariam rumos inesperados. Na verdade, o próprio passado iria mudar. Assumindo um ponto da sinceridade ainda maior, caro leitor, durante todas as mudanças, os destinos, os caminhos sempre permaneceriam os mesmos, pois seriam únicos, eternos.
Vestia uma camiseta branca com os quatro símbolos do Led Zeppelin estampados, calça jeans desbotadas e um velho par de tênis, confortáveis justamente por estarem desgastados. Zack tentava levar a vida na maior leveza possível; quando não estava repondo o estoque de cerveja ou preparando batatas ou limpando as mesas, ele lia grossos livros sobre a história da ciência e escutava discos velhos de rock setentista. Ficava fora dos problemas de seus clientes, oferecia apenas um pouco de batata frita e conforto etílico. Sempre parava de servir os que deixavam para trás a linha da sobriedade e ficava fora de seus problemas pessoais, essa era a única Regra de Zack.
A vida do bartender seguia suave e sem surpresas. Zack era, no entanto, infeliz. Sentia que vivam em um prisão temporal. Não acreditava que vivia o destino certo, estava sempre deslocado. Mesmo em no conforto de sua cama, na familiaridade da pequena biblioteca particular, algo estava errado. Zack não era quem deveria ser, esse era o problema.
No Clube, as mesmas pessoas engoliam batatas fritas e cervejas; a jukebox tocava Stargazer, do Rainbow e a televisão passava algum silencioso tumulto estudantil. O Clube não era famoso pela televisão pendurada atrás do balcão: era a jukebox que trazia de volta os clientes. No Clube você poderia, com uma moeda de 25 centavos, escutar todo o Rubber Soul, dos Beatles ou um dos Remasters, do Zeppelin. Terminou de lavar um copo e andou até o fim do balcão, onde uma mulher terminava a terceira cerveja da noite. Ela era japonesa, baixa e magra. Diria que estava na casa dos cinquenta, mas não se atreveria a adivinhar a idade de um japonês, eles têm uma estranha mania de sempre paracer jovens.
“Mais uma?”, perguntou.
Ela considerou por alguns instantes. “Não, obrigada. Vou pegar a estrada.” Ele a estudou mais atentamente. Vestia uma jaqueta de couro e tinha ao lado um capacete vermelho.
“Você está em condições de dirigir?”
“Não me julgue pela aparência, jovem”, ela sorriu. Não conseguia se lembrar da última vez que fora chamado de ‘jovem’. “Consigo lidar bem com minha bebida. Além disso, acho que a cerveja vai me acalmar um pouco, vou fazer uma viagem longa.”
“Para onde?”
Ela olhou com profundidade para o bartender, talvez medindo a confiança que ele emitia. Por fim, decidiu contar o que iria fazer naquela tarde, confiava em alguém que gostava tanto de Zeppelin, pensou. Não fazia diferença alguma, concluiu, apenas alguns quilômetros e nada teria importância. “A pergunta está errada. Para quando eu vou, você deveria perguntar.” Ela colocou uma chave sobre o balcão. Era uma chave comum, Harley Davidson dizia em seu corpo.
“Uma chave”, ele respondeu sem qualquer emoção.
“Não, não, jovem. A chave. Estou com a moto do meu marido... falecido... falecido marido. Ele sempre amou motos e mesmo levando uma vida simples, juntou dinheiro suficiente para comprar uma Fat Boy. Ano passado ele morreu. Câncer, essa Vadia. Eu me conformei”, segurava algumas lágrima, Zack percebeu, “e continuei a viver, o que mais poderia fazer? Nunca tivemos filhos ou amigos próximos, vivíamos um pelo outro... bom, ele vivia pela moto também. Sabe que cheguei a ter ciúmes da moto? Uma noite peguei um martelo, decidida a destruir aquela máquina maldita que dividia comigo meu marido, como aqueles primeiros artesãos que se rebelaram contra as primeiras fiadeiras que vi em um documentário.” Ela ponderou alguns segundos e retomou: “Os artesão não diviam os maridos, quero dizer. Eles destruíram as máquinas que roubavam os empregos. Por fim, não fiz nada, não tive coragem de destruir parte importante da vida do Tezuko. Ele andou naquela Fat Boy até quase o fim de suas energias, era impressionante a determinação de rodar alguns quilômetros, mesmo fraco e passando mal por causa da quimioterapia.”
Zack olhou ao redor. Um homem estava sentado perto da televisão, abraçado a uma pequena caixa de madeira como se fosse o maior tesouro da Terra; três senhoras sentavam na outra ponta do balcão, uma lia o jornal do dia com a ajuda de grossas lentes. As outras duas senhoras tricotavam com visível esforço para enxergar o que faziam. Outras duas pessoas sentavam perto da jukebox. Stargazer se aproximava do fim.
“Não vou demorar muito”, ela soltou em um tom ofendido.
“Não se preocupe, acho que todos estão bem. Continue, por favor.”
Ela o encarou, com os olhos pequenos e brilhantes. Vivos, ele pensou, como os olhos de uma criança que ainda acredita em magia.
