terça-feira, 3 de julho de 2012

antes tarde do que arthura

- Mas que caralho! Tu se chama Arthur?

- Não, porra. Não.

- Então o quê?

- Ah, só não deu.

- Como não deu?

- Não deu não dando. Eu tava lá até o meio da tarde, fazendo coisas, e quando passou do meio as coisas tavam feitas, era tarde à tarde e sol, saí pra tomar cerveja. E vim pra cá.

- E veio pra cá?

- Mas claro, claro. Vim pra cá. O  Clube é onde eu mais bebo, não sei beber noutro buraco. E vim pra cá.

- E daí, e então, e agora que já é dia de amanhã, mané, que que tu faz?

- Ah, eu me desculpo.

- Desculpa como?

- Hm... a próxima rodada é minha conta. Depois, conta da casa.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Palavras do Sol Negro


O historiador assoprou com força, levantando uma nuvem de poeira e mofo. A câmara, iluminada apenas pelo fogo de duas tochas, era escura para a leitura. Mas qual opção ele tinha? Sentado no banco milenar, dentro do bolsão mais interior da gigantesca caverna, ele olhou, exasperado, para os milhares de pergaminhos.
Isso não é uma coleção documental, ele pensou, é Alexandria! Estou na biblioteca perdida. Puta que pariu! Respirava o ar carregado por milhares de anos de isolamento. Mesmo conhecendo os procedimentos, retirou a máscara branca que cobria a metade inferior de seu rosto. O pequeno monomotor estava no fundo do rio, provavelmente. As cobras que haviam chegado em uma caixa em suas acomodações quase o mataram, mas ele tivera sorte por estar cozinhando: a lâmina de um cutelo era, afinal, mais forte do que duas cascavéis. Mesmo assim, ele tivera sua dose de soros antiofídico. As lanças, espadas, pistolas e até mesmo dois assassinos com lança granadas. Ele estava vivo, superara todas as tentativas para barrar o conhecimentos. Inclusive os dois aborígenes mortos na entrada da caverna.
Depois de alguns dias perdido no labirinto escuro de estalagmites, e de quase ser atingido por estactites que se desprendiam convenientemente apenas quando ele estava por perto, ele havia encontrado as inscrições dos pergaminhos sobreviventes da mítica biblioteca. ‘Para aquele que nos encontrar’, leu na língua morta, sinais gravados diretamente na pedra da caverna, ‘volte para os seus, fique entre ele e não volte para os papéis do Sol Negro. Aqui existe morte e morte apenas’. Riu com escárnio após traduzir os complicados símbolos e continuou em seu caminho.
Finalmente estava onde deveria estar. Todos os passos de sua vida só ganhavam importância por levá-lo até este instante. Todo o resto, antes e depois, perdia a cor diante do colorido mosaico de pergaminhos que observava com olhos gulosos.
Esticou o longo pergaminho, produzindo uma nova nuvem de partículas provavelmente inexistente no planeta há mais de séculos. O pergaminho era lindo, nos olhos do historiador: desenhos góticos traçavam as bordas do couro animal, marcando o texto com belas gravuras. O estilo, no entanto, não correspondia com a data provável do documento. Anacronismos. Interessante, pensou enquanto seus olhos percorriam rapidamente as linhas arcaicas.
O historiador achou uma postura mais confortável e leu. Minutos e horas se mesclaram; dia e noite derreteram. Ele leu sobre a história da biblioteca de Alexandria, dos pergaminhos misteriosos e dos perigos que rodeavam aqueles que a frequentavam. Descobriu que o próprio Aristóteles havia incediado os papiros e pergaminhos com o óleo grosso das lanternas, afirmando estar salvando o mundo de mistérios que existiam para nunca ser revelados.
O mais impressionante é que há documentos de quase todos os séculos, que provavelmente foram adicionados depois. Todos os segredos estão aqui, ao meu alcance. Segredos que explicam o mundo além do nosso e das pessoas que controlaram e ainda controlam os rumos dos acontecimentos. Ele sorria, imaginando que Indiana Jones estaria com inveja naquele momento.
