sexta-feira, 17 de maio de 2013

Querida Margaret; Somme, 1916.


As balas passavam por nós como abelhas furiosas. Elas voavam sobre nossas cabeças, prontas para arrancar o cérebro das caixolas no caso de um movimento estúpido.
Estávamos atolados na lama, eu e um homem magricela, Osbart Harpert. Osbart era um cara legal, desses que a gente esbarra na fila do pão e acaba convidando para o jantar. Depois é aquela correria, para comprar mais carne, gelar a bebida e deixar as crianças limpas e trocadas, você sabe, construir da baderna a impressão de uma família normal. E foi justamente isso que fiz quando encontrei Osbart em, quem diria, uma fila para comprar pão.
Foram dias estranhos, aqueles que passei de volta com minha família; jogue um homem e uma arma numa trincheira fétida por algumas semanas e tente ficar surpreso quando ele esquecer o significado de carinho e conforto. O conforto me deixa desconfortável, usando um péssimo trocadilho. Eu já não era mais parte daquele mundo de ternura e respeito. Sentia-me estranho acima do solo; totalmente despido por estar longe da proteção da trincheira. Não havia gases venenosos, eu não tinha de respirar em pequenos soluços pelo ar viciado de uma máscara, não havia necessidade de afiar minha baioneta, ou procurar por outra mais leve para matar com mais facilidade. O toque de Margaret… a sensação de seu corpo ao lado do meu na calada da noite, confundia meus pensamentos. Para variar, havia um corpo quente ao meu lado e a cama macia lutava contra as lembranças da terra dura e cheia de raízes; o teto me protegia dos elementos e lençóis de algodão roçavam contra minhas pernas despidas, um contraste agudo quando me pegava pensando na lama de algum rio fedorento da França. Somme. Eu prometi cuspir cada vez que repetisse esse nome amaldiçoado. Isso, é claro, se conseguir sair daqui. Mas estou divagando dentro da minha divagação. Quero que você entenda quão estranho é para um soldado que volta para o seio de sua família depois de alguns dias em batalha estar ao lado de uma pessoa respirando. Eu ficava horas observando a respiração profunda de Margaret. Os seios firmes baixavam e levantavam… baixavam e levantavam. Era fascinante estar tão perto da vida, longe da inacreditável bagunça que se formava quando algumas centenas de homens tentavam se matar. Quando eu me cansava, andava até a janela e acendia um cigarro, pensando nos meus irmãos de armas que ficaram para trás. Quantos estariam vivos quando eu voltasse? Quais deles teria respirado aquela porra amarela e queimado por dentro? Quantas cabeças estouradas pelas metralhadoras que ceifavam nossos homens? Mais algumas horas e eu descia, checava o bebê e ia para a cozinha, esquentava um pouco de água para tomar chá. Enquanto o fogo fazia sua mágica, eu normalmente retirava a escopeta Springfield de meu pai e a limpava. Só depois de ter o metal frio em minha mãos que o sono me levava, enquanto a água evaporava por inteiro até o fogo se apagar lentamente.
Margaret não me reconhecia mais e um desespero maior do que o do combate tomava conta do meu peito quando percebia que a distância entre nós crescia. Ela sorria de forma mecânica quando estava ao meu redor e uma tensão em seus ombros era construída durante as minhas licenças. Talvez ela estivesse vendo outro homem e como eu, o soldado de minha pátria, poderia culpá-la? Margaret, para começar, era linda e muitos homens passavam noites inteiras com mãos dentro da cueca, pensando no toque quente de minha esposa. Certeza de que eu voltaria havia, mas Margaret não tinha como saber se estaria sobre minhas próprias pernas ou em um caixote de madeira. E quem colocaria pão em nossa mesa? Osbart, o espantalho? Não, seria alguém cuja vida não fora maculada pela guerra.
