sexta-feira, 15 de junho de 2012

O Conto do Bosque


Jonathan estava sentado na cadeira de madeira, um móvel bem trabalhado e confortável, há tempos não se sentia tão descontraído, na verdade, apesar da companhia do que parecia ser toda a família de sua namorada. Era difícil, em Londres, encontrar uma casa tão grande e tantas pessoas com laço de sangue no mesmo lugar sem iniciar uma guerra civil. A grande família constituía uma cena rara: estavam todos ao redor da mesa enorme, diversas bandeijas dos mais variados pratos ingleses; vinho e cerveja nos copos, refrigerante e suco para as crianças. Em algum lugar da geladeira, sobremesas variadas esperavam para comparecer ao jantar. Conversas animadas se cruzavam por toda a sala de jantar e Jonathan apenas escutava, sentado na cadeira confortável, observando como Monica se entrosava entre os parentes. Ele sorria, o que raramente fazia.
Em uma das pontas da mesa, sentado em clara posição de destaque, o pai de Monica apoiva os cotovelos na madeira, cobrindo a boca com as mãos. Seu rosto parecia escupido em pedra, com traços duros e bem definidos, calvo e com hirsuta barba cobrindo o hemisfério abaixo do nariz aquilino. Ele estudava o rapaz com olhos afiados. Olhos como o de uma águia esperando pelo vacilo de sua presa. “O que você sabe sobre a guerra Jack?”
“É John, papai”, disse Monica, aborrecida. Ela esperava esse comportamento do patriarca, mas mesmo assim ficava chateada com os testes de seu pai. Sabia que não deveria apresentar seu namorado naquela data específica.
Jonathan ficou calado por algum tempo, buscando todas as informações que seu cérebro mergulhado em hormônios adolescentes conseguia juntar. Não era muita coisa. “Qua...”, fez um ruído estranho ao limpar a garganta e seu rosto explodiu em escarlate, “qual guerra?”
“A única que foi combatida por razões legítimas, qual outra?”, ele deu uma risada sínica e olhou para a mulher. Ela disfarçava o embaraço que sentia, encarando o peixe frito no próprio prato. Um silêncio pesado caiu sobre a mesa.
“Papai, não comece, por favor.”
“Conte a história do vovô, papai!”, pediu umas das irmãs de Monica. A mesa toda concordou em uníssono.
O velho descobriu a boca e a limpou com um guardanapo, assumindo uma linguagem corporal totalmente diferente. Agora ele sorria com o canto dos lábios finos. “John”, ele parecia cuspir a palavra, “vou te contar sobre meu pai. Ele nasceu em uma época de homens duros, de vida dura. Os fortes venciam, os fracos morriam, era simples assim. Não havia essas porcarias eletrônicas das quais vocês sobrevivem hoje em dia. Nada de celulares, computadores, cento e cinquenta canais na porcaria da televisão ou as coisinhas todas com a marca da maçã. Vocês crianças parecem zumbis! Uma guerra faria bem para sua geração, ouça o que estou dizendo.” Ele parou e terminou o vinho que estava na taça. Pegou uma garrafa qualquer e bebeu diretamente dela. Um fio vermelho escorreu pelo canto dos lábios finos do velho. Para Jonathan, o vinho que escorria parecia sangue. “Uma vez por ano eu conto a história de meu pai e como ele sacrificou sua vida por aquilo que acreditava. Eu gostaria de contar ao redor de uma fogueira, vestindo o uniforme que ele usava e depois disparar algumas balas nas árvores da floresta em sua homenagem, acompanhado apenas das pessoas que amo... mas agora você é família, independente de minha opinião. Então, escute e aprenda algo de útil.”
Segurando um copo de cerveja, Jonathan sentiu o suor tomar conta da palma de sua mão.
O velho ficou de pé e começou a narrar: “Meu pai estava em na linha de batalha há um ano e quatro meses quando morreu. Conseguia disparar um rifle cinco vezes mais por minuto do que os soldados bem treinados normalmente conseguiam. Algumas cartas que irmãos de arma escreveram sobre ele dão a impressão de que era uma máquina perfeita, um soldado ideal para seu país. Eu me lembro do dia em que ele foi embora, mamãe chorava e meu irmão mais novo ainda estava no colo dela. Não entendíamos o que estava acontecendo e porque meu pai tinha que ir embora. ‘Para lutar contra os homens maus’, foi a última coisa que ele me disse. Depois disso, sumiu pela porta e nunca mais voltou para nós. Quando ele foi para a guerra, nossa casa não era mais a mesma, acho que