Colocou as mãos em um livro costurado em um couro escuro. Um pentagrama estampava a capa do livro, nada mais. Abriu o grande volume e começou a tentar traduzir os parágrafos. Uma mistura entre latim e inglês antigos se alternava entre as páginas, mas o texto fazia sentido... dentro dos padrões do próprio texto.
O livro contava sobre os primeiros deuses, monstros amórficos que viviam no oceano abissal; terrores da natureza que deixariam os homens loucos apenas com sua forma; seres sobrenaturais que chegaram em pedras do espaço; entidades que eram origem para mitologias inteiras. O historiador sentiu a própria sanidade fragilizada pelo texto.
O texto avançava, explicando a história dos homens e os momentos influentes no fluxo de acontecimentos que mudavam o modo de viver e pensar da humanidade. Era um prisma único, páginas que continham a verdade na mais pura forma. Conforme virava as páginas, sem perceber o estômago roncando por alimento ou os músculos duros e exaustos pelos dias de leitura constante, ele notou que o texto variava de estilo gramatical e regional. O latim se transformou em alemão antigo. Centenas de páginas depois, lia em italiano provinciano, depois algumas poucas páginas em chinês (felizmente traduzidas no mesmo italiano carregado de gírias locais) e, por fim, o velho e conhecido inglês, ainda que em sua forma pré-Shakespeare.
O livro estava narrando um personagem que procurava pela coleção perdida no fogo de Alexandria. Ele enfrentara os guardiões dos pergaminhos, sobrevivendo para condenar os homens ao horror. Parou de ler, sentindo um frio na espinha.
O historidor leu sobre estar lendo as linhas que narravam estar lendo as mesmas linhas.
Perdendo o controle sobre os membros, ergueu com esforço um dos braços e leu mais um pouco. ‘Com dificuldade, o historiador ergueu o braço direito e leu mais algumas frases. Sabia ele que estaria acordando forças ancestrais?’
Ele sentiu o coração disparar e conferiu o livro. Sim, estava escrito que seu coração estaria em um ritmo rápido. O historiador, curioso nato, virou as páginas que faltava para terminar o grande volume e leu as últimas linhas.
... fraco. Suas últimas forças foram utilizadas para sussurrar os encantamentos esquecidos. Grhol’ar Araramath Huorinthor! Ele disse. E os Terrores acordaram. O Sol escureceu, a Lua caiu e o próprio céu sangrou. Florestas mudaram de lugar, desertos congelaram e Oceanos evaporaram, matando bilhões em um só dia. Os homens ficaram loucos e sofreram. Até o último deles. Outra Era começava, apagando com fogo e morte a raça logo esquecida.
Depois daquela linhas, o livro estava em branco e muitas outras páginas se seguiam, igualmente vazias de palavras. Ele tinha que continuar a escrever o livro.
Voltou para a página marcada pelos dedos da outra mão e continuou a ler. Queria saber o que iria acontecer entre o ponto em que estava e o final do livro costurado com couro.
Em algum lugar das prateleiras, achou ter escutado uma risada sinistra.
Mas resolveu continuar a ler o mais rápido possível. As vozes em sua cabeça mandavam, ele obedecia.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

João

Durante muito tempo de minha vida acreditei que balas eram uma licença poética. Um recurso estilizado como um catalisador de uma mudança. Até ver aquela arma fria em minha frente e o homem de máscara. Quando ele foi embora que minha pressão baixou mas estranhamente eu tinha consciência de tudo. Eu de pé, João baleado.

Li em uma história em quadrinhos sobre um assassino pintor. Ou pintor assassino, escolham como preferirem. Dizia ele que nenhuma tinta tinha a beleza da coloração do sangue. Então matava para pintar suas telas. Mas nada é tão bonito quando seu melhor amigo tem um pedaço de metal que atravessou o braço. O sangue espirra, escorre. O que mais me marcou foi seus gritos de agonia. A saliva produzia bolhas enquanto ele desesperava.

