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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Corvos

O sobretudo estava sujo; a barba crescia selvagem até seu pomo de adão, um toque de branco nas pontas dos fios. Ele caminhava, traçando um caminho tortuoso pelas ruas de Londres. Em suas mãos, a mochila com poucos pertences e uma garrafa com dois dedos restantes de rum, alternavam-se constantemente, procurando balancear o peso. Desta forma, ele incrivelmente conseguia alguns metros em linha reta. Poderia atravessar a porra do Canal da Mancha numa corda bamba, pensou pouco antes de se escorar na parede mais próxima.
Um policial se aproximava. O mendigo prontamente ajustou a postura e procurou uma bala que tinha num dos bolsos. Colocou-a na boca alguns segundos - saboreando a menta artificial - para depois voltar o doce para o mesmo bolso. Com o tempo, descobrira que hálito era um importante fator para conversar com os policiais que o abordavam. Por isso, sempre que podia, dava preferência para a vodka. Vodkas não deixavam cheiro e rapidamente alcançavam o grau ideal de torpor. Algo menos do que a quantidade perfeita de bebida para afundar seu cérebro no confortável véu do álcool e ele começava a pensar no que havia deixado para trás. E em corvos. Corvos de todos os tamanhos e - um pesadelo recorrente - um único corvo de três patas.
“Vamos, campeão, circulando”, disse o policial, retirando a tonfa da cintura.
O homem tentou caminhar, mas dá um passo em falso, denunciando a embriaguez. “Só preciso me sentar um pouco, senhor Corvo. Só alguns minutos e estarei bem.”
Fazendo uma careta, o policial continuou: “Corvo? Vocês fodem essa cidade, pelos diabos. Nove da manhã de uma quarta-feira ensolarada e já bêbado. Sabe o quanto é raro um sol desses por aqui? Se você tivesse de enfrentar a cara da minha mulher todas as manhãs, teria desculpa para beber, campeão. Mas assim? É apenas… uma merda. Nada pessoal, no entanto. Apenas fazendo meu trabalho.” Esticou a perna e enxotou o mendigo espalhado pela calçada toda.
“Me deixe em paz, não consigo andar. Vá embora, voe para longe. Não faça como antes, quando estávamos desaparecidos e a mamãe chorava toda a noite, porfavorporfavorporfavor…”, ele começou a chorar e sua voz se tornou mais e mais aguda.
“Ei, ei, ei. Está bem, eu te dou alguns momentos” O policial dobrou as pernas e se sustentou no mesmo muro que o mendigo e ficaram, lado a lado por alguns segundos. “Como você veio parar nas ruas?”, ele perguntou. Se tinha de esperar para removê-lo, pelo menos escutaria uma boa história.
O mendigo tirou a tampa da garrafa e deu um demorado gole e ofereceu para o policial. Ficou surpreso quando a garrafa foi puxada de sua mão e lançada para dentro de uma lixeira ao redor. “Bem, ela já estava seca mesmo.” Passou a língua nos lábios e prosseguiu: “Você não acreditaria na minha história, sou apenas um velho bêbado.” O policial respondeu girando o dedo indicador de uma das mãos: pare de enrolar e conte logo. “Quando eu era pouco mais que um pirralho, eu e meu irmão entramos em um bosque e desaparecemos por alguns dias. Ou semanas, já não me lembro. Acho que éramos em cinco ou seis crianças. Mas apenas eu retornei. Você pode facilmente encontrar essa história nos jornais. Foi uma confusão só. Todos queriam saber onde eu fiquei, o que aconteceu e onde estavam as outras crianças mas… eu simplesmente não sei. Não me lembro do que aconteceu nesse tempo. Ou onde estava o meu irmão, ou os outros. Merda, sequer sei porque fui o único a escapar. Nos próximos anos, psicólogos, drogas, hipnose… todo o procedimento padrão se desenrolou. Na minha cabeça, apenas as asas negras do corvos. Eu sonhava com pássaros negros quase todas as noites e algumas vezes eles falavam comigo, alguns me chamavam de traidor, outros de irmão. O único que não repetia estas palavras era um corvo que parecia ser o líder, um corvo de três patas. Suplicava para que eu entrasse novamente na Bruma. Não uma bruma qualquer, mas uma com B maiúsculo. A Bruma. Loucura, não?” O mendigo passou as mãos nos lábios secos e reclamou: “Você não devia ter jogado meu álcool fora. Foi sacanagem.”
“E depois? Acharam seu irmão?”
“Nunca. A única coisa que acharam no bosque em que nos perdemos - e que não existe mais - foram muitas penas de corvos.” Como se tivessem escutado o que diziam, dois corvos pousaram na calçada, há poucos metros de onde estavam. O policial tentou espantá-los, mas eles continuaram a pular, procurando migalhas no chão. Tentou negar o dedo frio que subia por sua coluna, mas falhou miseravelmente.
“Fugi de casa na primeira oportunidade, desapareci como se nunca houvesse existido naquele teto”, continuou o mendigo. De repente, senti que precisava encontra a tal Bruma, havia uma voz que não a minha em minha cabeça e ela gritava o tempo todo. Vá para o Bosque e entre na Bruma, seu irmão precisa de você! A mesma coisa, todos os dias, todas as horas e em cada maldito minuto. Eu saí de casa, depois da cidade e, no fim das contas, vaguei por todos os cantos do mundo. Em poucos meses gastei tudo que consegui e sobrevivi com o dinheiro de trabalhos menores, virando hambúrgueres, pintando casas ou deixando piscinas limpas para as festas durante o fim de semana. Fiz coisas das quais não me orgulho e vez ou outra flertei com químicos mais pesados que aquele rum ali. Morei na Bolívia, no Egito, nas Coréias e Austrália.” Viu que agora, quase uma dezena de corvos estavam amontoados ao redor.
