sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Intermissão 2 - O Tempo e o Samurai


Zack olhava para o relógio, tentando entender o que acontecia. “Deve ser o magnetismo”, disse a mulher atrás dele. Ela estava sentada no balcão e era a única cliente no Clube, bebia uma cerveja e brincava com o amendoim que estava no recipiente ao lado. A Jukebox tocava Nina Simone e a mesa de bilhar parecia estar feliz. Zack às vezes se perguntava como poderia saber sobre as emoções de um móvel, mas o fato é que a mesa parecia feliz. Isso sempre acontecia com Nina Simone. O relógio, pendurado na parede e completamente empoeirado, continuava a progressão de sempre, girando o fino ponteiro vermelho um segundo por vez. O problema, e esse era o motivo pelo qual o bartender encarava o relógio com a expressão de indagação, era que os ponteiros giravam no sentido anti-horário.
“Como assim, o magnetismo?”, ele perguntou, sem desgrudar os olhos do ponteiro regressivo. Os minutos igualmente andavam para trás e, ele tinha certeza, se olhasse tempo suficiente para a máquina que marcava o tempo, as horas seguiriam o novo padrão.
“Igual aquele programa da televisão, sobre o avião que caiu na ilha. Deve ser algum problema de natureza magnética que está interferindo com o relógio de alguma forma. O que você acha? Que o tempo está andando para trás?”, ela soltou uma risada boba, que saiu pelo nariz e corou instantâneamente, o rosto como um morango. Ele olhou para a mulher, sorrindo com o canto da boca e notou como era linda, os cabelos negros caindo em cachos pelo rosto, avermelhado pela vergonha, olhos castanhos, penetrantes. Havia um ar acadêmico sobre ela, uma certa intelectualidade que não era imposta nas outras pessoas, livre da arrogância petulante que acompanha os diplomas de doutorado.
Zack apoiou os cotovelos no balcão, o perfume dela se misturava com o aroma da cerveja. “Não, não acho que o tempo está voltando. Mas também não acho que seja algum problema de origem magnética.”
“De qualquer forma, aposto que se você abrir a porta, verá que o sol está percorrendo o mesmo caminho de sempre, na direção normal, nascendo no Japão; morrendo no oeste. Logo, a terra está girando no próprio eixo no sentido certo, percorrendo a elipse anual, como sempre. Assim, o tempo está certo. O seu relógio não.” Ela bebeu mais da garrafa e jogou alguns amendoins na boca, mastigando com vontade.
Ela conhece astronomia básica, ao menos, Zack pensou, que mulher interessante. “É engraçado.”
O rosto dela voltava gradualmente ao normal. “O que é engraçado?”
“O tempo, a arbitrariedade das coisas. Algumas civilizações entendem o tempo de forma cíclica. Tudo aconteceu mais de uma vez e irá acontecer de novo, o tempo é como uma roda de ciclos infinitos. Diferente do mundo ocidental, onde o tempo é linear e progressivo. Esperamos pelo dia final, derramando sangue e suor nos trabalhos de cada dia.” Ele abriu mais duas cervejas e brindaram. “O capitalismo monopolizou o tempo. Nas primeiras fábricas, quem controlava o relógio tinha poder arbitrário e inquestionável, sabia? Se a jornada começasse mais cedo e outros minutos fossem roubados no final do dia, haveria mais produção e, por consequência, maior lucro. E nada dá mais dinheiro do que o lucro.”
Novamente a risada saiu pelo nariz, mais parecido com um ginchar do que com uma risada e ficou vermelha uma vez mais. “É a revolução do relógio, meu amigo. Imagine quando não havia as medidas exatas do tempo, quando a passagem era feita por dias ou luas ou cheias. As estações comandavam o ritmo das pessoas, a necessidade de plantar e colher no tempo certo definia a vida e a morte. O que diria uma pessoa acostumada com essas medidas de tempo sobre o seu relógio quebrado?”
Zack considerou algum tempo, sem encontrar uma resposta satisfatória. Por fim, decidiu que a questão era retórica e bebeu a cerveja, satisfeito pela companhia. “Às vezes eu fico imaginando como seria se tivéssemos outra medida temporal. Digamos, o tempo de uma mijada. Consegue pensar nas conversas hilárias que teríamos? ‘Por que você demorou tanto?’”, ele disse com uma voz mais grossa e continuou, desta vez em tom agudo: “‘Não estou tão atrasado assim, foram apenas quatro mijadas!’” Eles deram risadas juntos, Zack acompanhou a moça com as fungadas e as risadas se tornaram ainda mais fortes.
“Você está dizendo, sinceramente, que pensa nessas coisas?”, ela perguntou enquanto enxugava as lágrimas que caiam pelo rosto bonito.
“Ora, porque não? Minha mente é um lugar estranho.”
“Com isso eu devo concordar.” Comeu mais amendoins. “Você conhece a história do Musashi?”
A Jukebox marcou o tempo, tocando outra música.             “O samurai, sim”, Zack respondeu.
“Ele vivia sobre as regras de um tempo próprio, pense nisso. Foi uma vida cheia de violência, cada dia poderia ser o último... cada hora poderia ser a última. Ele foi atacado enquanto tomava banho, depois disso evitou os banhos e andava sujo e fedido pelas ruas japonesas; chegou atrasado em alguns duelos, irritando o inimigo e adianto em outros, surpreendendo outros perigos, era um cara inteligente. Mas ele interessa aqui pela visão do momento que ele tinha, algo mais específico do carpem diem, restrito para cada instante. O sumiê”, ela continuou, retirando os óculos e limpando com a própria roupa, “é um estilo de arte que imita os golpes de uma katana, cada pincelada era um golpe e, como em um duelo, ele deveria ser decisivo e certeiro, livre de hesitações. Você já ouviu falar de um samurai hesitante? Não, eles não duravam tempo suficiente para ganhar fama, eles morriam jovens.”
“Viver pelo instante”, ecoou as palavras da mulher. “É uma proposta interessante, mas difícil de se seguir. A própria noção de escrita é um empecilho para essa idéia, se você pensar bem. Marcamos o tempo em diários, calendários e anais de guerras ou de governos, não podemos viver no instante, a cada instante sem pensar no próximo minuto... A própria história é o acumulo de avanços e retrocessos no longo período.”
“Mas isso porque você não vive no mesmo tempo que ele, sua vida não se resume a errar pelo país em duelos de espadas. É como comparar o calendário semanal com o calendário lunar, são duas coisas incompatíveis. Ele vivia pelo instante e sentia-se vivo principalmente quando as duas lâminas mordiam a pele de outros samurais. Dizem os livros que ele fazia obras do estilo sumiê com água. Afirmava que assim economizava tinta e papel e levava às últimas consequências a própria filosofia. Era como um duelo, as pinturas que fazia. Importavam naquele momentos, uma urgência aguda que justificava a sua existência, depois que secavam, estavam no passado e não mais existiam.”
“Só que ele aprendia a cada duelo e a experiência acumulada não pertencia apenas aos momentos da batalha, ele estava contruindo o próprio caminho e ganhando a própria vida desta maneira.”
Sun and Steel começou a tocar no Clube. A mulher olhou para trás, surpresa pelo estilo musical. “Que tipo de Jukebox tem Iron Maiden como opção?”
“Apenas as melhores”, respondeu. “O que você faria se o seu relógio começasse a andar para trás?”
Ela sorriu, um momento único na vida de Zack. Naquele instante, naquela insignificante fração de tempo de sua vida, compreendeu a existência própria e o papel que deveria desenvolver naquele mundo. Os lábios da bela mulher era a única visão que lhe importava e ele nadou na sensualidade contida dos olhos penetrantes. Como é o fato de todos os instantes, aquela breve sensação morreu e ficou no passado.
“Eu compraria um relógio novo, um que funcionasse de verdade”, respondeu, apenas para dar a risada quase suína.
Fora do Clube o sol  morria no leste, mas nada disso importava dentro das paredes manchadas do lugar. Para eles, o que importava era continuar a conversa entre mais e mais bebidas. Viviam por aqueles instantes, únicos e belos... passageiros.
O ponteiro vermelho parou no lugar, fixando-se talvez para sempre. Mas eles nunca perceberam, apenas continuaram a conversar sobre tudo, sobre nada, sobre o tempo.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Nanda