Foi quando parei de sair de casa e de gostar de armas. Se via alguém assistindo um desses filmes de ação, não importa qual fosse, entrava em pânico. Vestia as roupas do carola e dava um sermão. Mas eu chorava por dentro. Lembrava de mim, João, do sangue, da agonia, dos minutos que pareceram horas até o socorro chegar e das horas que pareceram dias para prestar depomento na polícia.

Seis meses dentro de casa, que deixei até a barba crescer, quando meu estômago reijeitava violentamente qualquer comida pronta entrega da região, decidi sair. Fui na sacada de casa e olhei o mundo. Daqui não poderiam me atingir.

Chamei um taxi e ele me levou até o shopping. Na livraria, comprei todos os livros que meu dinheiro poderia obter sobre criminalística, crimes, assassinos, assassinatos, latrocínios e justificativas psicológicas que levam um ser humana a: primeiro, roubar. Segundo, atirar em alguém.

Então, lembrei-me de um antigo conhecido na polícia. Entrei em contato e lhe pedi uma arma. Não sei porque preferi um policial do que procurar uma arma no tráfico. Descobri, porém, que eu não queria um arma. Desejava apenas o confronto. E foi o que fizemos.

Coloquei a arma na mão e senti um conforto insuperável. Compreendi a potência da destruição e gostei. Tive prazer. Mais que com dinheiro. Mas que com mulheres. Aquilo era o tudo e o nada. Nirvana. O transcendentalismo.

Talvez eu quisesse uma arma para me matar. Quando mais novo eu tinha sonhos de me dar um tiro e sobreviver. E que no sangue que estampasse minha sala – talvez a tal pintura da história em quadrinhos – todos os meus pecados e minhas dores iriam embora juntos. E eu levantaria, nobre e triufante cuspindo pedaços do meu coração. Mas deixei os grandes atos para o/utros.

Hoje fico feliz quando consigo transitar um pouco. Sem ataques de pânico, pois, após dois meses, depois dos seis meses, deixei de tomar os remédios. Eram um dinheiro gasto a toa e que não me dava a compensação necessária para viver. Tudo tornava-se ameno demais.

Quando vou a padaria a duas quadras de casa. Caminho pela praça. Arrisco um passeio de taxi nas redondezas, me sinto feliz. É pouco mas é tudo que posso fazer. João está bem, sadio, aprendeu a se virar com a esquerda mesmo não sendo canhoteiro. 

Em algum lugar eu fiquei. Com a bala. Com o medo. Com o sangue no rosto. Paralisado.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

versão do amor

- Eu lembro vagamente de 1964, quando a ditadura no Brasil começou - começou pra se alongar por mais tempo que devia. Lembro vagamente.

Ele falava com o copo na mão, meio levantado entre a mesa e a boca, os olhos no teto relembrando seu passado histórico. Historiográfico.

- Em maio de 68 a França explodiu, frenesi elétrico que só não foi mais alucinado que Londres em 67, o verão do amor na terra inglesa. Quase na Terra toda. França e Inglaterra, você sabe, muito perto uma da outra pra que alguém possa dizer "ah, não deu pra ir".

Joana olhava, interessada, a história contada pelo velho.

- Houve outras coisas estranhas, marcantes, houve sim. Olimpíadas de verão, Munique, 1972. Aqueles atentados terroristas que viraram filme. E pra não sair da Alemanha, aquela belezinha de queda/derrubada do Muro de Berlim, 1989.

Um gole. Um "ah!" de satisfação, estalo na língua e na memória.

- 1991, Impeachment de Fernando Collor, Brasil, caras pintadas... Em 90 o Cazuza tinha partido. Pena, foi antes do Collor.

"E 2001?", alguém perguntou.

- As torres? Gêmeas, mortas, sim, 2001. Todo mundo sabe. Dava pra ver a merda vindo. E depois Afeganistão, Iraque, todas essas guerras bonitas dos anos 2000, da década de 10, tudo isso.

"E... e você estava lá, nesses lugares, em todos esses momentos?", dizia a voz curiosa e um tanto envergonhada da jovem sentada na mesa ao lado.