Uma fina camada de nevoeiro começava a cobrir a rua e o policial olhava para cima, confuso com a névoa que persistia, apesar do sol forte.
“Nunca consegui parar em um só lugar. Algo… essa mesma voz alienígena em minha cabeça, me mandava seguir adiante, procurar pela Bruma. Sentia-me cada vez mais como um pássaro fora do ninho, que voou para longe e se perdeu, um corvo solitário que procura pelas outras partes de uma identidade quebrada.” O mendigo olhava os pássaros, quase como se pudesse entendê-los. O policial estudava seu rosto, tendo a certeza que via pontas negras crescerem dentre a barba hirsuta. Um corvo?, perguntou-se no instante em que foram engolidos por uma névoa pesada e escura, vinda de lugar nenhum.
A névoa subiu rapidamente e logo estava alcançando o segundo andar dos prédios. O policial podia escutar dezenas - ou seriam centenas? - de asas batendo em todos os cantos do mundo, ao que parecia. De repente, a névoa mudou. O policial sentiu um espécie de bolha se formando, englobando toda o centro de Londres. Vozes começaram a surgir e os corvos grasnaram vigorosamente. Sem conseguir acreditar no que acontecia, o policial compreendeu duas palavras dos pássaros: traidor e irmão. O mendigo se levantou e começou a caminhar lentamente, produzindo o som afogado de lágrimas escorrendo para dentro da garganta, concordando com as vozes como se finalmente se lembrara de algo há muito esquecido. Por alguns instantes, ele viu o mendigo como um corvo gigantesco e contou três patas. “Me diga seu nome, posso ajudá-lo a--”
“Nomes são poderosos, agora eu me lembro. Não posso entregá-lo assim, Policial.” O homem-corvo disse a palavra como se fosse o verdadeiro nome do homem que ainda estava agachado na calçada. “Dizer meu nome seria como entregar minha alma, deixá-la em suas mãos. Cráá”, o som saiu de sua garganta, horrível e rouco. “Preciso ir, eles me esperaram o suficiente e os Pesadelos estão cada vez mais fortes. É fácil, como não percebi antes? Só preciso seguir a luz do Farol.”
Tão rápido quanto subiu, a névoa desceu e se extinguiu. O policial se viu sozinho, encostado em um prédio qualquer de Londres, sentindo o uniforme grudado na pele. Tudo se tornou sem sabor e a realidade parecia… menos real. Como se ele estivesse em um dos mundos dentro de um dos Universos. Bem, ele pensou, é um entendimento que desqualifica o Universo enquanto Uni.

Sem o mendigo por perto - ou os corvos, se isso importar, ele fez a única coisa que lhe pareceu plausível: levantou-se e pegou a garrafa de rum. Poucos instantes depois, sua garganta não estava mais seca.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

As Brumas do Farol 12 - Final - "The Rain Song"

Assim para o prefácio, "A Lanterna", todo o Brumas é dedicado para Ana Eliza. Obrigado por tudo.
Link para todas as partes: http://oscarasdoclube.blogspot.com.br/search/label/Brumas


Paul ficou surpreendido com a pele quebradiça do homem que surgira do nada, do puro ar - era um órgão sem vida, translúcida e opaca. Estranho, estranho, estranho. Ele estava magro e o garoto podia contar os ossos distinguíveis, se quisesse. O garoto cogitou entregar um de seus doces para o homem, mas o Guia pareceu ler sua mente e o impediu.
“Você provavelmente iria matá-lo,” disse com uma voz grave, “o corpo dele não está pronto para tanto açúcar, garoto, o açúcar vai parar de vez o organismo deste homem. Vamos, vamos ajudá-lo a se levantar, acho que isso vai chacoalhar a poeira… ao menos um pouco.”
“Eles… eles estão soltos.” O homem barbudo começou a chorar como uma criança. Paul sentiu milhares de facas despedaçarem o seu coração. Era uma visão triste presenciar o estado deplorável do homem, completamente vulnerável e privado de forças; chorava copiosamente. Um choro de culpa. “Os Pe-pe-pesadelos…,” fungou um catarro amarelado que escapava das narinas ressecadas, “os Pesadelos estão soltos e é tudo culpa minha, por quebrar a lanterna. Eu quebrei a lanterna e machuquei o velho.” Lágrimas caíam no chão do Farol e Paul achou que o homem viraria um amontoado de pó depois de perder mais água. “Eles me prenderam e escaparam. Escaparam, vocês entendem? Eu os soltei!”
“Calma, calma. Não há nada que não possamos arrumar,” o Guia mudou a voz para um tom mais calmo. Eles sabiam que o desespero nos olhos do homem desmentiam as palavras calmas, mas o homem pareceu se acalmar de fato. Paul segurou um dos braços magros e o ajudou a sentar, encostado na lanterna do Farol.