isso aconteceu em todos os lares tocados pela guerra... em todas as guerras, para todos os países. A terrível ausência, o silêncio da falta. Escutávamos pelo rádio as notícias da guerra e vivíamos os desesperos de algumas pessoas que recebiam a mais temida das notícias, quando uma carta avisava que apenas um corpo, quando muito, retornaria para casa. No dia que minha mãe recebeu a carta anuncianado a morte dele, ela não chorou: reuniu todos os filhos e explicou como o pai daquelas crianças fora um soldado honrado e que não deveríamos chorar, se não por orgulho e compaixão por todos aqueles que ainda sofriam por toda a Europa. Ele morreu em julho de 44, sabe do que estou falando, certo?”
Jonathan negou timidamente, com movimentos lentos de sua cabeça.
“Sempre os melhores, eh, Monica?”, o velho balançava a cabeça junto com o jovem do outro lado da mesa. “Segunda Guerra Mundial. Hitler, nazistas, Dia D... Você precisa ler mais. Meu pai lutou no Dia D. No dia da invasão da Normandia, dia seis de junho de 1944, as tropas norte-americanas de paraquedistas pulou às cegas e praticamente todos os soldados ficaram longe dos alvos anteriormente planejados; enquanto milhares de vidas acabavam entre as marés daquele dia, outros milhares de soldados vagavam aleatóriamente entre fazendas e pastos. O caos tomou conta do interior da França. Soldados americanos, britânicos, alemães... todos eles vagando entre as pequenas cidades sem armas, sem provisões, sem seus companheiros de treinamento. Desconhecemos o tempo que papai ficou vagando sozinho, mas sabemos que ele morreu nos primeiros dias que seguiram o Dia D e por todo esse tempo ele lutou contra o inimigo, servindo sua pátria e suas crenças. Acho que na manhã do dia sete ele se encontrava completamente armado, com um rifle, uma baioneta e duas granadas de mão, mas na confusão da noite anterior, ele estava sozinho no meio de um bosque. Ele escapou de facas e balas, a única baixa fora seu cantil, que tomou uma bala para salvar a perna esquerda e, provavelmente, sua vida. Sua garganta devia estar seca, raspando; o estômago roncando; as forças ameançando escapar de suas pernas a cada passo, a cada metro percorrido. Consegue imaginar isso rapaz? Foi quando ele escutou uma arma sendo engatilhada. Antes que pudesse achar cobertura, estava cercado por cinco soldados inimigos. Apenas um deles estava armado. Papai não hesitou: disparou três balas rapidamente e, quando o cartucho vazio pulou da câmara, três inimigos estavam mortos, entre eles o que estava com o rifle. Com a baioneta, abriu o abdômen do quarto homem e perseguiu o último inimigo, abrindo sua garganta quando o alcançou. Eles tinham mais munição, um pouco de ração, água e mais três granadas. Assim ele passou o dia, escondido entre as árvores do bosque, matando inimigos. Pequenos agrupamentos se formavam na área, mas logo eram dizimados por um único soldado. Até hoje dizem que o espírito de meu pai habita aquelas árvores e, nas noites calmas, é possível escutar o grito de terror dos jovens com as tripas espalhadas pelo chão.”
“Que horrível, papai!” Monica estava pálida. “Que tipo de homem você quer mostrar para John? Que homem é capaz de fazer essas atrocidades?”
O velho esmurrou a mesa com os dois punhos antes que ela pudesse soltar mais uma única palavra. A mãe de Monica soltou um pequeno grito, uma garrafa de vinho virou e esparramou o líquido na toalha branca, o que fez John pensar em sangue derramado em um amontoado de folhas podres. Os convidados não sabiam para onde olhar; no outro cômodo, um bebê começou a chorar e uma mãe pediu licença da mesa de reunião. Apenas uma chama viva naquela casa havia: os olhos de um homem que admirava a força de um soldado determinado.
“Atrocidades?” Ele tentou se acalmar em vão e gritou a mesma palavra, cuspindo gotas de saliva que se misturavam ao vinho derramado: “Atrocidades? Ele estava em uma situação de vida ou morte! Você sabe o que ficar cercado por inimigos e lutar para viver, sem saber se verá a próxima lua ou até mesmo até a próxima refeição?”
“Você sabe?” Ela retorquiu em um tom desafiador.