- Eu!? Ah, mas claro que não - e o velho ria - Não saio desta cidade deste 1952. Tenho uma perna que não me deixa subir escadas e uma fazenda pra cuidar. Além do mais, pra que eu deveria estar nesses lugares? Pitando fumo, quieto em casa, eu tenho a vida toda.

E acendeu seu velho cachimbo velho.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Mister Noite


“Eu prefiro o Corpo Fechado.” Estavam sentados em lados opostos da apertada mesa de fórmica branca, apesar do material estar amarelado pelos anos de existência e de panos de limpeza portadores de higiene duvidosa. Os bancos eram espaçosos, estofados com couro vermelho, gastos pelo tempo e, ele examinou as marcas, pelas centenas de bundas gordas que ficaram sentadas exatamente onde ele estava; clientes de todos os biotipos e raças que consumiram os mais variados pratos. Pousada ao lado de seu pé estava a mala trancada, protegida e esquecida por baixo da mesa.
“Como assim? ‘Eu prefiro Corpo Fechado’”, ficava irritado quando Beth imitava sua voz, fazendo mímica com as duas mãos como as de uma múmia nos filmes da década de quarenta; sentia-se um retardado na pior conotação da palavra. Beth continuou: “Sexto Sentido é muito melhor. Aliás, é o único filme dele que presta. O resto é lixo. As pessoas encheram os cinemas esperando por outras histórias como a do moleque que enxergava pessoas mortas, mas foram outras... não sei, abordagens? Não, estou procurando outra palavra. Ah, o diretor apenas não entregou filmes tão bons quanto Sexto Sentido, é o que acho.”
Ele sorveu um pouco da bebida no copo. O refrigerante causou o agrado de costume em seu estômago. “Isso porque você vai com as massas, meu velho amigo. Seu gosto, ainda não entendo como, é altamente manipulado pela mídia, corporativista ou não. Desde quando você ama vampiros?”, falava calmamente, sentado em uma posição rigidamente ereta, comendo o enorme lanche com as duas mãos e em mordidas contidas. Aleph quase nunca se exaltava e mantinha uma pose de estilo próprio, apesar da estupidez de Beth.
“Hum...”, ele apoiou o queixo em uma das mãos: a outra procurava por uma batata frita extra-crocante. “Há dois anos, acho.”
“Mais ou menos quando os romances adolescentes sobre vampiros voltaram para assombrar namorados forçados a assistir péssimos filmes com suas respectivas namoradas de mal gosto, certo?”, falou rápido, sem pausar para respirar.
“Não mude de assunto, Aleph. Pode ser que sou influenciado um pouco por adolescentes bobinhas, mas tenho certeza de que O Sexto Sentido foi o melhor filme do... do...”, Beth estava fazendo aquele som irritante com os dedos indicador e o polegar. Aleph achava que algum dia as manias do amigo seriam sua causa mortis. E ele próprio o culpado.
“Shyamalan. Preste atenção. Primeiro: Sinais. Sinais é um filme fantástico! Você não pode começar a ver o filme esperando uma história à John Woo, pode ter certeza. Nada daquela baboseira de disco voadores gigantes e explosões devastadoras na Casa Branca, correria e morte para todos os lados, o que você vai saborear é uma história sobre crenças. São várias crenças, gente que acredita em sinais nos milharais por todo o mundo, gente que acredita em um ser todo poderoso que escuta suas orações todas as noites e até mesmo sobre coincidências. Pensa só nisso, no começo do filme você tem um punhado de gente esquisita. Um religioso que perdeu a fé porque sua mulher foi cortada no meio, no meio, por uma camionete desgovernada; um asmático chato; um louco com chapéu de papel aumínio e uma menina mimada que não consegue terminar um único copo d’água. Mas tudo tem um propósito, tudo caminha para um ápice. No final do filme, a asma tem uma função, as dezenas de copos espalhados pela casa, cheios pela metade com água pura, também.”, ele entrelaçou os dedos das mãos para ilustrar seu ponto de vista. “Todos os elementos em colisão. É lindo.”