O garoto então parou para olhar ao redor. Observou a beleza majestosa do Bosque, as árvores colossais que erguiam os galhos e folhas ao céu azul e límpido; pássaros exóticos mergulhavam entre a vegetação e voltavam com pequenos mamíferos nos bicos, aproveitando o largo campo de visão reconquistado. Havia magia naquele cenário, Paul tinha certeza, algo natural e antigo, enterrado na memória de culturas sem escrita, confundida por mitologia para as outras civilizações. Sentia uma estranha familiaridade, agora que a Bruma estava dissipada, uma nostalgia que tomava conta de seu coração, como se ele fosse parte daquele cenário, tão parecido com os mundos dos livros que lia escondido de seus pais. Duna, Terra Média, Nárnia, a cidade de Tanelorn e a Roda do Tempo… por que sinto que nada disso é apenas literatura? Acho… acho que sou parte do Bosque.
Um barulho cortou seus pensamentos e Paul virou a cabeça. Jimmy e Robert entraram pela pequena porta de metal e andaram até eles, analisando o cenário, alertas por causa da destruição do lugar.
“O Dragão?” Paul e o Guia perguntaram em perfeita sincronia.
“Não será mais um problema,” Robert respondeu. Cortou o passo que dava e desembainhou alguns centímetros da katana presa à sua cintura. “Quem é esse homem?”
“Este homem foi o que causou o caminho de vocês.” Ele achou uma posição mais confortável e enxugou as lágrimas que ainda caíam pela face angular. “O que vocês sabem sobre esse lugar?”
Paul sentou na frente do homem e respodeu: “Não muito. Um velho nos parou na volta da escola e aqui estamos. Tudo que precisávamos fazer era atravessar a Bruma com o Guia e recuperar o Fogo do Farol.” Olhou para a própria barriga. E agora eu sou o Farol, pensou, sentindo um sopro surreal no estômago.
“O velho achou vocês também. Ele é a chave da porta que impede o mundo como conhecemos de vazar para outras realidades, ele mantém cada sala fechada, cada mundo em seu próprio território. Assim as realidades não encostam umas nas outras, ficam em seu devido lugar, evitando catástrofes em escala inimaginável. Ao menos era o que ele fazia até todos nós esquecermos nossos papéis. Eu sou o Guardião… era o Guardião. Seguia meus dias em um trabalho massacrante, entediado e cego para quem era. Até que os sonhos começaram. Todas as noites eu sonhava com uma porta. Os lugares mudavam, quem eu era no sonho também mudava, mas sempre havia uma porta e ele teria de ser aberta. Antes de conseguir, toda santa noite, antes de conseguir abrir a porta, uma luz me tirava do sonho e eu acordava às duas ou três da manhã e não conseguia dormir mais. Isso começou a acumular dentro da minha paciência. As noites mal dormidas, a sensação de que alguém atrás da porta me chamava, clamava por socorro. Eu precisava espiar atrás da porta! Mas o velho com a lanterna na minha cara… eu pensava que ele era meu inimigo, meu obstáculo final… até o dia em que o encontrei no trem. O mesmo velho, vestido com o uniforme de sempre, portando a longa lanterna que me acordava noite após noite. Eu o ataquei e quebrei a lanterna.” Novas lágrimas molhavam suas bochechas. “Naquela noite eu abri a porta e soltei os Pesadelos no mundo.”
Normalmente, Paul desviaria daquele homem, tentando ao máximo ignorar sua existência. Ele podia ver a cena, voltando para casa com a mochila carregada de livros, formando um arco na calçada para ficar fora da área de alcance do bêbado barbudo sentado na calçada. Pelos céus, Paul provavelmente mudaria de calçada apenas para fugir do cheiro de urina. Mas naquele lugar ele era a peça central. “Como você adquiriu o conhecimento?” Quando ficava sério, Paul tendia a ser formal e ele acabava falando de vários modos, mas nunca como uma criança.
“Depois de um tempo no mundo dos Pesadelos tudo voltou em minha mente, claro como um quadro que esteve em uma sala escura esse tempo todo. Eu simplesmente acendi a luz, rapaz. Eu, você… todos nós. Nós somos parte do alicerce de toda a realidade, somos agentes deste universo, se preferir. O Guia tem uma função que apenas ele pode realizar. Ele encontra o caminho, porque seus olhos já viram mais de uma realidade e ele aprendeu a ver além dos obstáculos mundanos; você pode carregar o Fogo do Farol pois mantém a mesma natureza em qualquer realidade. Aquele garoto” - apontou para Jimmy - “é a porta que nos liga às Terra Distantes e o mundo do sonho pode nos levar para qualquer outra passagem. Cada um de nós carrega um papel único. E isso é verdade para cada um dos seres vivos. Tudo está ligado e para girar, o universo precisa de todas as peças. Cada uma delas. Quando uma cessa o movimento, tudo desmorona. E o nosso Escritor parou de escutar a voz, rapazes, ele está deixando nossa memória morrer. Pelo que entendi, e posso estar totalmente - totalmente - errado, o Escritor mantém a mágica fluindo. Nossos papéis são definidos por ele, nossos poderes melhorados por sua escrita e nosso caminho praticamente traçado. O problema é que ele parou de escrever. E um escritor somente pode ser chamado como tal quando escreve. Por isso nossas memórias se enfraqueceram e morreram. O velho tinha a lanterna, um lembrete de sua natureza e assim conservou suas tarefas. Mas eu… eu ignorei meu papel e fiz exatamente aquilo que deveria impedir.” Sua voz estava fraca e ele se cansava apenas por falar. “Quando fiquei preso no mundo dos Pesadelos, percorrendo um mundo escuro e vazio, gélido como uma noite no meio do inverno, eu vi novamente uma luz me guiando. O Farol. Vocês me tiraram de lá. E acho que é nosso dever prender novamente as abominações que libertei. Depois, precisamos fazer o escritor voltar a criar.”