O velho desabou na cadeira, reprimindo rapidamente um esgar no rosto. Uma lágrima solitária caiu de seu rosto. “Não... não é como se ele gostava do que fazia. Apenas entendia a situação em que estava. Um soldado, quando perdido em território hostil, tem duas opições, filha: ou deixa as sombras de seu coração tomarem conta de quem ele é ou ele se deixa abater e, na melhor das hipóteses, se torna um prisioneiro de guerra, o que também significará sua morte na maioria das vezes. Ele lutou, isso é um fato, puro e simples. E me orgulho disso, você deveria também.” Desvirou uma taça e a encheu de vinho. Dois longos goles lavaram sua garganta cansada.
O cérebro de Jonathan lutava para organizar o saber fragmentado que tinha sobre história. Deus, como era ignorante!
“Ele escreveu para seu bisavô, Monica. Pouco antes de morrer, talvez no último momento de calmaria em que fora poupado dos terrores da guerra. Ele dizia que olhava para os mortos, via os olhos abertos, sem vida, sem enxergar a beleza do bosque que os cercava. Pensou em quantas irmãs iriam chorar sobre o corpo dos valentes irmãos, de quantas crianças ele tinha roubado a chance de nascer. Por fim, se perguntou quantos amigos teria feito entre os mortos, fosse outra a situação. Meu pai sempre teve certeza da necessidade de lutar, de expurgar tudo que havia de errado em sua nação e, em parte, no mundo todo. Mas naqueles momentos ele fraquejava. Acho que qualquer penamento muda quando nossas mãos estão sujas de sangue. Na manhã do que pode ter sido o Dia D mais quatro, um grupo de amigos entrou no bosque. Ah, que reunião deve ter sido! Como seu pobre coração saboreou os olhares livre de julgamento. Pelo contrário! Olhares de orgulho e admiração! Ele escreveu essa última carta e, poucas horas depois uma tropa inimiga invadiu o território. Centenas de homens fechando o cerco sobre dez, quinze soldados. Organizaram uma defesa precária e protegeram cada centímetro que tinham. Bang, bang, bang.” O velho segurava um rifle invisível, fazendo mira com um único olho enquanto disparava suas balas mentais. “Trinta inimigos estavam no chão e treze deles ainda resistiam, atirando, arremessando granadas, protegendo-se mutuamente, sobrevivendo. Aposto que a maioria deles pensava em algum bolo de carne que estaria nas mesas de sua cozinha, quentes e saborosos, tenros como uma boa carne é; pensavam na voz de suas mães, no delicioso cheiro que escapava do cabelo de suas amantes... até mesmo no ladrilho do banheiro de suas casas, lugar para o qual nunca voltariam. Todos eles, excluindo seu avô, ignoravam pelo quê lutavam, apenas lutavam porque os homens poderosos mandaram cartas para suas casas. Seu avô, Monica vestia as cores da bandeira e tinha convicção em seu líder. Não era a guerra deles, mas morreriam por ela. Quando restava apenas ele, sei disso porque os sobreviventes do outro lado da batalha contaram depois da guerra, papai ficou de joelhos na terra úmida de sangue, braços caídos, ombros baixos e queixo encostado no peito, como morto. Quando soldados inimigos estavam perto dele, tirou o pino de uma granada que roubara no primeiro dia que passou escondido nas moitas do bosque e se explodiu com outros oito homens. Setenta e cinco inimigos mortos para eliminar quinze bons homens de nossa pátria.” Mais lágrimas caíam agora. “Por isso, todo ano nos reunímos no primeiro sábado depois do dia seis de junho para lembrar de meu pai. Esteja bem, velho, onde estiver. Esteja bem.”
Jonathan enclinou na direção de Monica e sussurrou: “Não deveríamos ir para o túmulo de seu avô e dizer umas palavras?”
O velho se levantou da mesa e andou até o namorado novo de sua adorada filha.
“Não dá”, Monica respondeu, “a ossada foi levada para a Argentina quando ele ganhou uma cerimônia por lá. Mas não podemos entrar mais na Argentina, depois eu te explico melhor”.
John, filho de judeus e ignorante dos fatos históricos, apenas concordou com a cabeça e se levantou, apertando as mãos firmes de seu sogro. Ele se perguntou se ela era judia, seus pais ficariam felizes. Monica parecia um nome judeu, afinal.
“Espero que esteja de acordo com nossas crenças, mesmo morando aqui na Inglaterra. Espero que partilhe nosso ideal”, disse o velho.
            “Claro, claro”, ele respondeu com determinação na voz. Ele ainda tentava se lembrar sobre o que tinha estudado do Nazismo para uma prova de História.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