Fui até a cozinha, coloquei um desses copos translúcidos sobre o mármore e peguei a vodka. Deixei o líquido escorrer até abaixo do meio. Na geladeira, peguei o suco de laranja. Me senti um desses escritores marginais.

Mas tudo não passava de uma piada. Sexta feira, quatro da tarde, e eu sentado na cama, na frente do ventilador tomando a bebida preferida do Keith Richards. Não sei beber, só queria fazer pose. Justificar a tristeza.

Olhei para o alto, onde guardo meus dois violões, em cima do armário. Peguei o vilão de folk. Comprei de um vendedor online há algum tempo, oitocentos reais, Fender, um som maravilhoso que nunca soube tocar.

Sentei na cama um tanto entorpecido. Tentei tocar Bruce Springsteen. Não consegui. Fui pra cama para dormir, mas doía-me as costas e a vida. É um clichê. Mas doía. Tenho direito a não me sentir bem também.

Voltei a cozinha. Tomei dois clonazepam e dez gotas de rivotril. Queria dormir, mas a sensação deixou tudo calmo. O coração desacelerou enquanto lá fora o céu se encobria de negro. Amo a negritude do céu.

Estique-me na cama até tocar no bojo do violão. Entendi os blues man. Nunca toquei um som tão triste quanto meus acordes no escuro. Cada nota procurando outra nota que chorasse com mais soluços que a anterior. Permaneci por uma hora alternando melodias e cantando desafinado tentativas de canções. Mas a língua portuguesa não nasceu para o folk. Soa desengonçada. Não tem a sonoridade e nem o sotaque certo para cuspir pedaços da alma.

Eram quase oito horas. Estava com fome. Como disse, alguns homens nem mesmo sabem a maneira correta de se sentir triste. Eu tinha bebido, tomado meus barbitúricos, e até o fim da noite eu iria comer uma pizza e tomar sorvete.

Se homens tem lados femininos esse é o meu. Quando triste gosto de encher meu corpo de gordura. Sentir as artérias se fechando, uma a uma, pedindo por favor para se manterem vivas. Então, ela chegou. Acendeu as luzes da cozinha de modo que vi apenas seu semblante. Caminhou até a cama onde eu estava convalescido – porque alguns homens caiem em um desespero tão grande que acham que, na tristeza, vão morrer – e me deu um beijo na boca. Um beijo longo, molhado, e desesperado para mim que estava, até então, no inferno.

Aquela mulher salvou meu dia.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

lógica

Da janela a oeste vem o som de máquinas trabalhando, máquinas que não param. Da janela leste o som de pássaros voa dentro, passa por minha mente em duas voltas e vai embora, pra cima de um galho. Pássaros param.

Sentado, com a cerveja na mão e o vazio vasto sobre a mesa antiga, ouço do fundo do palco o piano aumentando pouco a pouco seu volume.