A sensação de deslocamento se quebrou por inteiro quando vi o torso magro de Osbart na fila do pão. Jesus, qualquer homem podia contar facilmente as costelas saltadas por baixo do tecido barato. Em 1915 havíamos passado algum tempo juntos quando nosso pelotão se perdeu em uma floresta. Passamos a madrugada inteira em um silêncio tenso, esperando pelo ataque que nunca veio. Nesta ocasião eu e Harpert descobrimos que éramos da mesma cidade e ficamos conversando por alguns minutos, até o superior nos mandar calar a merda de nossas bocas. Mas fora o suficiente para um vínculo se formar entre nós. Éramos garotos de uma mesma casa, perdidos em uma floresta gelada em um país que não era a grande Pátria Mãe, matando e morrendo por uma ideologia que não nos pertencia. Na verdade, éramos muitos de uma mesma cidade naquela floresta, alguns do mesmo bairro e, pelos céus, dois irmãos. Não é muito inteligente, se você pensar um pouco, colocar um punhado de meninos de uma mesma família para o abate. Se houvesse alguma inteligência por parte de algum governo, se você pensar um pouco mais, não estaríamos naquele lugar. O sol nasceu e achamos nosso caminho para fora daquela mata congelada. Vivos para morrer em outra ocasião.
Quando o vi naquela fila, parecia que o resto da imagem estava borrada e apenas em sua figura magra havia nitidez. Com ele por perto, eu não estava mais deslocado, era a cidade em paz que se encontrava no lugar errado. Na manhã que nos encontramos na fila do pão, um pouco do que sentia pelo homem multiplicou-se como mágica e na mesma noite ele se sentava em minha mesa, conversando animado com minha esposa, partindo o pão seco, engolindo carne enlatada e bebendo de meu vinho. Conversamos até o sol nascer e além, falamos sobre o preço absurdo do pão - repetidas vezes duro e mofado - e de como os velhos nos viam como soldados idealizados, juventude destinada a pagar pela paz da cidade e do país. Falamos sobre nossos companheiros, alguns mortos, outros amputados, todos destruídos. Lembramos daquela noite na floresta; fizemos uma promessa de visitar a mãe dos irmãos que morreram dois dias depois, por conta de uma granada defeituosa. Desgraça para mais de uma geração. Por fim, Osbart se levantou e disse que tinha de voltar para a casa, rindo o sorriso bobo dos bêbados. Ele se foi, cambaleando para um lar vazio, onde todos aqueles que amava estavam enterrados no pequeno jardim, levados pela fome generalizada.
Duas semanas depois fomos despachados para a Frente e então veio o Somme. François LeVerud, um francês arrogante que estava conosco há mais de uma estação, dizia, em julho daquele ano, que tinha conhecimento do alto escalão e que logo estaríamos indo para o rio. “Os russos vão atacar”, ele dizia com aquele nariz fino empinado, como se a informação privilegiada o tornasse melhor do que o resto dos pobres coitados que o rodeavam, “e os italianos também. Vamos fazer essas frauleins chorarem, rapazes.” As batalhas no Somme foram - são - cruéis, eu te digo. Oxford, o soldado mais calado que já conheci, sempre com um livro nas mãos, caiu na primeira semana. Depois dele foram os rapazes de Cambridge e Liverpool. Um por um, todos os meus amigos morreram. Um buraco cavado na terra sanguinolenta do Somme não oferece abrigo contra um canhão de oito polegadas, no final das contas. Um por um, consegue imaginar? O próprio François foi mandado para casa depois de perder a visão por causa do Gás Mostarda.
Outros chegaram no lugar deles, é claro. Rostos jovens, olhos assustados e sem brilho. Garotos que cheiravam ao leite das tetas brancas de suas mães, com poucas semanas de treino. Eram os que mais gritavam quando as balas perfuravam suas barrigas. Uma visão aterradora se formava, quando eles tentavam recolher as tripas espalhadas pelo solo sujo. A guerra faz muito mais do que tornar homens em cadáveres: ela também transforma os vivos em sacos sem vida, um corpo vivo, mas sem vida em si. Um coração que bate no vazio. Eis o que sou: vejo, falo, bebo, respiro, evacuo e me masturbo, mas não sinto nada. Foi como se cada bala zunindo tivesse matado uma pequena parte do marido e pai que era há apenas um punhado de anos.