por toda a parte

Um homem entra no Clube. Roupa alinhada. Desespero no rosto. Aproxima-se de Joana, quero uma caixa de fósforos. Olha as prateleiras de bebida e completa, e a bebida mais forte que tiver. Ela olha de esguelha, mas a nota da onça amarela brilha no balcão sujo e a convence.

Ele tromba na saída com Jakis, outro frequentador do Clube que tem nome americano, embora seja mais brasileiro que a caipirinha. Curioso e preocupado, acompanha o trajeto do homem que dá a volta no local, rumo a queimada carcaça de caminhão nos fundos.

No emaranhado de lata agonizante há uma pilha de papéis. Joga a bebida sobre eles, deixando Jakis depressivo pelo desperdício, e acende um, dois, três palitos de fósforo. O fogo ilumina o ambiente. Alguém no mictório do clube os observa pela janela. O homem ri desenfreadamente, dança em círculos.

Jakis decide se aproximar, o homem antecipa o encontro e o abraça. As roupas alinhadas não anulam os dias sem banho. O homem não parece bêbado, apenas alterado de alguma maneira.

"Pronto, pronto. Está feito", ele diz, olhando nos olhos de Jakis, como se ele fosse testemunha de um acontecimento único.

"O que, meu velho? Para mim você gastou só uma boa bebida", responde a ele.

O homem lhe entrega o que sobrou da garrafa como saudação. Prossegue. "Encontrei duas... Não, não, três caixas de minhas anotações feitas há mais de seis anos atrás. E, por Deus, são horríveis. Eu precisava dar um jeito nisso imediatamente. Olhe, olhe, deixei esse pedaço como recordação" e estica na sua frente uma página rabiscada. Jakis se esforça para ler na escuridão: "Caminho nas ruas imaginando que com uma das mãos aceno para as pessoas e, na outra, empunho uma arma fictícia. Escudo que tenta me proteger dos outros. Proteger a alma que nunca se fecha." Ergue os ombros, tanto faz. Não entende aquilo que leu.

"O problema, meu amigo, é que há muitas histórias no mundo, entendeu?" Jakis meneia com a cabeça, pensando na garrafa que está segurando. Dá um gole aproveitando o silêncio que fica no ambiente. O homem ergue a mão como quem ignora o comentário e começa a jornada de volta para casa.

Jakis volta ao clube, percebendo que ficou com o papel ofertado pelo homem. Senta no balcão, conta a Joana o acontecido e a entrega o texto. Ela lê rapidamente, dobra-o e coloca dentro do sutiã.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

do mundo, uni-v

- Você já reparou no muro pra lá da janela, no banheiro aqui do Clube? Tem uma janela específica, em cima de um dos mictórios, e dela se vê um muro. Há qualquer coisa escrita em letra corrida, marcada, com tinta indignada. Um tipo de protesto, creio. É possível ler "nheiros, lutemos contra o Est.../ ento da dívid.../ der é nosso! Vamos, trabal.../ r um mundo nov..."

A cerveja esquentava.

- Não, nunca reparei. Que tem demais?

- Nada, na verdade. É que na frente desse muro há um caminhão estacionado. Estacionado pra sempre, rest in peace, porque a caçamba foi toda queimada e a cabine está derretida pela metade. Dá pra ver, através do parabrisa que não existe, o volante derretido, feito vela velha com a cera pendurada, estalactite de borracha. E os bancos, também, molas pulando através do couro rasgado, chamuscado. Carroceria enferrujada por sob a fuligem.

- E que tem?

- É que por mais importante que venha a ser a mensagem do muro, não consigo deixar de olhar o caminhão. Dá pra imaginar o quanto de histórias passaram nele? Aquele incêndio, a dor, a morte, a carga perdida, congestionamento, estradas manchadas de óleo vazado. Ou, de repente, só o fogo começando ali, num caminhão estacionado. Sem chance pra se defender.

- Ou o homem escrevendo no muro tacou fogo no caminhão que conduzia policiais que faziam campana pra prender qualquer um que escrevesse num muro na noite fria e escura de um tempo antigo, sabe como é.

- É. Sei.

- Há histórias por toda parte.

domingo, 10 de junho de 2012

Joana Nas Alturas

Se Joshua fosse inteligente, realmente inteligente, não seria dono de um bar. Dificilmente saberia que Joana chegava antes do expediente, enquanto ele estava no escritório fazendo contas, e retirava uma nota pequena da caixa de emergências.

Mesmo que evitasse beber nas horas de trabalho, o ambiente esfumaçado e alcoólico deixava o clube etério. Nunca sabia ao certo a quantia que estava na caixa e, por via das dúvidas, colocava mais algumas notas lá dentro.

Joana, com óculos de sol grande e bem redondo, utilizava sua chave da porta lateral e permanecia a espreita. Certificava-se de que Joshua estava no escritório e, quase na penumbra, tateava a caixa e retirava o dinheiro. Para ela, o dono sabia dessa rotina, mas o que poderia fazer, pensava.

Ao menos duas vezes por mês ela precisava desse dinheiro para comprar maquiagem de emergência. Esconder as marcas que o marido deixava em seu rosto. Para ela, o patrão reconhecia os dias de pintura excessiva. Mas se estava realizando bem o seu trabalho, não era de sua alçada intervir em nenhum problema.

Talvez fosse por isso que Joana fosse Joana. A garçonete querida e desejada do Clube, que tratava os homens como nem mesmo suas mães o tratavam. Não a toa, boa parte dos bêbados ocasionais do lugar marcavam sua presença pelo afago caloroso que, mesmo sem tocá-los, ela produzia no ambiente.

Então, duas horas antes do expediente ela ia para o Clube, roubava o dinheiro necessário para a maquiagem do dia, comprava as cores na farmácia mais próxima e passava meia hora no banheiro feminino escondendo a destruição que o marido causava. E nesse pequeno espaço de tempo ela se transformava daquela mulher violentada pelo marido na mulher que todos conheciam.