“A quimioterapia era um veneno para meu Tezuko. Ele vomitava e vomitava e vomitava. Às vezes dizia que iria virar do avesso. Se arrastava pela casa, branco e sem energia, mas quando estava perto da moto, um pouco da cor voltava nas bochechas e rugas de seu rosto”, lágrimas caíam livremente. “Ficava longas horas limpando cada centímetro da Harley, medindo o nível do óleo, polindo o tanque, verificando as marchas. Acho que a moto lhe deu alguns meses de vida. Mas no final, o terrível dragão venceu e agora ele é um punhado de pó. Depois que ele morreu, pensei em me livrar da moto e achei um comprador, mas no dia antes de receber quase o mesmo valor de uma moto nova, um envelope escorregou por baixo da minha porta. Meu coração gelou e caí de joelhos no chão da cozinha. Era a letra do Tezuko!”, a velha japonesa agarrava Zack pelos ombros, com força suficiente para deixar marcas vermelhas de dedos.
Mais uma maluca com muito álcool na cabeça, ele amaldiçoou.
Ela largou o bartender e apontou para a chave pousada na madeira do Clube. “Dentro do envelope tinha essa chave. Com mãos trêmulas, fui até a moto e a testei. Precisei de um pouco mais de força para dar partida, mas a chave funcionou como deveria. Quem tinha me mandado a chave? Meu nome no envelope tinha um smiley, um brincadeira que ele sempre fazia quando escrevia algo importante para mim. Fazia anos que não andava na moto, mas a tirei da garagem mesmo assim, vesti minha velha jaqueta e coloquei o capacete. Foi maravilhoso sentir o cheiro do cabelo de Tezuko, ainda que fraco. Quando percebi, estava na estrada, longe de casa. Dirigi nove horas seguidas. Sem parar, sem descansar, sem precisar de mais combustível. Aliás, o tanque continuava cheio. Dormi em um hotel qualquer e voltei para casa. De manhã, quando peguei o jornal, vi que marcava o dia anterior na capa. As mesmas manchetes, as mesmas fotos, os mesmos assassinatos. Achei que era um erro do entregador, mas tudo bem, sem problemas, não iria causar confusão por causa de um jornal errado... não sou esse tipo de pessoa. Resolvi preparar um pouco de café e separar os documentos da moto. A volta tinha sido boa, o barulho do motor agradável, mas o que eu iria fazer com uma moto? Achei, naquela hora, que o Tezuko queria que eu tivesse dado uma última volta e pediu para algum amigo para entregar a chave”, ela brincava com o objeto, rodando entre os dedos.
Zack não sabia o que dizer, apenas se debruçou no balcão e alcançou uma cerveja. Estava fisgado pela história da velha japonesa. Mesmo ferindo sua única regra, queria ouvir a história.
“É claro que separei a chave que chegou no envelope, tinha a intenção de guardar com carinho: a última lembrança do meu amor de toda a vida. O comprador, no entanto, me ligou e disse exatamente as mesmas coisas que tinha dito no dia anterior, na mesma ordem, na mesma animação, marcando para o encontro para o próximo dia. Será que eu tinha circulado o dia errado no meu calendário? Liguei a televisão e o jornal de ontem estava passando. Então eu pensei que...”
“Você viajou um dia no passado”, ele concluiu.
“Exatamente. Agora, você deve estar achando que sou apenas uma japonesa velha e bêbada, mas estou bem sóbria, apesar de ainda continuar velha. Eu pense, hey, não posso deixar isso assim, tenho que testar. Coloquei o casaco e voltei para a moto sem pensar... afinal, quem iria continuar essa loucura toda se tivesse parado para raciocinar? Liguei a moto e dei a partida. Antes de sair, tive uma idéia louca. Precisava de alguma prova, alguma marca. Desliguei a moto e, com a chave, fiz um pequeno corte no meu braço. Tive que voltar para casa e fazer um curativo, saiu mais sangue do que eu queria. Dirigi as mesmas nove horas, dormi no mesmo hotel. Ninguém falou comigo como se me conhecesse, como se eu estivesse voltando para o mesmo hotel pelo segundo dia consecutivo. Quando voltei, o jornal, a televisão, o telefonema... tudo igual. Meu braço estava sem o corte... até mesmo o curativo havia sumido, meu corpo viajou junto, percebe? Não fui contra a correnteza do rio, a própria água andou comigo. Testei novamente, mas dessa vez dirigi dezoito horas. Saí de casa na quinta-feira e retornei na terça-feira da mesma semana.”
Ela se levantou e deixou o dinheiro das cervejas perto do copo. Sorriu deliciosamente para ele.
“Tenho que ir...”
“Zack.”
“Tenho que ir, Zack. Você pode achar que sou louca, mas isso não tem qualquer importância, tem? Você não vai se lembrar de mim. E se lembrar, não vai se perguntar onde está aquela velha louca, mas quando está aquela velha louca”, ela piscou para ele e começou a andar para a saída. “A estrada me chama e tenho muitos quilômetros até conseguir voltar para um diagnóstico precoce... assim vamos matar a Vadia. Quando chegar no dia certo, depois do tratamento do Tezuko, venho com ele para tomarmos uma cerveja.”
Zack assistiu a velha japonesa comicamente vestida e disse a única coisa que poderia ser dita:
“Boa sorte!”
Ela agradeceu, sem se virar, e saiu.
Ao fundo, o bartender ouviu risadas agudas e olhou para as três idosas. A mulher que lia jornal retirou os óculos e passou para a que estava sentada no meio, ela pousou no rosto as grossas lentes e começou a assistir o que passava na televisão, enquanto guardava as agulhas de tricotar. Perturbado, ele viu que ela havia feito apenas uma longa linha com a lã. Na esquerda, a terceira velha desmontava uma coluna feita com a mesma lã, apenas para começar a tricotar novamente.
Kashimir tocava na jukebox.
Enquanto andava até o homem que portava a pequena caixa, Zack se pergundou quando estaria a velha japonesa.

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