As balas passavam por nós como abelhas furiosas. Já estávamos no mesmo buraco, feito por uma das bombas alemãs, por mais de quatro horas, eu e Osbart. Sentado onde estava, imóvel, eu olhava para o antigo companheiro, para o homem com quem dividi incontáveis refeições, algumas com a ração insossa que o exército nos mandava, outras com provisões roubadas das casas francesas; uma delas na mesa em que comia com minha família. E lá estava ele, aquele rosto angular, com o bigode ralo e o nariz torto. Olhava com ternura para o corpo de Osbart, tentando ignorar as partes de seu cérebro que escapavam pelo buraco em sua nuca. Os olhos de Osbart me encaravam de volta. Notei então que a falta de brilho em seu olhar não se diferenciava muito do meu. Eu sei, sussurrei para o defunto, também sou como ti. Já pagamos Caronte, bravo amigo, agora só nos resta fazer a travessia.
Um sentimento começou a tomar conta de mim, forte a avassalador como as nevascas que atingiam a Escócia. Eu sentia inveja de Osbart. Ele nada mais sentia, nada o incomodava naquele instante. Meias molhadas não perturbam os mortos. Fome, frio, medo, angústia… Osbart estava privado de todas as emoções que se acumulavam em meus nervos. Os olhos de Osbart sorriam em zombaria pura. Ei, estou livre camarada, eles diziam.
Chutei seus pés sem vida, extravasando parte da minha ira. Ele não tinha mais ninguém, podia partir sem deixar para trás aqueles que dependiam de seus músculos para colocar comida na mesa; corria livre pelo mundo. Osbart Harpert estava enterrado no jardim de sua casa há muitos anos, vivia apenas para cumprir seu papel no teatro de batalhas, essa era a verdade. E de todos os sentimentos que um homem podia sentir, escolhi a inveja. Inveja de quem ainda vive em desgraça. Uma inveja cega e egoísta. “Veja, estou em paz”, ele dizia.
“Cale essa boca imunda, seu rato. Eu não posso simplesmente levantar e morrer aqui, preciso ver Margaret, ao menos uma vez… sentir seus lábios uma última noite. Preciso ver minha criança crescer!”
“Para que?”, perguntavam aqueles olhos irônicos. “Ver seu menino crescer para morrer em outra guerra que ele não queria lutar? Fique em paz comigo, companheiro. Erga rapidamente a cabeça. Só um pouquinho, como aqueles maricas que levantam a mão com um cigarro aceso para fora das trincheiras, para serem mandados para casa com uma mão inútil, mas com vida e alegria em seus corações.”
Eu não posso, eu não posso, eu não posso, eu não posso.
Permaneci em posição fetal, escutando a voz de meu amigo morto até que os primeiros raios do sol quebraram a escuridão e o céu ficou tão vermelho quanto o sangue que tingia o Somme. Meus rapazes enxergaram as cores que eu vestia e disparam em grosso calibre contra os alemães para que eu pudesse me arrastar até a segurança falsa da trincheira. Antes de sair do buraco em que estava, peguei as botas novas de Harpert e a baioneta que ele trouxera de nossa última licença, mais afiada e leve do que a minha. Aos menos essa inveja eu não teria de suportar por mais tempo.
Como fui parar naquele buraco? Eu não conseguia me lembrar. Quando Osbart havia morrido? Não saberia responder.
Eu vivi para morrer em outra ocasião.
Depois da morte de Osbart, ouço o sorriso mudo de seus olhos assombrando meus sonhos.
A cada noite, sinto a inveja se enterrando em meu peito.

Um comentário:

  1. Uma triste realidade na vida de muitas pessoas. Excelente conto, parabéns!

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