Ficaram em silêncio absoluto. O Farol deveria ser a linha de chegada e significaria o fim da loucura, o fim do Bosque e o retorno para casa.
“Bem,” Robert quebrou o silêncio, “acho que sentiria falta da katana, de qualquer forma. Conte comigo.” Jimmy colocou a mão sobre um dos ombros do samurai, apoiando a decisão e pesando seu voto.
O Guia moveu a arma dentro do coldre. Sentir seu peso o acalmava. “De quantos Pesadelos estamos falando?”
“Eu não sei. Eu vi marinheiros escapando pela abertura que criei, frutos dos navios à deriva, de homens mortos pela inanição terrível quando os ventos pararam de soprar em suas velas; krakens, orcs, dragões, palhaços assassinos… o pesadelo de milhares de crianças… moscas gigantes… uma mulher que conseguia voltar no tempo… Eu realmente não sei quantos ou como encontrá-los.”
“Ou como pará-los.”
“Ou como pará-los,” concordou. “Vamos para as Terras Distantes. Lá poderei me curar mais rapidamente e vamos ter uma noção melhor de onde procurar. Só assim poderei reparar meu erro.”
“Vamos,” Paul concordou. Ele era o Fogo. Não poderia voltar para a Londres cinzenta. O garoto sentia que teria ataques de raiva e enjôos cada vez que olhasse pela janela e encontrasse o nevoeiro da capital inglesa. Não queria mais olhar para o céu escuro. Ele era, afinal, o Fogo do Farol.
O homem que vivia outra vida também não tinha escolha. O grupo precisava de sua habilidade de encontrar caminhos e os levar do ponto A para o ponto B. Ele já não tinha uma casa de verdade… sequer um mundo de verdade. Talvez fosse um caminho para casa. Talvez estivesse preso ao seu próprio pesadelo. Suspirou profundamente e atravessou Jimmy, entrando nas Terras Distantes.
Paul, Robert e o Guardião começaram a seguir o Guia. Apenas John permaneceu parado no lugar. Atagarasu disse que corvos são criaturas solitárias. E o garoto que era um pássaro começou a acreditar nas palavras do Corvo de três patas, uma pata para cada revelação, uma garra afiada para cada verdade que o machucava profundamente. John não iria com o grupo. Corvos eram criaturas solitárias, de fato.
Pela primeira vez, o pássaro pôde sentir os olhos de Jimmy. No Farol restava apenas os dois amigos e no olhar do Corvo um brilho de despedida.
Jimmy assentiu com a cabeça e desapareceu.
O Corvo bateu as asas e deixou o Bosque para trás.

Um sol fraco brilhava no céu, além do topo de algumas árvores. Em algum lugar, latidos de cachorros ecoavam e faziam com que pássaros disparassem rapidamente por todas as direções. Ele moveu os braços, queria acompanhar os animais que voavam livremente. Por todo seu corpo, pontos de dor explodiam com o mais simples dos movimentos. Palavras. As vozes que ouvia estavam longe a apenas um leve toque das palavras chegavam até ele, fracas o suficiente para não ter sentido. Uma luz atingiu seu rosto e ele esperou acordar de um pesadelo, coberto de suor no conforte de sua cama. Ficou desnorteado quando o mundo continuou e o tempo prosseguiu. Por que não acordei?
Por que o mundo continuava?
Logo outra voz se juntou à primeira. E mais uma. E mais uma. Em poucos minutos, o garoto estava cercado por homens e mulheres de jaleco amarelo, dois cachorros farejavam e latiam para ele. Uma maca e algumas dezenas de jornalistas depois, ele estava em uma ambulância.
Era notícia mundial. Dos quatro garotos desaparecidos no bosque, apenas um retornou para casa. Um dos irmãos, a mídia mundial ressaltou. Encontrado deitado em uma vala, perto da entrada de uma caverna nunca antes notada, ele estava desnutrido e semi-consciente. Mais notícias depois do intervalo.
Não lembrava de muita coisa, não sabia como havia entrado ou saído da caverna, ou onde os outros estavam. Sua história foi o mistério do ano e bateria após bateria de interrogatórios e sessões psiquiátricas, nada mais foi revelado. Ele foi alvo de filmes, músicas, investigações profissionais e três médiuns que diziam ter sonhado com corvos.
Mas ele simplesmente não tinha memórias do que acontecera. Mal lembrava do próprio irmão, como poderia se lembrar de outras duas crianças desconhecidas?
Todos o chamavam de Alice, pois entrara no buraco do coelho. Britânicos têm um humor estranho. Ele, no entanto, gostava de se chamar de Bilbo. Lá e de volta outra vez. Mesmo sem saber exatamente onde ou o porquê. Ele fora e voltara. Missão feita, olhar para o futuro.