Há tesouros por toda parte. Quieto, parado, feito um pássaro calado sobre a madeira de uma árvore já morta, sou como máquina. Há tesouros por toda parte, e sou um caça-níqueis definitivamente quebrado.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

London Noir 2 - A Dama e o Tempo


Einstein dizia que o tempo é relativo. O mundo da física, quando pensado em modelos micro ou macroscósmicos, onde as massas atingem proporções ridiculamente grandes, altera algumas de suas regras, tão certas e confiáveis em nosso pequeno planeta rochoso. O que o cientista simpática de língua para fora argumentava é que a força gravitacional dessas massas na escala macro tinham uma... bem, força suficiente para alterar o próprio tempo. Pense nisso. Eu espero. Pronto? Fantástico, não é? A gravidade altera o tempo, isso tem de fazer seu cérebro explodir, Estranho. O tempo está passível aos campos gravitacionais e sua passagem é, portanto, relativa. E é nessa palavrinha que eu quero me centrar agora: relativo. O tempo é relativo. Por exemplo, quando aquela puta ergueu a garrafa de Jack e desferiu um golpe em meu crânio, por sorte sem causar hemorragias ou concussões, o tempo praticamente parou. Como nos filmes que passam na TV durante as tardes, quando a personagem principal está no meio da rua e dois faróis aparecem virando a esquina, em alta velocidade. Você, sentado no conforto de seu sofá, gritando em desespero: O carro está vindo, imbecil, saia da frente! Mas o seu protagonista está paralizado pelo medo. É estúpido, não é? No entanto, acontece desta forma. Não desviei do carro, não estiquei as pernas e dei o passo ao lado para não ser alegoricamente atropelado. Não. Eu fiquei olhando, para os seios da mulher enquanto a garrafa era registrada pela parte inteligente de meu cérebro. Duas coisas me chocaram naquele momento e nenhuma delas fora a garrafa. O pênis de Bob, ou melhor, Bret perto de meu rosto, ha uma distância incômoda, e a beleza do corpo daquela mulher. Havia algo de errado, como já disse antes, Estranho. Uma espécie de aura cobria a mulher, algo que... eu não sei, algo errado. Todas as preocupações foram esquecidas quando a garrafa impactou sobre minha cabeça. Acho que nessas condições as nossas preocupações também são relativas.
Quando voltei ao mundo, emergindo das trevas profundas, encontrei-me amarrado a uma cadeira em um quarto escuro, cujo ar carregado de horas e mais horas de sexo, suor, vômito e abuso de drogas intercalava-se em alguns minutos de limpeza artificial. Sentia o calor de meu próprio sangue escorrendo e secando ao longo de meu pescoço e torso, mas não havia nada que podia fazer para remediar o machucado, não enquanto estivesse amarrado daquele jeito. Minha cabeça explodia em ondas constantes de dor e precisava manter um esforço contínuo para não apagar novamente. Abri os olhos aos poucos, vencendo um milímetro por vez. A pouca claridade do quarto era o suficiente para me fazer desejar estar na escuridão profunda. Que dia interminável, pensei miseravelmente.
Os raios de sol que conseguiram atravessar as cortinas imundas do Dama da Noite iluminaram as pernas da mulher, sentada no canto perpendicular ao meu. As pernas compridas acabavam no nada, em um corpo obscurecido pelas sombras; apenas os olhos e a ponta de um cigarro acesso eram visíveis: três pontos vermelhos na escuridão, brilhantes e carregados de perigos camuflados. “Não tente falar”, ela me alertou. “Sua garganta está seca e a dor de cabeça apenas ficará pior. Fique quieto, senhor Humphring”, maldição ela sabe meu nome, “e tudo estará bem.” Como uma cobra, aquela boca destilava veneno. A luxúria era algo natural para ela, jogos de sedução e manipulação sua segunda natureza. Eu estava muito além de minha linha de conforto.
Minha carteira, percebi, estava aberta na pequena mesa ao lado da porta do banheiro e seu conteúdo espalhado, revirado e analisado com certeza. Preciso parar de carregar meus documentos. A iluminação súbta, no entanto, estava atrasada. Eles sabiam quem eu era.
Três batidas ocas na porta. Três explosões nucleares em minha têmporas. A mulher levantou suavemente e andou até a porta, atravessando a coluna iluminada, revelando o corpo semi-nu, coberto apenas por uma lingerie vermelha como seus olhos, provocante... apenas como ela, falta-me comparação mais precisa. Novamente senti que havia algo de errado na simples existência daquela mulher, como se sua presença fosse um paradoxo que danificava os tecidos da realidade que nos cercam. Outra explosão tomou conta de meus olhos quando a porta foi aberta e o sol invadiu o cômodo, deixando-me parcialmente cego por alguns segundos. “Ele acordou?”, escutei a voz de Bret. Ou de Bob. Ainda com os olhos fechados, senti o peso dele apoiado na cadeira, o cheiro de cigarro e whisky exalava da pele do homem, como se ele transpirasse partículas de tabaco e álcool. Ao menos ele estava vestido. “Oi! Chandler está aí?”, o ar se movimentou instantes antes da costas da mão gorda atingir minha bochecha. Mais sangue escorreu de um novo talho feito pelo anel que ele usava.
“Assim ele vai apagar de novo”, ela disse, há um milhão de anos-luz.
“Eu não tenho o tempo, ou a paciência, chapa. Responda de uma vez, quem te mandou?” Ele dizia a verdade e eu não tinha pretenções de apanhar mais naquele momento. Apanhar estava fora da lista de coisas favoritas, eu estava descobrindo. Que porra de dia longo.
Eu abri a boca e as palavras me falharam. Como ela havia alertado, minha garganta estava desidratada como um deserto. Um novo tapa, um novo corte, a mesma dor em minha cabeça. “Ele ia falar, Cristo!”, ela disse, andando até o banheiro. Escutei a torneira rangendo e o barulho de água caindo. Ela trouxe um copo e eu bebi, sentindo um misto de alívio e náusea pela água gelada, mas com o gosto metálico de ferrugem.
“Quem te mandou para me vigiar?”, ele perguntou novamente.
“E...”, eu disse com as palavras que voltavam para minha garganta, “a mulher.”
“A próxima será em seu nariz com meu punho fechado. Que mulher?”
Ele não irá acreditar em mim. “E... ela”, eu disse com dificuldade, olhando na direção da mulher de lingerie. “Outros... olhos, outra... cor. Bob. Amante.” Foi tudo que consegui dizer. Esperei pela promessa de um nariz quebrado, mas Bob estava em silêncio, olhos assustados. Ela andava freneticamente no quarto, do ponto A para o B e, novamente para o A. Eles se trancaram no banheiro, tentei escutar o que conversavam, sem compreender qualquer palavra.