“Pode ser. Mas o filme é um saco.” Beth agora mordia um hambúrguer saboroso. Gordura escorria pelo pão e alcançava os cantos da boca vermelha. Aleph olhava para o companheiro com asco.
“Corpo Fechado é o melhor filme dele.” Disse, talvez justificando para si mesmo. “No fundo, é uma analogia para a filosofia chinesa. O cara é indestrutível, ele tem, como no título, Corpo Fechado. Nunca ficou doente ou se machucou, sua pele é impossível de ser rompida. No outro lado temos o Samuel, incrível no papel, que é a definição última da fragilidade.” Ele tinha as duas mãos esticadas com as palmas para cima, como se estivesse exibindo dois objetos diferentes. “Eles são opostos extremos. No Tao, os opostos são justificativas mútuas de existência. O baixo só existe por causa do que é alto; o quadrado se justifica na diferença com o círculo. Todas as coisas, o fogo, a terra, os pássaros, o sal... a própria vida, poxa, tem um oposto. Você, para jogar um pouco em outras filosofias, se define por tudo aquilo que não é, certo? Por exemplo, você não é inexistente, logo existe. Você não é mortal, por isso estamos aqui. Então sua própria matéria está justificada. O legal é que o Sam, podemos chamá-lo assim, não faz um personagem essencialmente mal por natureza, não senhor. Ele gostava de ler quadrinhos, amava a mãe... qualquer pessoa que passe muito tempo absorvendo conceitos e valores das histórias em quadrinhos enquanto toma leite preparado pela mãe tem de crescer para se tornar numa boa pessoa, anote o que eu digo. Mas ele quebra fácil, literalmente. Seus osso são praticamente feitos de vidro. E ele precisa, talvez para não ficar louco, achar uma explicação para sua condição. Quando ele explode trens e aviões, ele está procurando por algo indestrutível, seu extremo oposto. Quando ele acha o Bruce, um cara bonzinho, o herói da história, ele percebe seu papel de vilão. Veja, ele não é mal, mas precisa ser mal simplesmente porque esse é seu papel! Ele não está apenas achando seu papel em um plano maior: ele está fortalecendo a existência do herói! Essa é a moral do filme.” Ele olhava para Beth com um ar superior enquanto molhava a garganta com mais refrigerante.
“Suas batatas estão esfriando”, respondeu. Nunca continuava as análises de Aleph, flhava em exergar tal necessidade quando ele simplesmente nunca calava a boca. Às vezes queria gritar com ele, perguntar se cada palavra de sua mente era tão importante que ele não poderia, pelo menos uma vez, guardar para seus próprios pensamentos. O pior, e Beth sabia isso há mais de mil anos, era a resposta negativa. As palavras nas mentes dos dois seres sentados nos bancos vermelhos eram importantes e não poderia ficar caladas para sempre. Por fim, Beth puxou a pequena travessa de batatas fritas para seu lado da mesa, espalhou maionese em um dos cantos e começou a comer.
“A Vila pode ser visto como um analogia social, pura e simples. Você é uma leitra de seu quando e seu onde.” Apontou para um adolescente sentado na mesa ao lado. O garoto vestia uma camiseta de banda (com alguns representantes de uma seita diabólica em pleno coito) e calça jeans rasgada em ambos os joelhos. Cabelos compridos caíam sobre os ombros, e era possível escutar a música que saia do fone de ouvido branco. “Ele seria assim se tivesse crescido em outro país ou em outro século? Gostaria, se tivesse nascido daqui vinte ou trinta anos das mesmas bandas ou do mesmo estilo de música?”
“Esse filme tem uma história fraca, é só. Promete muito e não fala nada. Ainda gosto muito mais do...”