A história ganhou pó; o quarto de seu irmão foi desmontado e seus pais nunca mais tocaram no assunto. A mídia se cansou do garoto e os microfones se viraram para o próximo adolescente drogado que atirou em um casal de idosos para roubar dez libras. Ele cresceu. Aprendeu na escola e arrumou brigas, namoradas. Usou drogas e roubou carros; depois, conseguiu um diploma e vestiu um terno, seguiu o caminho dos justos, costumava dizer. Por toda a vida, manteve duas paixões: a primeira eram os pássaros. Ele tinha cartazes colados em todos os cômodos da casa e o predileto, um cartaz originado d’Os Pássaros, de Hitchcock, em um quadro acima da cabeceira de sua cama. A segunda paixão era a música. Ele tinha qualquer coisa que havia encontrado sobre o Led Zeppelin. Algo na voz de Robert Plant e na guitarra de Jimmy Page construía uma magia absurda, que rodava no conforto do baixo de John Paul Jones.
Sentia-se, entretanto, isolado do resto do mundo. Parte sua, ele sabia sem saber o quanto, estava em outro lugar. Talvez em outros mundos, pensava com um sorriso no canto da boca. Uma sombra em seu peito dizia que não estava onde deveria estar e corvos se juntavam em grandes círculos toda vez que ele permanecia muito tempo em um mesmo lugar. Passava as noites acordado, olhando a chuva caindo sobre a grama fresca, escutando a música das florestas, escutando seu chamado. O mundo continuou e ele queria descobrir porque.
Até que os sonhos vieram, anos mais tarde. Sempre corvos. Sonhava com os pássaros negros todas as noites. Eles grasnavam algo importante, mas não podia entender aquela língua e, em fúria, os animais atacavam seu rosto, arrancando olhos, nariz e lábios. Noite após noite após noite, um Prometeu moderno.
Os sonhos se transformaram em pesadelos.
E o menino, agora um homem, voltou a ser corvo.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

As Brumas do Farol 11 - Espada e Pólvora


Robert viu o corpo do Dragão cruzando a Bruma apenas alguns palmos de seu nariz. Ele cortou, rápido e limpo e assistiu a névoa formando pequenos espirais ao redor da lâmina de sua espada. Ele era muito rápido e, até agora, todos os golpes erraram o seu destino. Os dedos do samurai estavam brancos pelo aperto firme que ele fazia no punho da arma, podia sentir a tensão dos outros se acumulando, como a pressão do vapor se acumula em uma panela de pressão com a válvula quebrada. O Guia disparava com sua pistola, mas seus esforços não trouxeram resultado. Robert, na verdade, estava feliz. Armas de fogo eram para covardes, ficou surpreso ao descobrir a opinião. Parte de sua mente - a mesma parte que teimava em viver além das barreiras do momento - tentava localizar o momento em que deixara de ser o garoto que aturava os garotos imbecis na escola, cheios de ranho no nariz e malícia nas palavras; palavrões, arrotos e gestos obscenos: esse era o cotidiano de Robert. Se voltar para Londres, vou conseguir conviver com isso novamente?
John pousou no ombro do Guia e o encarou com os olhos em pleno desespero. Algo dentro dele dizia que estavam perdendo a janela de tempo que tinham e que logo tudo teria sido em vão… mesmo sem saber o motivo de estarem na busca sem sentido, o Corvo não queria esperar para descobrir as conseqüências potencialmente desastrosas. “Ok, vamos”, o Guia concordou. “Eu, gorducho, vamos!”
“Oh, vá para o inferno,” Paul soltou entre os dentes. “Não podemos esperar?”
“Diga isso ao corvo, ele está desesperado. Vamos logo, acho que precisamos ter pressa.”
Pense, pense! Paul estava com os olhos firmemente fechados, o cérebro rodando em sua capacidade máxima. Há um maneira. Jimmy! Jimmy! - olhou em volta e viu que o amigo estava se aproximando: ele havia escutado seu apelo; ao seu redor, Robert disparava cortes e estocadas, errando por poucos milímetros a besta que tentava destruí-los - Jimmy, eu sei o que fazer. Paul explicou então como pretendia ajudar o samurai contra o Homem da Bruma e fez Jimmy entender que aquele era o único modo de realmente auxiliar Robert. “Vamos logo então,” disse antes de disparar em perseguição ao Guia.
Aos poucos, o Farol ganhou contornos, um maciço corpo que se erguia em direção aos céus. Estava erguido, Paul estimou, por quilômetros e quilômetros e em seu topo ele podia distinguir o vidro de onde uma luz deveria estar guiando as pobres almas perdidas. Quando chegaram nas pedras que sustentavam a construção, John encontrou uma porta escondida por alguns galhos secos. Eles entraram em um corredor escuro e frio, o barulho de ratos ecoavam entre os degraus. Dentro do Farol as escadas se multiplicavam e eles se encontraram em um salão gigantesco, diferente da coluna que havia visto de fora. Uma escada levava para uma plataforma, de onde três outras escadas se erguiam; estas, levavam para outras três e cada uma se mesclava com as outras, girando em ângulos impossíveis, tornando-se espirais e atravessando escadas acima e ao lado. Um labirinto vertical os aguardava.
“O que faremos?”
“Acho que sei o caminho. Corvo, não saia de meu ombro.” O Guia apontou para um fino barbante que cruzava um dos degraus. “Cuidado, Paul, temos armadilhas em todos os lugares. Siga os meus passos e pise somente onde eu pisar.”
O homem saltou diretamente para o terceiro degrau da primeira escada e deu um novo pulo, chegando na plataforma. “Consegue saltar?”
“Estou um pouco acima do peso, não sou um elefante.”