No espelho confirmava seu talento para maquiagem. Sabendo que somente ela via as marcas que estavam embaixo. Como era comum, avisava a Joshua que estava no trabalho colocando a primeira música da noite na jukebox. Deixava que o som inaugural daquela noite lavasse sua alma e os pecados do marido. Agora ela era Joana. Ponto Final.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A Curiosidade Bebeu a Cerveja


“A curiosidade matou o gato.” Olhavam para a geladeira, ambos sem coragem para abrir a porta branca e enferrujada do eletrodoméstico antigo. Ímãs com propagandas de pizzarias, padarias ou videotecas se espalhavam pelo branco sujo, ímãs de todos tamanhos e formatos. Havia até mesmo o número de uma prostituta. Juravam que não sabiam quando ou quem tinha colocado aquele exemplar na geladeira. Schrödinger tinha a voz rouca, parecida com a voz dos investigadores de polícia nos filmes preto & branco que passavam na televisão durante a madrugada. Ele gostava da própria voz e achava que os anos com três maços de cigarro diários tinham deixado ao menos aquilo de bom. Uma voz forte, com um quê sexy. Pelo telefone ele conseguiria qualquer mulher, tinha certeza. Afinal, era difícil ver aquela barriga redonda e dura pelos fios da comunicação em massa.
“O que é agora? Que merda é essa sobre o gato? Não estou vendo gato algum.” Ele lambia os lábios. Sempre que passava por algum stress ficava com os lábios secos. Odiava aquela sensação: coração parecendo bateria de alguma banda de metal, os ataques sucessivos de piscadelas no olho direito, o suor que escorria pela testa enrugada. Logo teria que tomar algo para controlar a pressão. Merda. Esse suspense ainda me mata. Ao menos não tinha a veia pulsante de Schrödinger.
O sol não entrava suavemente pela janela do apartamento. Ah, o sol explodia pelas janelas do apartamento, sem qualquer misericórdia, sem piedade. Ele estava lá para ter certeza de que ninguém ficaria confortável. Se deixassem as cortinas fechadas estariam suando como dois porcos gordos em poucos minutos. Precisavam do pouco vento que entrava nos cômodos, ainda que morno e carregado pelo cheiro ácido das pessoas que passavam na rua. A geladeira, pobre máquina que lutava contra seus anos de fabricação chinesa, funcionava quando conseguia. Quando não, suportava alguns chutes em seu motor e acordava novamente... talvez pela última vez.
“O gato... você sabe, o gato do meu tio-avô.” Sempre que podia ele lembrava as pessoas que vinha da linhagem do famoso físico, principalmente agora que todos falavam sobre o gato. “Sempre acreditei que essa expressão surgiu por causa do E”, tentava não se irritar da forma como falava do verdadeiro Schrödinger com tanta proximidade. Erwin era simplesmente ‘E’ nas suas histórias. Como se fossem melhores amigos. Talvez ele tanha ficado com o famoso físico apenas uma única vez em toda sua vida. Quando era bebê. E provavelmente estava dormindo. “Pense comigo. O E escreveu que se você colocar um gato com um frasco de veneno em uma caixa e a fechar, o gato pode tanto estar vivo quanto pode estar morto, certo?”
De novo a história do maldito gato. Suor escorria por todo seu corpo. Estava em uma cozinha ou dentro de um forno? “Sim, eu sei do paradoxo, você contou milhares de vezes.” Pegou a toalha que tinha pendurada no pescoço e enxugou o rosto. O tecido fedia sua própria essência.
“Paradoxo não! Paradoxo é quando algo não deveria acontecer mas acontece... como viagens no tempo. Nesse caso nós temos duas possibilidades. O gato está vivo e está morto, percebe? Se não abrirmos a caixa, isso dentro da janela de tempo em que o felino levaria para morrer de inanição, o bichano pode ter estourado o compartimento de veneno e estará espumando por todos os buracos, morto, morto, mortinho. Mas, e esse é um grande, gra-aa-ande mas, o gato pode ter ficado esse tempo todo apenas dormindo, como um anjinho. O veneno no frasco, e o bicho pula para o mundo na primeira fresta.”
“Sim, sim. Repetições, considere sua queda para contar a história do Gato de Schrödinger. Eu sei das possibilidades, sei da maravilha quântica da incerteza paradoxal. O que não compreendo é o que tem a curiosidade de culpa na morte do seu gato.”
“O gato não é meu. Como poderia ser? É um gato hipotético!” Lançou contra o amigo em uma voz aguda. “O gato está lá, vivendo sua vida ou morrendo sua morte e, excluindo o fato de termos colocado o veneno em um ambiente herméticamente isolado, não temos culpa de nada. Até que a curiosidade nos force a abrir a caixa. Pronto. A curiosidade matou o gato. O gato que estava vivo e morto pode estar morto com certeza. Logo, a curiosidade matou o gato.”
“Tecnicamente seu tio-avô matou o gato. Pra quê colocar veneno com o animal, coitado.” Esticou a mão e agarrou com firmeza o metal frio, pronto para abrir a porta, mas sentiu os musculos retesarem. Por fim, limitou-se a enxugar o rosto novamente com a imunda toalha.
Os dois homens poderiam estar, não fosse o medo terrível que sentiam de enfrentar a verdade, sentados confortavelmente no sofá, refrescando o corpo com cervejas geladas, o frescor descendo pelas gargantas agradecidas, um filme antigo com John Wayne na pequena televisão. Do outro lado da moeda, poderiam estar em desespero, condenado a cruzar o tórrido deserto que era aquela tarde insuportavelmente quente sem qualquer gota do néctar tão precioso e vital.
“A Geladeira de Schrödinger”, disse Schrödinger sorrindo. “Você realmente não se lembra se temos mais cerveja?”
“Não. Acho que vi. Eu vi... não, não tenho tenho certeza.”
“Podemos ter cervja... podemos não ter cerveja. Temos refrigerante? Suco? Chá gelado?”
“Não, não e nunca.”
Ele engoliu em seco. Que dia terrível. “Temo... água?”
O outro apenas abanou a cabeça em negativo.
Schrödinger segurou na borracha que vedava o ar gelado. Quase abriu a porta, revelando por fim seu destino e quebrando a penosa dúvida, mas a coragem lhe falhou no último momento.
Minutos mais tarde, sentados no couro das poltronas e completamente melados no próprio suor, os dois homens tomavam água morna da torneira. As possibilidades continuavam e ambos estavam inseguros se queriam pagar o preço da certeza. Por fim, o neto de Douglas Adams perguntou, apenas para acordar a veia saltitante na testa do distante parente de Schrödinger: “Então, quantos gatos você acha que seu tio-avô matou?”