Quando voltaram, ele tinha um canivete nas mãos e rapidamente, antes que eu pudesse pensar em qualquer perigo, usou-o para me libertar das cordas. “Desculpe por tudo isso, chapa. Eu surtei quando vi as minhas fotos, você é um excremento por estar nesse mundo.” Eu não soube o que responder. Ela ainda estava no banheiro, a porta fechada. “Escute, quanto ela te pagou? Vou compensar pelos seus... pelas suas dificuldades.” Ele colocou uma mala negra na cama e a abriu, dois sonoros clicks ecoaram pelo quarto. Na mala havia duas pistolas automáticas e uma minimetralhadora, além de dezenas de pequenos blocos de dinheiros amarrados por elásticos grossos. “Eu vou pagar por sua máquina também, claro.”
“Doze. Doze mil libras.”
Ele recolheu o dinheiro da mala, deixando mais que oito décimos do que havia originalmente. “Vinte e cinco mil. Isso deve recompensar pelos problemas que nós causamos.” Acenei com a cabeça.
“Quem é ela?”, perguntei, “A irmã gêmea?” Ah, Londres, doce Londres carregadas de pessoas doentes.
Bob desabou na cama, fazendo a madeira ranger sob o peso de seu corpo. “Não, não. Nada disso”, ele sorriu. “É mais complicado, antes fosse simples assim. Darla tem dupla personalidade. Na maioria dos dias ela está bem, cuida da própria vida, pinta alguns quadros e brinca com os cachorros, mas quando ela acorda e coloca as lentes azuis, o dia está perdido. Darla, nos dia da loira de olhos azuis, lentes de contato coloridas, se transforma em uma puta mesquinha e manipuladora, que só existe para foder com minha vida. Sinto muito que você foi para no meio do furacão, Chandler.” Meu nome na boca de Bob, que ocasião perturbadora.
O que vocês estão fazendo em um lugar como esse? Porque têm tantas armas e dinheiro? Eu queria perguntar, tinha muitas dúvidas, mas limitei-me a pegar a sacola com o dinheiro e andar até meu carro, sentindo que ainda estava em um sonho. Minha cabeça ainda girava com dor, sangue seco e duplas personalidades. Que dia longo, longo dia horrível. O Dama da Noite ainda era um lugar nojento e o homem sujo da recepção ainda tinha sangue seco na camisa. Ele me olhou com certa satisfação ao notar o sangue empoçado na gola de minha camisa. Por sorte, o Fedora e o sobretudo estavam em minhas mãos. Dirigi por quase uma hora e cheguei em meu escritório quando o sol já estava baixo e algumas núvens carregadas se acumulavam em todas as direções, como quase todos os dias nessa ilha. Ainda hoje não sei como dirigi, não tenho nenhuma memória do que aconteceu no caminho.
Atravessei o corredor apertado rapidamente, o maior ânus de Londres segundo o que diziam meus clientes, e me arrastei pela escadaria, até chegar na pequena sala. Sentei na cadeira do meu lado da mesa e dormi quase antes de meu corpo terminar a descida. Por dez horas estive fora do mundo.
Despertei com o sol de um outro dia. Minha cabeça ainda letajava e dois corte horríveis tomavam conta de meu rosto e nuca. Entrei no pequeno banheiro anexo à minha sala e lavei o rosto o melhor que pude. No armário da pia havia uma maleta para primeiro socorros e fiz dois delicados curativos. Os cortes não foram profundos, mas deixariam duas cicatrizes claras. Troquei de roupa e desci para comer algo, meu estômago roncava. Atravessei a rua com o vento tentando retirar o Fedora da minha cabeça e entrei em um pub, o Estábulo Real. Viver Candem Town por mais de quinze anos provoca uma rejeição eqüina nas pessoas, aparentemente. O Estábulo era um lugar decente, cuja comida tinha um sabor forte e a cerveja bem acentuada descia prazerosa até meu estômago. Um pouco escuro, talvez, mas qual pub londrino não é assim? Hey, pelo menos não estava indo comer peixe frito com batatas.
Procurei a mesa que ocupava normalmente, perto da vitrine, de onde poderia assisir o movimento apressado na rua e vigiar a porta vermelha, esperando por novos clientes e passei meus olhos no lugar. Dois casais trocavam palavras e carinhos nas mesas ao redor e no balcão, dois policiais comiam torradas. Não tinha certeza se estava pronto para um novo trabalho, mas era melhor do que ficar remoendo a complexa mistura de ódio, culpa e dor que eu sentia. Dupla personalidade, minha cabeça recuperou as palavras de Bob. Inventei uma desculpa para meu rosto quando a garçonete de costume me atendeu e pedi um café da manhã completo e uma cerveja preta. Sem uma refeição completa por quase dois dias, meu corpo anciava pelos ovos, bacon, feijão e salsichas que chegaram e foram quase completamente devoradas em poucos minutos. A cerveja assentou a comida e a energia começou a voltar com a digestão iniciada.
Encostei-me no banco acolchoado do pub e respirei, aliviado. O que eu poderia fazer? Pegar meu revólver de seis tiros, minhas dezoito balas e procurar por vingança contra Bob e suas três armas, sendo Darla ainda mais perigosa que uma uzi? Não. Não Chandler. Deixe-me contar um segredo, Estranho, Chandler iria engolir o orgulho e aproveitar aquelas vinte e cinco mil libras, sim senhor.
Mas o tempo, caro Estranho, é relativo, lembra? Pensando nesses dias estranhos, percebo que tudo aconteceu rápido demais, sem me deixar muito espaço para raciocinar e planejar uma reação.
A garçonete, uma garota de vinte e dois anos, com um filho de um e outro na barriga, aumentou o volume da televisão pendurada atrás do balcão. “...morto em um bizarro crime passional. Bob Maltese foi morto por cinco tiros à queima-roupa. Henry Gregory, dono do hotel disse à policia que foi agredido pelo principal suspeito do crime...”, oh, merda, tive tempo de pensar. A televisão mostrava uma imagem estática do Dama da Noite de um lado e a foto de Bob do outro enquanto minha própria imagem crescia no centro da tela. Uma foto antiga, ainda de quando cabelos longos e selvagens desciam de meu ombro e o Led Zeppelin estampava minha camiseta, longe do homem com duas bandagens no rosto e um chapéu na mão; um detetive particular raramente deixa fotos suas circulando na internet. A repórter continuou, indicando meu nome com um erro comum: “... Chandler D Homphrenger foi identificado como amante de Darla Maltese e culpado pelo homicídio. A polícia emite um aviso de procurado e pede para que a população entre em contato por esse número para qualquer informação sobre o suspeito. Ele está armado e é considerado perigoso.”
Em menos de um segundo estava me dirigindo à saída do Estábulo Real, colocando o chapéu na cabeça e evitando olhar para trás. Para minha surpresa, Darla estava entrando pela porta vermelha, com as mesmas pernas longas e sedosas. Olhei para trás e vi a jovem garçonete apontando em minha direção enquanto um dos policiais falava com a central. Maldita garota!
Meu nome é Jonhatan Raymond. Todos os dias acordo e ando pelas ruas cinzentas de Londres, fazendo dinheiro e vivendo uma vida que adoro. Eu sou o cara que você encara no metrô, com um terno suado e uma gravata apertada no pescoço, e imagina o tipo de vida enfadonha que leva. E você está certo, minha vida é enfadonha e isso é tudo que sempre quis. Meu nome não é Jonhatan Raymond e o tempo, caro Estranho, é relativo.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Buk Buk Buk