“Eu não quis dizer que você é gor-”
“Elefantes são os únicos animais que não podem pular. Cristo!” Aquele homem conseguia quebrar a calma de Paul. O garoto não entendia o porquê, apenas sabia que ele tinha algo nele que o irritava profundamente, algo estava errado naquele homem e a única opção era confiar - de forma um tanto cega - em sua liderança.
Subiram escadas, pularam degraus e tentaram não olhar para cima ou para baixo. Parado no ombro do Guia, John apenas observava a estranha física do Farol, tentando imaginar o que encontrariam em seu topo.
Depois de algum tempo, os dois transpiravam e tinham a respiração pesada. “Va- vamos parar um pouco,” Paul quase sufocava com cada palavra.
“Não,” ele respondeu com uma golfada de ar. “Estamos quase no topo e temos de tentar voltar para os outros.” Passou uma manga na testa e xingou quando o suor alcançou seus olhos. “Escute garoto, como vocês vieram parar nesse lugar?”
Paul contou em poucas palavras sobre o velho e como cruzaram a entrada para um bosque perto do metrô de Londres e como mágica, estavam em uma trilha, cada garoto com uma forma diferente. Achava difícil acreditar na própria história e tentou imaginar o que se passava na cabeça do homem que conhecia como Guia. “Como… como você consegue encontrar o caminho?”
“Eu não sei,” respondeu sinceramente. “Acho que é porque eu não costumo parar em barreiras que normalmente parariam as pessoas.” Paul não sabia o que aquilo significava, mas era uma resposta aceitável. “Vamos poupar nosso fôlego e chegar logo no maldito topo.”

Jimmy tentou conjurar os ventos de antes, mas estava muito fraco e abrir uma janela para as Terras Distantes naquele momento seria um suicídio. Sabia que provavelmente seria um portal para a terra dos sonhos para sempre, sem conseguir controlar o fluxo de saída e entrada, uma hipótese que fazia com que a Bruma fosse uma brincadeira para relaxar os nervos. Ele seria o novo rei daquele lugar, terrível e implacável, fingindo controle sobre seu poder até o dia em que um pesadelo cruzasse o portal. Este seria o seu fim de indescritível horror. A saída de Paul era a única possível.
O Dragão avançava contra o samurai - garras, dentes e fogo - e formava arcos com a cauda, fazendo um barulho intimidante, rugindo com ira. Sua força era bestial e os ataques, devastadores. A trilha que seguiam era praticamente um amontoado de terra revirada, árvores queimadas e buracos prolongados por alguns metros. Robert sangrava em diversos pontos e um corte na testa derramava o líquido vermelho sobre seus olhos, atrapalhando a pouca visão que tinha dentro da Bruma. Um rápido movimento para a esquerda e a katana parou um golpe, fazendo com que a força do monstro o jogasse para o lado, deixando dois rastros na terra revirada. Mais um movimento e ele se defendeu contra os dentes afiados, causando pequenos ferimentos na boca draconiana. No terceiro golpe consecutivo, Robert foi lento e as garras cortantes foram enterradas em seu estômago. O samurai fincou a lâmina na terra e caiu de joelhos. Sentia as forças escapando de seu corpo, jorrando ao lado do sangue.
Rodeando o inimigo acuado, o Dragão soltava um riso gutural e sinistro. “Ninguém rouba minha ponte e sai livre,” ele disse, “ninguém!” De repente, uma pedra bateu contra a lateral de sua cabeça, errando um dos olhos amarelados por apenas um centímetro. Ele virou a cabeça rapidamente e cerrou os olhos em Jimmy. “Você! Você escapou por duas vezes, garoto, mas agora eu vou ter seu nome, vou arrancar as palavras da sua boca moribunda e me divertir para sempre te torturando.” O corpo alongado se esticou na direção de Jimmy. “Onde vocês o enterraram? Ainda sinto o gosto do sangue daquele homem.” Um novo sorriso escapou da garganta monstruosa.
Ande logo, Paul! Maldição. Jimmy sentiu os limites de seu corpo se expandirem e se esforçou para controlar a realidade ao seu redor. Não seria bom deixar os sonhos quebrarem as barreiras entre os dois mundos, Jimmy não sabia quais seriam as consequências. Talvez fosse como uma barragem rompendo, espalhando destruição e morte na área atingida. Não, ele deveria se controlar. Uma dúvida tomava seu coração, perguntado se conseguiria manter as forças depois de ser atacado pelo Dragão. Vamos Paul!

Paul olhou para baixo, quase tropeçando em um degrau quando parou o movimento pela metade. John pulou, com cuidado, dos ombros do Guia e pousou no garoto. O que foi?, perguntou com os olhos.
“Acho que escutei meu nome. Provavelmente não foi nada. Vamos prosseguir.”
Mais alguns passos e eles escutaram o Guia abrindo uma pequena porta de metal, rangendo o ferro antigo. O topo do farol era exatamente como ele imaginava: um salão de vidro quase vazio, exceto pelo centro, onde um uma lamparina descansava, imóvel. Uma pequena chama queimava, trêmula ao sabor do vento e quase extinta, tão fraca que mal iluminava a lamparina. “E agora?” As palavras do Guia saíram baixas, como se sua voz pudesse apagar o fogo.
“Eu não sei,” Paul respondeu no mesmo tom, com medo até mesmo de respirar, “acho que tenho de pegar o fogo?” A frase se transformou em uma pergunta no meio do caminho. E agora?