segunda-feira, 4 de junho de 2012

in your head

"Mãe, pega as crianças e vai pra longe. Pra casa da vó, se possível. O tio sabe o que fazer, vocês podem ficar lá um tempo cuidando da terra. Não vai faltar comida, e é fácil se proteger na fazenda se alguma coisa acontecer. O caseiro vai dar uma força. Os filhos dele são bons, dois eram do exército, o outro é enfermeiro. Vai dar tudo certo."

- Sai desse telefone, porra! Não podemos ficar isolados.

Joshua não gostava quando se penduravam no telefone velho, no telefone do Clube. Volta e meia alguém ligava para dar as más notícias, do tipo morreu-alguém, do tipo o-filho-é-teu, do tipo a-polícia-tá-indo-aí. Por isso ele não gostava de gente pendurada no fone, empacando ligação. Mas essa era a primeira vez que Joshua queria o telefone livre pra poder, caso preciso, ligar pra alguém. Naquela situação era sempre bom ficar informado.

"Não esperem por mim, mãe. Estou muito longe e acho que em poucas horas nenhum caminho vai ser seguro. Em poucos dias, com certeza nenhum caminho vai ser seguro. Quero vocês na fazenda ainda hoje, e não se preocupem comigo."

Na mesa do lado, perto do telefone, um casal brigava quando a mulher se tornou num monstro. O homem se apavorou, cadeira pra trás, caiu no chão. A mão que não segurava o fone segurava um canecão de cerveja forte, canecão pesado da Oktoberfest, 92. O caneco voou no coco, a mulher que já era zombie morreu ali, com cerveja escorrendo pelos seios fartos, pela pele podre. O homem caído no chão chorou. O do telefone só resmungou um pouco: Joshua!, outra cerveja por favor.

"As crianças sabem o que fazer, também. São mais espertas que o tio, mas o tio é mais forte. Diz pra elas que eu mandei um beijo e pedi pra tomarem cuidado, tomarem juízo e tomarem bastante coragem pra encarar o que vem aí. Elas são espertas, vão conseguir. Diz que um dia encontro com elas."

Um rapaz que estava bêbado agora estava morto, e trançava as pernas caminhando pro balcão. Bateu na jukebox, trombou, caiu, um disco lá de dentro começou a tocar música irônica e Joshua sorriu. Saiu de trás do balcão com um bom pé-de-cabra, arrebentou a cabeça bêbada caída ao chão e, puxando pelos pés do cidadão, jogou lá pra fora do bar.

Joana estava sentada sobre uma mesa, perto da saída de emergência. Fumava um cigarro, pernas cruzadas e cara de tédio. Na mesa de bilhar um velho gordo começava a virar zumbi. Ela conhecia o paquiderme, maldito cliente porco rico nojento e grosso, do tipo que faz piada com garçonete e acha que todas têm que gostar. Que todas têm que dar pra ele. Fumava um cigarro sem cara de tédio, agora. Pegou a pistola e mirou bem com calma. O gordo se transformava. Mirou. Cééérebros. Blam!