Freud disse uma vez que um charuto é só um charuto. Tento evitar. Mas conheci uma mulher certa vez que sempre afirmava: não importa o quanto tentamos nos desvencilhar do velho barbudo, sempre voltamos a ele. Esse aforismo do psicanalísta, ou o que quer que seja isso, o que quer que seja ele, quer dizer que uma coisa é apenas uma coisa. Um homem fracassado, as vezes, é só um homem fracassado. Uma bebida com malte de vinte e cinco anos é só uma bebida malte vinte e cinco anos. Um beijo é só um beijo. As bundas não. Elas sempre são algo mais que as próprias nádegas. Bundas são uma ideia. Estou divagando.

Eu dizia que uma ideia é apenas uma ideia. Há constrição nisso. Ninguém consegue ver o que há por trás da ideia. Você observa um homem solteiro, malte trinta anos e diz a ele: “você esta assim por causa de um trauma de um amor passado” e ele cai direitinho. Outro começa a ter uma vida cheia de grana e gastos e você avisa “isso é para compensar sua infância pobre e cheia de sofrimento” e ele afirma que sim, era pobre e, puxa, tem razão.

Dessa maneira nunca soube se já levei alguma mulher para cama com o desejo dela ou se eu a fiz me querer. Bobagem. Tirem o senso comum. A cama. Mantenham a mulher se quiserem, elas sempre merecem serem mantidas. Vou de outro exemplo: Eu não sei se gosto de música clássica porque meu pai ouvia ou se realmente eu achei a música ideal da minha vida.

Gosto de sorvete de chocolate. Eu realmente gosto desse sorvete ou foi algo que minha mãe entupia minhas artérias quando criança? Não sei. O sorvete é só um sorvete mas, diabos, pode ser mais do que isso.

Enfim, era isso que eu falava para Cecília quando ela arregalava os olhos perto de mim. É por isso que não gosto de olhar as pessoas. Sempre olho para os lados quando falo com outros. Não tenho medo de gente. Tenho medo de não controlar meu olhar. Rir do nariz gigante, da catota, do arroto, dos peitos saindo pela blusa. Essa obsessão por peitos.

Fico confortável olhando para o outro lado. Ela sempre acha que estou olhando outra mulher, mas meus amigos me entendem. Alias, não lembro quando foi a ultima vez que olhei nos olhos dos meus amigos. Me bastam saber que estão lá acenando. Sou um cego que se guia por suas vozes.

Não gosto de beber. A cabeça gira, o pau amolece e no final tenho mais loucura sóbrio. E mais perspicácia se eu e a moça estiverem nus na cama, sóbrios. Talvez minha fixação não seja só pelas mulheres. Mas pelo controle da minha vida. E por bundas. Vai saber.

Mas a bebida está presente para transformar situações embaraçosas em momentos mais felizes. Um dia flagrei a mãe de uma conhecida fazendo sexo: “tudo bem, vamos tomar uma cervejinha e rir disso tudo”. A vida está uma merda: “vamos para o bar”. Preciso ter coragem de conquistar essa moça: “me traga mais uma dose”.

Acho engraçado um pormenor masculino. Normalmente eu reprovaria esse diálogo mas o que estou dizendo é um pensamento meu. Reparem, homens tem a capacidade de abstrair completamente o marido que anda com uma mulher desejada. Ela é linda, alta, radiante, loira, ruiva, morena e tem um homem ao lado. Se você a aponta aos seus amigos vocês dizem: “ela deve ser uma delícia nua” e automaticamente imagina ela fazendo sexo com ninguém. Homens tem a capacidade de anular os outros caras da jogada. Retiram o feio, ficam com o belo. Acho engraçado. Tive um amigo que sempre que mencionava uma mulher nua pensava nela se masturbando. Ele achava horrendo o fato de outros homens deixarem sua marca lá, antes dele.