“Sexto Sentido, sei, sei”, interrompeu Aleph. “Aliás, acho que é ele, estamos aqui pelo garoto. Vamos?”
Beth olhou para o garoto com explícita dúvida. Decidiu que Aleph estava certo, como sempre, e começou a comer mais rápido. “Deixe...”, engoliu batata e carne mal mastigadas, “deixe-me terminar meu almoço. Dama na Água?”
“Conto de fadas moderno e o Giamatti em um dos papéis de maior carisma em sua carreira. Apesar que gostei dele naquele filme sobre traficantes de almas russos.” Aleph respondeu enquanto colocava a pasta sobre a mesa, acertando as duas senhas que protegiam o conteúdo.
“Fim dos Tempos?”, ele falou com a boca cheia. Era quase impossível entender as palavras.
“Sobre a natureza e a fragilidade da existência humana. Os homens têm esse planeta apenas e deveriam tratá-lo melhor. A ‘macrofísica’ demonstra leis sobre a raridade e preciosidade da existência da vida orgânica. Uma única mudança na trajetória da Terra ou de seu astro e puf, adeus mundo. Pronto?” Beth engoliu com dificuldade o que restava de comida e deu dois socos no peito, encorajando o alimento a continuar em seu caminho natural.
Os dois deuses se levantaram em simultaneidade e caminharam até o jovem vestido com a camiseta pornográfica. Aleph abriu a mala e deixou as histórias se mostrarem. Eles amavam suas criações. Haviam, afinal, presenteado os Fenícios com a mágica das palavras escritas para que pudessem contar histórias mais elaboradas. Na mala, pequenas esferas representavam histórias criadas por eles, mas que poderiam ser contadas de humanos para humanos apenas e os deuses perseguiam indivíduos com grande poder receptivo para suas narrativas. Não sabiam o porquê construíam belas histórias e as presenteavam para a humanidade, mas tinham a certeza de que faziam parte de um plano maior, algo que até mesmo deuses menores, como eles, não conseguiam entender. Cada história tinha uma voz própria e os deuses olharam com orgulho as esferas em cacofonia eterna Beth selecionou quatro esferas brilhantes e as inseriu na cabeça do adolescente, forçando-as gentilmente pela testa. As histórias achariam seu caminho na mente do rapaz e o manipulariam até serem escritas. “Suficiente?”, perguntou.
“Claro. Ele vai pegar gosto pela profissão e vai escrever por conta própria. O importante é ele contar nossas histórias.” Aleph fechou a mala escura.
O garoto nunca notou o que os deuses fizeram. Os quatro primeiros livros que iria escrever dentro de oito anos, fizeram enorme sucesso. Depois deles, a revelação iria experimentar a decadência e, com ela, o abuso de drogas pesadas e várias acusações de violência contra prostituta. Antes de destruir a parte de trás da própria cabeça com um tiro de uma .12 de cano serrado, ele se perguntou de onde tinha tirado as ótimas idéias para os quatro primeiros livros, e por que nunca mais havia criado outro livro bom. Mas essa é outra história.
Satisfeitos, Aleph e Beth saíram pela porta e entraram chamaram um taxi. Segurando a mala, Aleph perguntou: “Quem é o próximo?”
Beth fechou os olhos e se concentrou. “Zack”, disse com uma voz suave. “Na próxima cidade, barman e dono da Jukebox”.
A jukebox, você quer dizer?”
Um carro amarelo encostou no meio fio e os dois entraram pela mesma porta. Beth disse o nome da rua da próxima cidade e o taxista apertou alguns botões na máquina que mostrava o caminho.
“Sim. Será interessante. B-42.” Beth respirou e continuou a falar, com um sorriso sarcástico no rosto. “O Último Mestre do Ar?”
Aleph fechou os olhos em uma expressão de dor. Esse era o ponto fraco de seu argumento. “Não... esse filme é um lixo”.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Café Instantâneo