Quando Paul andou na direção do fogo, ele escutou um forte estrondo em um dos vidros. Os três, coração na boca, olharam para fora e o que viram quase fez com que eles perdessem as forças nas pernas. Uma mulher, ou algo parecido, tentava estourar a larga janela que protegia o fogo do vento que gritava na noite cinza da Bruma. Ela estava nua e tinha um rosto largo, com protuberâncias na testa, como se camadas de chifres estivessem acumuladas no topo de sua cabeça, formando uma coroa diabólica. Duas asas descansavam em sua costas, pontiagudas e finas, com aparência de couro curtido, como asas de morcegos. Ela gritava o berro desesperado de uma banshee, estridente; letal. Outras três mulheres se aproximavam do mesmo vidro e Paul podia distinguir mais sombras voando dentro da Bruma. Pela primeira vez, o garoto notou que dentro do Farol não havia névoa. “Quantas mais?”
“Sete… oito.” O Guia tinha a pequena pistola em sua mão e Paul duvidou se ele conseguiria causar algum dano naquelas criaturas malignas. Ele se lembrava das figuras que vira nos livros de RPG, demônios com aparência de mulheres, provocando uma estranha luxúria mortal. O que via trazia o nome de hárpia, mas elas eram de alguma forma piores, mais monstruosas.
Elas batiam contra o vidro e um deles já estava rachado.
“Vá, Paul, vá agora, faça o que você tem de fazer!”
No momento em que o Guia soltou a última palavra, os demônios conseguiram quebrar o vidro do Farol e tudo aconteceu muito rápido, acabando em questão de segundos. A primeira coisa que Paul notou quando iniciou a corrida mais importante de toda sua vida, foi que o vidro voava com uma velocidade incrível, deixando o vento forte entrar no topo do Farol, abrindo espaço para as criaturas aladas e a Bruma desgraçada se arrastarem para dentro do lugar. O Guia, um homem que fazia parte de mais de um mundo, disparou contra a primeira das mulheres que voavam para dentro do Farol, acertando-a entre os olhos. Um disparo ensurdecedor tomou conta do lugar e sua arma brilhou por um breve momento. A cabeça do demônio explodiu em incontáveis fragmentos, espalhando cérebro, ossos, cabelo e sangue nas duas janelas ao redor. John abriu as asas e se jogou contra outra mulher e enterrou seu bico em um dos olhos. Ela gritou de dor, estourando outro vidro, e perdeu o controle de seu vôo, quase acertando Paul por um acaso. A arma de Jonhatan disparou mais duas vezes e outra mulher caiu morta, despencando do parapeito externo do topo do Farol.
O coração de Paul ameaçou pular para fora de sua boca uma vez mais quando ele viu o fogo da lanterna quase apagar por causa do caos que havia tomado conta do Farol. A pequena chama tremeu por um segundo e se jogou para um dos lados, depois para o outro e, por fim, diminuiu até ser pouco mais do que um fósforo que se apagava. Paul pulou sobre a lanterna de vidro e encostou no Fogo.
Do outro lado do Bosque, no mundo real, Paul tinha outro nome. Ele era um garoto normal, gostava de ler e de comer doces. Normalmente, ficava longe dos esportes, inventando mentiras e desculpas para conseguir fugir às partidas de futebol de sua escola. Arsenal, Manchester… ele simplesmente não se importava com os jogadores e a emoção de tocar uma bola de couro com os pés. Sua mente descansava quando estava mergulhada em algum livro. E, pelos céus, como ele lia! Os livros se acumulavam em pilhas depois de lido, rodeando todo o quarto que dividia com a irmã mais nova e dificultando a passagem e limpeza do cômodo. Em todos os livros, em algum momento da trama, o pequeno leitor assíduo lia sobre a calma que antecedia a tempestade. Era sempre uma tempestade alegórica, mas uma calma real. O que Paul sentia naquele momento, era parecido, mas completamente diferente em sua natureza. Ele experimentava a calma depois da tempestade. Foi um momento de paz interior, quando tudo estava feito e todos os passos da parte mais difícil da jornada estavam para trás. O mundo ao seu redor ainda explodia em pedaços de vidro e projéteis mágicos, mas ele tinha conseguido. A Bruma estava vencida.
A calma durou pouco.
Uma forte luz tomou conta de todo o Bosque e matou, quase instantaneamente, a Bruma. Não houve gritos de raiva ou dor; apenas o cessar, sutil, de um barulho de estática. Um zumbido agudo que incomodava constantemente, mas era facilmente esquecido. As hárpias se desintegraram e o vento parou de soprar. John pousou no chão, o gosto de sangue demoníaco ainda em seu bico e o Guia parou de disparar, guardando a arma em seu coldre.
Paul olhou para eles. O garoto brilhava e feixes de luz rodeavam seu corpo. Como faria um Farol.

Jimmy parou na frente do Dragão, sem se mover. Não tinha a intenção de desviar do ataque, mas no último momento, descobriu uma falha no plano de Paul. Um samurai precisa viver no momento, ele havia dito, mas Robert não está totalmente na batalha. Você precisa se colocar em perigo, Jimmy, provoque o Dragão e não desvie do ataque. Provoque o momento em Robert. Uma falha apenas. Robert deveria ver o que estava acontecendo, certo? Mas ele estava longe do samurai e a Bruma impedia contato visual.