No final, lembrei-me de minha amiga, do fundo do coração. Não lembro se era amiga ou colega, mas que ela me disse, disse. Não conseguimos sair de Freud. Freud esse comedor de mães e bundas. Não importa o que você faça, sempre existe algo que te diz que as coisas são mais que charutos.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

c£µb

Um dos problemas de viajar por terras estranhas é a língua das novas paragens. Não há dúvidas, por certo, de que novas línguas enriquecem a experiência viajante, mas tampouco há dúvidas de que desconhecer o idioma da terra em que se está ocasiona, vez ou outra, problemas grotescos.

Saudoso de seu bar, de seus amigos, da terra de que tinha vindo, Ozias andou cego, às apalpadelas, por alamedas vielas por becos e bairros sujos. Procurava um canto escuro e aconchegante onde pudesse beber ao som de uma vitrola antiga, olhando mulheres bonitas e tendo cerveja gelada. Por toda a parte que passava não podia encontrar nada, e a memória de seu Clube batia e rebatia na mente tal qual martelo a pregar parede.

Eis que viu uma placa, com pouca iluminação, e a palavra que ali estava era de tal feita parecida com a tabuleta do bar do Clube que, sem mesmo hesitação, meteu-se por porta adentro. As caras paradas gélidas deitadas nuas em mesas deixaram Ozias saber que se metera em problema sério.