Gordo caiu.

Não demorou muito e Joshua já tinha jogado o balofo fora, também. Com o tiro, tirando o homem do telefone, no Clube não tinha ninguém. Tirando Joshua e Joana, é claro.

"E não esquece, mãe: não pode ter compaixão. Quando começa a doença, não tem mais jeito. Não tem mais jeito. Se vir alguém se transformar, se for a pequena Andrea, se for teu irmão, mãe, não tem jeito! É ele ou você. E você tem que cuidar das crianças, não esquece. Depois do vírus, sem compaixão. Acerte a cabeça."

Do lado de lá da linha o tempo de gravação acabou. A mãe não estava em casa, mas o recado talvez fosse ouvido. Ele não sabia. Fosse como fosse, não havia mais o que ser feito. Agora era pegar a estrada, pegar comida, pegar o resto de mundo que sobraria, dali pra frente. Sorriu. Era um bom dia.

- Tchau! Cuidem-se
- Você também - disse Joana.

Depois que o homem saiu, saiu do banheiro um zumbi. Joshua já estava cansado, deu a volta por trás do desmorto e o foi empurrando pra fora. Quando pisou na calçada, a porta do Clube fechou. Diante dos olhos tortos do homem morto um cenário novo se abria.

Era um bom dia.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Os Dez Minutos dos Mortos