Nas quintas – feiras, e em nenhum outro dia, venho tomar café nessa padaria. Minha esposa está de folga, portanto, dorme até o almoço. Não me sinto motivado para preparar um desjejum para uma pessoa.

Quando chego, aguardo por volta de cinco minutos para que chegue essa mulher desconhecida. Acompanho-a com o olhar pelo vidro de fora e peço meu café somente quando ela também escolhe. Usa cabelos presos de uma maneira que, mesmo assim, eles caiam tanto na frente quanto atrás dos ombros.

Usa sempre azul. Pode ser sua cor favorita, a roupa tradicional de quinta – feira ou um sistema. Recomendação do horóscopo, da televisão ou de quem quer que seja. Sempre coloca a bolsa na cadeira da frente, fazendo-me deduzir que não espera ninguém, retira o casaco e senta. Uma postura ereta que destaca o alinhamento das costas.

A roupa sem mangas deixa o braço nu. Enquanto ela se movimenta para abrir o jornal na página desejada vejo seus músculos se mexerem. Ela é magra, mais baixa que minha estatura de um metro e oitenta, esguia. Não consigo não ter simpatia por essa mulher.

Apenas trocamos cordialidades. Digo Olá e recebo seu sorriso de volta. Dependendo do dia, é um misto de felicidade e angústia revelada em apenas um gesto. Pedimos nossos cafés e voltamos a contemplar nossos abismos. Deixaria minha vida naquelas mãos em um suspiro.

Sapatilhas vermelhas, jeans nivelado ao corpo e a blusa azul. Os cafés chegam ao mesmo tempo e desejo saúde a ela erguendo minha xícara para o alto. Ela me lembra alguém. Me lembra alguém que já esqueci. A moça do café me lembra de uma memória que parece trazer a tona um pensamento que não me recordo. Uma mensagem dentro de uma garrafa que precisa ser decifrada.

Ela me olha enquanto escrevo essa mensagem. Seus olhos parecem cúmplices do meu como se eu precisasse concordar com o café matinal todas as quintas – feiras. Sim, tudo está tranquilo. Foi um bom café.

Me apaixono por ela todas as quintas pela manhã e a tarde o mundo se equilibra novamente. Ela é apenas uma figura que por algumas horas deixa meu norte um pouco mais para o leste. E, então, na próxima quinta feira ela retorna. A mesma postura, a roupa azul, a cumplicidade de estranhos que tomam seu café em silêncio em uma das cidades mais movimentadas do país.  

segunda-feira, 18 de junho de 2012

de televisão?

- Não. Sou só apresentador. Assim, apresentador, nada de tevê nem de rádio, nem de programa na net, nem nada. Só apresentador.

- Mas, diabos, o que então você apresenta?

- Pessoas, meu bem, pessoas. Eu sou um apresentador de gentes, de gente que não sabe falar pra gente que não sabe ouvir, mas que a despeito disso estariam muito bem juntas. Você ficaria espantado com a quantidade de gente que não sabe se mostrar, e mais espantado com a quantidade de gente que não sabe ver.

- Ouvir.

- Como?

- Ouvir. As pessoas num geral não sabem ver e também não sabem ouvir.

- É. E sabe o motivo?

- Do que?

- De não ouvirem.

- Hm... não. Quer dizer, desculpa, eu estava pensando em outra coisa. O motivo de quê, mesmo?

Israel sorriu. Ele era um apresentador, fazia isso com o pé nas costas.

- Por isso ninguém sabe ouvir, por isso ninguém se apresenta. Pior: por isso ninguém sabe receber quem aparece. Porque todo mundo está pensando em outra coisa, em si mesmo, nos próprios problemas. Na própria apresentação.

- Ah...

- "Ah", é. Foi o que pensei.

Na jukebox alguém coloca uma ficha e aperta dois botões: linha e coluna. B-42. Era um disco antigo, mas por algum motivo a máquina não desceu a agulha no lugar certo. Ficou ali, pendurada, tocando silêncio no Clube por alguns segundos, até que o dono da ficha fez algo que o botaria pra fora do bar - deu um tapa na lateral da jukebox, como se fosse máquina de pinball.

Joshua deu um tapa nele e mandou dali pra fora, mas a ação já fora tomada. A jukebox começou a tocar um disco antigo, mas que não era o da posição B-42. Ficaria pra outro dia, o colapso dos multiversos...