Entrara num necrotério.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

London Noir 1 – Duas Garrafas de Jack


Meu nome é Jonhatan Raymond. Todos os dias acordo e ando pelas ruas cinzentas de Londres, fazendo dinheiro e vivendo uma vida que adoro. Eu sou o cara que você encara no metrô, com um terno suado e uma gravata apertada no pescoço, e imagina o tipo de vida enfadonha que leva. E você está certo, minha vida é enfadonha e isso é tudo que sempre quis. Mas é melhor começar pelo início, como todas as histórias memoráveis. Meu nome não é Jonhatan Raymond e esse é o melhor começo para a minha história.
Perto do distrito londrino de Camden Town, há uma porta vermelha marcada pelo tempo, a tinta velha está descascada, a maçaneta opaca sempre suja pela gordura das mãos de viciados em heroína e imigrantes ilegais sem chances de melhores condições, seja lá de onde vieram. A porta se abre para um corredor escuro e claustrofóbico, do tipo que você precisa apoiar nas paredes e andar rápido até encontrar um aposento mais iluminado, porque a sensação de que algo está alí para te fazer mal é uma das características do lugar. Sua mão seguirá o papel de parede mofado até a escada no fundo, acredite. Suas pernas hesitantes farão com que cada degrau grite injúrias em rangidos secos e triturantes. O barulho de projéteis disparados, crianças chorando e casais berrando o mais alto que conseguirem é a trilha sonora do prédio esquecido pela cidade. Passar por esse corredor, caro Estranho, é um teste para sua sanidade. Se de alguma forma você for doente o bastante para atravessar os vinte passos até a escada e escalar todo o caminho, emergindo cada vez mais no lado escuro de Londres... bem, você está no lugar certo.
A porta do segundo andar parece ter saído de algum set de filmagens em Hollywood. Um vidro ocupa dois terços e nele está estampado meu nome, Chandler D. Humphring, próximo a um Olho de Osíris. Não é nada supersticioso; apenas um símbolo que parece funcionar para o tipo de pessoa que me procura, bastardos sem moral que acreditam em qualquer baboseira que venha de alguma terra distante e exótica. A terceira linha escrita na porta diz: Detetive Particular. Ela só não é perfeita porque não é em preto e branco.
Na sua mente você já sabe como pintar o cenário. Dezenas de páginas antigas de jornal estão espalhadas pelo cômodo, sobre a mesa central e pelas duas cadeiras sujas em que as pessoas colocam suas respectivas bundas na procura de minha ajuda, o desesperado último recurso. Uma planta quase morta permance, murcha e caída, em um grande vaso no canto esquerdo de quem sai; na parede da direita, um cabideiro com minha capa de sarja e meu Fedora; ao lado do cabideiro amarelo, o único arquivador de metal com quatro gavetas separadas, todas cheias até a capacidade máxima de pastas e arquivos, notas fiscais evasivas e fotos de pessoas mortas. Estou sentado na cadeira de encosto alto e, como você deve saber, com as duas pernas apoiadas sobre a mesa de madeira, um chiclete antigo em uma das solas de meu sapato estranhamente bem engraxados e um cigarro nos lábios. A fumaça sobe em colunas belas, quase mágicas. Na mesa, perto de meus pés, o único retrado de uma família feliz marca meu passado e o motivo da sombra carrancuda do que antes era. As gavetas da mesa estão trancadas, mas de alguma forma eu não preciso mentir sobre o revólver ou o litro de whisky consumido pela metade, o lugar de melhor acesso: como eu disse, a cena só não é perfeita por não ser em preto e branco.
Como manda o clichê, ela entrou pela porta com sedosas pernas longas e nuas, alvas como leite, tentadoras como o próprio diabo. O vestido curto, com certeza vermelho, exibia com exatidão as curvas sensuais da mulher, cobertas por um capa de seda azul. Um grande chapéu enfeitava os cabelos dourados. O rosto redondo dava espaço para lábios grossos e macios, um nariz delicado e dois olhos azuis que pareciam sugar minha alma. Um lobo em pele de cordeiro, pensei no mesmo instante. Os seios fartos, no entanto, apagaram qualquer pensamento de minha mente.
“Preciso de seus serviços”, ela disse com uma voz macia. Ela falava em Jazz. Sentei como um adulto e derrubei o cigarro terminado no cinzeiro de vidro. Aquele cinzeiro não estava alí por acaso, apenas porque fumo. Ele era pesado e repleto de quinas: uma arma nas horas de necessidade. Quero que você siga meu marido, pensei. “Quero que você siga meu marido”, ela disse musicalmente. Acredito que ele esteja tendo um caso, meus lábios quase se moveram, formando as palavras. “Acho que ele está me traindo”, retirou um lenço da bolsa e enxugou olhos lacrimosos. Quase, pensei.
Abri a gaveta e coloquei dois copos sobre a mesa, despejando a bebida âmbar em seguida. A garrafa de Jack Daniels pousou com um baque seco na madeira. Era uma garrafa de base quadrada, pesada e resistente. “Meus... serviços são caros, madame.” Eu bebi metade de minha dose em apenas um gole. A bebida desceu queimando pela garganta até meu estômago vazio.
Ela concordou com a cabeça, ainda sobre o grande chapéu, e jogou um envelope pardo entre os dois copos. Eu contei o dinheiro. Quatro mil libras. Impressionante. “Estou disposta a pagar mais oito mil depois que você concluir a investigação. Isso basta para suas despesas?” Que tal alguns beijos?, apenas concordei com um rápido movimento em meu queixo. Aqueles olhos. Havia algo de errado com eles. Não era apenas a decepção que ela sentia com o tolo homem com quem era casada, era algo... incerto, diferente. Talvez fosse o tom claro do azul naqueles olhos, talvez todo o conjunto; algo estava errado e eu estava hipnotizado pelas notas em sua voz, o que me fazia ignorar o alarme. Reformulando meu pensamento, ela não era um lobo. Ah não, meu caro Estranho, ela era uma sereia. E o canto invadia minha mente, meu barco ia na direção das rochas e não havia nada a ser feito. “Encontrei isso na carteira dele ontem, junto com uma conta da semana passada, ele gastou setecentas libras aqui”, ela continuou enquanto me entregava um imã para geladeira. Era um pedaço retangular estampado com o desenho de uma lua e uma flor branca. Hotel Dama da Noite, dizia em letras garrafais. Aberto 24h. TODOS os dias do ano! No fim da propaganda, três diferentes números para contato e um endereço de e-mail. Em seguida ela me entregou uma foto do meu alvo, ele era um banqueiro gordo e baixo, do tipo grotesco que usava grossas correntes de ouro, gel no cabelo que restava na cabeça calva e suspensórios. Eu não tenho outra opção que não seja odiar pessoas de suspensórios, esse é o principal motivo pelo qual quero matar todos os palhaços. Suspensórios de merda.
 “Ele parece uma pessoa perigosa”, a porra de um capo, pensei comigo mesmo. Não estava gostando do desenvolvimento daquela história.
“Um aleijado consegue correr mais do que ele, olhe para a barriga, pelo amor de Deus!” Ela bebeu o whisky. As mãos estavam impacientes.
“Armas?”
“Nunca vi uma única arma na casa. Ele evita usar facas pontiagudas porque sempre corta a mão. Armas de fogo estão fora de questão. Acho que ele atiraria no próprio pé, o inútil.”
“Você quer fotos dele com outra pessoa? Ou vídeos? Ou apenas minha palavra será o suficiente?”
“Sua palavra?”, ela sorriu. “Não será o suficiente, não as palavras de alguém que fica aqui, nesse prédio. Nunca.”
“Cuidado com sua atitude, madame. Nosso contrato ainda não está firmado. Você quer a investigação bem feita, com cuidado e sigilo, certo?”
“De preferência, sim.” Ela se mecheu na cadeira, desconfortável com o encontro. “Fotos. Algumas fotos e estamos de acordo.”