O telefone tocou. Ela pulou da cadeira e correu o mais rápido que conseguia até a sala, derrubando a cadeira onde estava e um vaso no caminho até o aparelho. Normalmente o som do telefone ficava no segundo nível, alto o suficiente para ser notado, mas em um tom que não ameaçava destruir a existência de vida na Terra todas as vezes que alguém ligava para ela. Mas havia algo naquela ligação que fazia o telefone berrar no tom mais alto que seus pulmões mecânicos conseguiam suportar. Quem usa telefone hoje em dia?, ela se perguntou. Que coisa dos anos 90!
“Vo... você está com a televisão ligada?” A voz que vinha do outro lado da linha (em um celular, ela notou... como qualquer pessoa normal), estava trêmula. No fundo ela ouvia pessoas gritando e vidros sendo quebrados.
“Não.” Ela respondeu e ficou parada. Viu que a água que estava no vaso derrubado se espalhava pelo chão da sala, junto com terra e pétalas dos girassóis. Os gritos vindos do aparelho continuavam, mais altos e longos a cada segundo, gritos de desespero e dor.
“Ligue logo! Canal 21”, a voz buscava por ar entre as palavras. Ele devia estar correndo. Faça algo! Seu cérebro gritou, forçando seus músculos a, finalmente, se movimentarem. Achou o controle da televisão e ligou. A imagem piscou na tela de plasma antes de se estabelecer. O que ela viu afundou seu coração. De repente seu estômago estava de ponta cabeça e a gravidade se desligou por um único segundo. Ela se apoiou no sofá para não rachar a testa no piso duro.
A imagem era confusa, muita coisa acontecia ao mesmo tempo em uma sobreposição de camadas que formavam um cenário completamente caótico. A primeira coisa que ela notou foi o carro pegando fogo no canto esquerdo da tela. Ao lado do automóvel, havia um corpo estendido, sangue ainda fresco escorria no asfalto do mesmo modo que água com terra se espalhava em direção ao tapete branco de sua mãe. Pessoas passavam correndo ao fundo, carregando sacolas e malas. Um homem, ela viu em um estado surreal, portava um facão. Ele balançava o instrumento sobre sua cabeça e ameaçava qualquer um que estivesse ao seu lado. No centro da imagem estava uma repórter. A garota raramente ligava a televisão, usando-a principalmente para assistir reprises de filmes de horror, nunca para jornal. Jornais são depressivos demais, ela sempre dizia em sua cabeça. A mulher que segurava a o microfone vestia um terno rasgado em um dos ombros, onde a manga fora completamente descosturada. Ela sangrava no mesmo braço. Estava pálida e o batom vermelho que usava estava combinando com o sangue que manchava sua roupa.
Henry cruzou a tela, correndo com o celular em um dos ouvidos.
“Ligou a televisão?”, ele perguntou talvez pela décima vez.
“Sim... acho que vi você.”
“Escute... não faça mais nada... só escute o que eles estão falando.”
Ela subiu o volume apertando um botão no controle. “...us começou a se espalhar. Repito, cientistas não sabem quando o vírus começou a se espalhar, apenas que ele controla os infectados. Boletins da Europa e da Ásia também confirmam que os exércitos estão tomando as ruas para controlar o surto que, aparentemente, é global. Por favor, não saiam de casa, tranqu-”. A mulher se abaixou rapidamente, alguns instantes depois uma rajada de tiros tomou conta da cena; uma explosão sonora nas caixa da televisão.
Na faixa inferior da televisão ela leu: “Redes sociais são tomadas com alertas sobre a ‘Infecção Zumbi’...”
“Não pode ser sério”, ela disse baixo.
“Isso é tão sério quanto... bom, quanto poderia ser. Parece que-”, mais tiros. “Parece que mais de dez mil pessoas já estão infectadas. A merda é séria. Os que pegaram o vírus começam a atacar em menos de cinco minutos, mas nada de comer cérebros. Eles correm para sua jugular e fazem um banquete do seu corpo. Até as os intestinos, pelo que estão falando.”
“Onde você está?” Voz estável, batimento cardíaco normal.
“Uns... uns quinze minutos. Fique pronta, vamos sair da ilha, mas vamos ter de correr, nenhum carro conseguirá andar muito.”
“Estarei pronta em dez minutos... não morra.” Ela desligou o telefone.
Fechou os olhos e focou sua mente na própria respiração. Assim permaneceu por um minuto. Quando abriu os olhos, qualquer um poderia ver a determinação e força de vontade no brilho de suas retinas. Ela sabia o que fazer.
Foi até o banheiro e apanhou uma tesoura na segunda gaveta e com poucos cortes deixou grande parte de seu cabelo na pia. Cabelos compridos não combinavam com aquele cenário e ela não se importou com o sacrifício necessário, preferia ter uma cabeça raspada do que ser agarrada pelos longos cabelos.
Andou rapidamente até o armário do quarto principal e achou uma mochila de acampamento. Esvaziou-a de antigos papéis de viagem, amassando canhotos de passagens de ônibus e bilhetes de embarque em vôos internacionais. Havia um bilhete de trem. Empilhou latas de legumes e sardinhas, separou alguns litros de água potável e socou na mochila algumas roupas. Procurou pilhas para a lanterna, pegou caixas de palito de fósforos e a embrulhou cuidadosamente em um saco impermeável, antes de fechar o zíper, colocou uma foto de sua família. Sabia que era inútil se prender ao passado. Estavam todos longe e a probalidade de revê-los era agora muito remota.
De todo modo, ela sabia, eles iriam apenas diminuir suas chances de sobrevivência. Ela sabia que o vírus se espalhava rapidamente, ‘em progressão geométrica’, os especialhistas no cenário apocalíptico diziam constantemente. E, olhe só, eles estavam certos. Ela prontamente assumiu que todas as lendas sobre zumbis eram verdadeiras: secreções corporais transmitiam o vírus, o status da humanidade se igualava ao de ‘gado’ para os zumbis. Dois tiros na cabeça, manter a boa forma, cuidar do cardio, nunca ficar sozinha e sempre manter a contabilidade da munição. Ela sabia tudo. Por dentro, tentanva controlar uma felicidade aparentemente incontrolável.
Levantou o tapete branco da sala, sujo de lama em uma das extremidades e deslocou o chão falso. Sua boca salivou com a visão do conjunto de facas e do pequeno machado de aço puro. Quando testou o corte do machado, seu dedo sangrou com a leve pressão que colocou na lâmina. Prendeu o cinto especial em sua cintura e colocou cuidadosamente as facas em cada lugar específico, deixando o machado por último. Por fim, colocou as duas pistolas automáticas por baixo da calça e o saco com diversos pentes na mochila.
Estava pronta.
Seu objetivo era sobreviver. Sentia um incômodo alívio, alívio por não precisar mais se preocupar com empregos, com os absurdos da vida moderna. Adeus e-mails, adeus contas, até logo pessoas imbecis de suas redes sociais. Havia a morte em cada esquina, ela bem sabia. Mas um sentimento de alegria aos poucos tomava conta de seu peito.
Quando o telefone tocou novamente, um pressentimento horrível cruzou seu corpo. Aquela ligação, ela sabia, iria destruir sua vida.
“Alarme falso!” Ele gritou em seu ouvido, felicidade e alívio se misturavam nas palavras. “Parece que os boletins eram falsos... Está tudo uma bagunça por aqui, mas era tudo falso”, ele ria entre as frases.
Ela desligou o telefone e ligou a televisão no mudo. Na mesma barra inferior, leu dessa vez: “Ataque Zumbi foi a piada do século. Cinco franceses acusados de começar a brincadeira em uma mensagem para um amig...” As palavras não faziam sentido. Ela sentiu todo seu mundo ruir.
Tinha feito esgrima, aulas de tiros, treinamentos de resistência e agilidade. Estava pronta, mais pronta para o ataque zumbi do que para seu cotidiano, conseguir um emprego e criar uma família. Começou a desfazer a mochila, pensando no que iria cozinhar para o jantar. Sentia-se vazia.
Agora que não havia mais o fim da humanidade nas mãos de mortos-vivos, ela não sabia o que fazer com sua vida. Suspirou profundamente e colocou o pijama mais confortável. Em meia hora estava comendo sucrilhos enquanto jogava em seu computador, explodindo cabeças de zumbis com seu mouse.