“Volte em dois dias, ele será minha prioridade.”
“Bob Merrygold, é o nome dele. Deus, até isso é uma piada. Bob”, dissem em um tom de desprezo.
Em seguida, ela se levantou e respirou fundo. Andou até a porta e a abriu. “Seu corredor fede a mijo”, disse antes de desaparecer no odor de urina. Poucos minutos depois, era a minha vez de atravessar o corredor apertado e fétido. Alguns clientes faziam piada sobre aquele lugar ser um ânus. Eu nunca achei graça, mas havia alguma razão no gracejo.
O Dama da Noite era uma espelunca. O dono não tinha a mínima vergonha em chamar aquele conjunto de quartos e banheiros cheios de baratas e drogados esquecidos pelos cantos de ‘Hotel’. “Filho da puta!”, gritei quando passei as rodas de meu wolks antigo por cima de uma garrafa de cerveja. Londres é uma bosta. Andar naquele estacionamento foi como dançar em um campo minado, era possível escolher em qual camisinha usada pisar ao invés de tocar o asfalto. “Bob, seu desgraçado, isso não é lugar para trazer uma mulher. Setecentos dólares nessa espelunca? Você viveu aqui por anos e anos?”
Nunca entendi os ricos que tinham amantes. De ambos os sexos, de qualquer gênero, incluindo o do meio. Em minha profissão você acaba esbarrando com certa regularidade no sexo que vai além do normal. Não entenda mal, não sou homófobo. Mas convenhamos que orgias de transsexuais com espancamentos e submissão é algo que está fora do interesse da grande maioria das pessoas. Em todo caso, atravessei aquele estacionamente me perguntando porque escolher ter relações em um lugar como aquele com outra pessoa se, no caso do Bob, uma das mais lindas mulheres deveria estar esperando em casa, deitada em uma cama ‘king size’ fria e solitária. Ele merecia o que estava por vim, eu me decidira. Bater as fotos era algo importante e seria feito, de uma maneira ou de outra.
A recepção do hotel era o que você esperaria estando em minha pele: suja, esfumaçada e apertada. Tirei meu chapéu e me certifiquei de que o sobretudo não encostaria em qualquer móvel daquele lugar horrível. “Importa-se de dividir uma informação, amigo?”, perguntei para um homem sentado no banco atrás do balcão. Ele estava com a barba por fazer e, apesar do frio daquele dia, usava apenas uma camiseta sem mangas, manchas amareladas por baixo de cada axila e um furo feito provavelmente por um cigarro um pouco acima do umbigo. Ele tinha as maiores bolsas abaixo dos olhos que eu já vi na minha vida. A pele plastificada pelo abuso de drogas pesadas.
“Isso depende do quê e de quanto”, respondeu em tom neutro. Ah, a doce vida de um investigador. Algumas vezes penso no meu sobretudo como um uniforme nazista. Coloque uma sarja comprida e um chapéu Fedora por cima de uma roupa descente e pronto, você é um investigador particular e as pessoas tratar-te-ão de acordo. Experimente usar uma suástica na França ocupada ou um turbante nos Estados Unidos de hoje e você saberá do que estou falando. Mas, hey, é o meu estilo de guarda-roupas, o que posso fazer? Andar como uma pessoa normal? Qual o sentido em sem um investigador particular se não for pelo pacote todo? É o estilo de vida, Estranho.
Joguei duas notas de cem libras por cima do balcão. Quatro olhos reais me fulminaram com reprovação quando o papel caiu na frente do homem. “Tudo que preciso saber é se você conhece este simpático indivíduo e com qual freqüencia ele aparece aqui.”
Ele pegou a fotografia com dedos roliços e a estudou. “Bret, velho Bret”, recolheu uma das notas. Prendi a outra com a minha mão.
“Continue”, incentivei.
“Ele vem... três, quatro vezes por semana. Às vezes cinco. Nos últimos dois anos, religiosamente.”
Ele puxou a nota, mas ela não saiu de baixo da minha palma. “Ele faz a peregrinação religiosa sozinho?”
“Não. Ele vem sempre com a mesma mulher, uma loira. Linda. Eu não a trocaria por nada nesse mundo, chefe. Olhos vermelhos, uma verdadeira boneca.”
“Quando ele veio pela última vez?” Ele me surpreendeu com um rápido puxão e, mais rápido que a luz, o dinheiro desapareceu no bolso da calça larga.
“Um pouco mais da Senhora Nossa Majestade e pode ser que eu tenha mais coisas para contar.” Olhei com ódio para o dono do Dama da Noite. Nada que eu poderia fazer. Estendi mais cem libras. “Pode ser que ele esteja aqui neste instante.”
“Qual número?”
“O quê? Para você entrar e matar o cara em um dos quartos? Estou atolado até o pescoço com a polícia, nada feito.” Ele, no entanto estendeu a mão em minha direção, palma para cima. Suficiente, eu decidi. Torci a mão gorda para trás em um rápido movimento e forcei o cotovelo na direção errada. Um baque seco ecoou na sala, ele esticou o pescoço e gritou de dor. Com minha mão livre agarrei o pescoço engordurado e afundei a testa do homem na balcão com força suficiente para fazer soar a pequena camapainha em um dos cantos da madeira fina. Sangue começou a cair no mesmo momento.
“Qual número?”, repeti com impaciência na voz.
“Tre... Treze!” Ele chorava, assustado e acoado. Que visão triste. “Mate-o em outro lugar, por favor, não em um dos quartos!”
Estiquei o braço que segurava a cabeça e peguei a chave do quarto doze. Subi as escadas rapidamente e entrei, furtivo, no quarto. Fui atingido pelo odor de suor, vômito, sexo e naftalina, não necessariamente nesta ordem, e quase vomitei. Colei meu ouvido na parede e escutei gemidos de uma mulher. Alcancei minha câmera fotográfica no bolso e desliguei o flash. Hora de trabalhar. Esperei alguns minutos, espiando pela janela do quarto para ter certeza de que não havia sido seguido e saí pela porta, abrindo-a com carinha e evitando rangidos desnecessários. O corredor do hotel estava vazio. Apenas uma barata corria pelo teto, desaparecendo pelas escadas. Os quartos tinham janelas voltadas para fora. Conveniente, pensei. O quarto treze tinha uma pequena abertura entre as cortinas de segunda mão e era possível enxergar o casal deitado na cama. Bret, também conhecido como Bob na vida pública, estava amarrado na cama, vestindo apenas meias pretas nos pés, a barriga flácida balançando com o peso da mulher. Dois lenços de seda o prendiam no colchão de molas. Ele o cavalgava vigorosamente. Era linda, com as medidas certas e curvas acentuadas nos melhores lugares. Os seios maravilhosos balnçavam sensualmente no esforço sexual e os gemidos altos podiam ser ouvidos do lado de fora. Eu cliquei sete vezes.
Rapidamente, fiquei de joelhos e olhei para as fotos na tela de minha máquina. Eu já tinha as provas: as expressões de êxtase de Bob eram visíveis em todas as fotos. “Seu bastardo sortudo”, murmurei com um misto de ódio e inveja.
Quando vi a terceira foto, no entanto, a história tornou-se confusa. Eu vi a mesma mulher sobre Bob, a loira que havia encomendado minha investigação. Os cabelos loiros, os fartos lábios e as coxas luxuriosas eram indicadores. Era a mulher de Bob naquele quarto. O que ela está fazendo aqui com ele? Minha mente entrou em torpor. Parte pela visão do corpo feminino em um dos mais perfeitos exemplares, parte pela perplexidade que sentia.
“Oi! Seu desgraçado!” Virei o rosto na direção do som e vi a porta do quarto treze aberta. Bob estava do meu lado, o pênis ereto perto de minha face. A última coisa que vi foi o corpo esbelto com os braços erguidos. Quando ela desceu a garrafa de Jack Daniels na minha cabeça, perdi a consciência imaginando como gostaria daqueles seios rodeando meu rosto. Pensei também o quanto eu adorava Jack Daniels.
O mundo, no entanto, tornou-se escuro.