No último instante, ele deitou no chão e rolou, escapando incólume de três fortes patadas do Dragão. Golpe após golpe, a besta ganhava terreno e Jimmy sabia que estaria em sérios problemas dentro de poucos segundos. Jimmy saltou para a esquerda e, pela primeira vez em muitos quilômetros, colocou os pés no chão, o que foi um erro. Ele torceu o tornozelo onírico em um buraco feito pela batalha e caiu sentado, vulnerável.
Como um verdadeiro deus ex machina, uma forte luz explodiu em algum lugar perto e a Bruma desapareceu repentinamente. Os três, Jimmy, Rober e o Dragão pararam por alguns segundos, tentando entender o que acontecia, lutando para se acostumar a novamente enxergar o mundo mais do que alguns palmos à frente do próprio nariz. Havia cor novamente e eles podiam ver por muitos e muitos metros.
Robert viu, com um aperto na garganta, a boca aberta do Dragão, quase forçando um abraço dilacerante sobre Jimmy. Naquele instante, Robert alcançou o momento. O tempo parou e tudo ficou claro. Ele se colocou de pé e empunhou a espada. Em um segundo ele estava parado, no próximo encontrava-se do outro lado do Dragão, sangue pingando da lâmina afiada.
A cabeça do monstro caiu entre ele e Jimmy. Era uma cabeça humana.
Jimmy olhou para o rosto contorcido do velho e sussurrou o próprio nome.

Paul não sentia apenas um calor confortável percorrendo seu corpo. As luzes giravam até onde podiam ver, cruzando horizontes incontáveis, iluminando o mundo que antes era escuro e perigoso. Havia segurança naquela luz. Sentia-se protegido.
Um homem apareceu ao seu lado, da mesma forma que eles faziam ao cruzar para as Terras Distantes. Ele despencou contra o chão do Farol, inconsciente. Uma barba hirsuta tomava conta do rosto magro e seus olhos pareciam sustentar sua pele, um esqueleto que vestira um casaco humano. Ele abriu os olhos - olhos lunáticos - e engoliu uma longa golfada de ar.
“A lanterna!” Gritou enquanto agarrava os braços de Paul. “Não quebrem a Lanterna do velho!”
Joshua abraçou o garoto e começou a chorar.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

As Brumas do Farol 10 - O Guia (III)


Paul logo percebeu o que tinha de fazer. Estava exatamente a meio caminho entre Jimmy e Robert. Escutava o tilintar agudo das lâminas se chocando e podia sentir a urgência em ajudar o samurai. Mas o homem da televisão, aquele que o lembrou das palavras cortantes de seu pai, o fez correr de volta para o pequeno grupo que surgira praticamente do nada. “Jimmy, ajude-o!”, girtou enquanto corria para ele, erguendo um dos braços roliços na direção da luta. Ele se levantou e rapidamente flutuou em ajuda do amigo. Paul sentia as pernas tremerem, recebendo com prazer o alívio que se instalava em sua mente. O que eu estava fazendo, pelos céus. Medidas desesperadas, era o que sua mãe sempre dizia quando era internada com aguda desnutrição por causa dos regimes rígidos que seguia. Linda, com o corpo que a maioria de suas amigas invejavam, ela não conseguia apreciar o que via no espelho. Enxergava um corpo doentio, via faixas de gorduras penduradas pelas laterais, por toda sua costas. Medidas desesperadas. Essa era a desculpa usada, toda santa vez. Medidas desesperadas.
Chegou até John e estudou o homem que estava com eles, lembrando imediatamente dos filmes preto e branco que seu pai assistia, quase em coma alcoólico, durante as madrugadas. Tentava ignorar os absurdos balbuciados pelo bêbado no sofá de sua casa, o que não era um problema assim tão sério, já que antes da metade do filme ele estava roncando de boca aberta. Algumas vezes, e isso ele aprendera nos mesmos filmes que assistia escondido de sua mãe, perguntava-se o que faria se ele começasse a se afogar no próprio vômito. Paul duvidava se iria se mover para ajudar aquele homem. Provavelmente iria continuar a assistir O Falcão Maltês até o final e iria para cama feliz pela derrota dos nazistas, sem se importar com o bêbado morto na sala de casa. Não, concentre-se Paul. O homem vestia uma sobretudo longo, de um bege desgastado e sujo. Ele cheirava à urina, vômito, whisky e cigarro e tinha o que parecia ser uma seringa espetada na sola de um dos sapatos. E um fedora, claro. Um homem como aquele teria um fedora.
O ombro direito do homem estava dilacerado e sangrava em grossas torrentes, jorrando pelo sangue. Paul estava surpreso dele ainda estar vivo. “O que aconteceu?”
John inclinou a cabeça em um ângulo estranho e o encarou com olhos escuros como a noite. O medo que ele viu naqueles olhos anteriormente astutos o perturbou profundamente. “Dragão!”, exclamou o Corvo, em um só grasnar. Paul o encarou, choque no olhar. Tudo muito simples. Para curar uma mordida de dragão, aplique alcaçuz na área dilacerada e tudo estará bem novamente. A idéia quase provocou gargalhadas, mas ele conseguiu se controlar no último instante. Hesitante, tirou uma barra de alcaçuz do bolso e a estudou. Naquele mundo bizarro, parecia que os doces eram substituídos ao passar do dia, renovando seu estoque conforme ele os consumia. Por vária vezes, nas noites em que não conseguiam encontrar frutas ou pequeno animais que não pareciam ter veneno, comiam apenas os doces, sentindo-se estranhamente satisfeitos e fortalecidos. Paul sabia que não eram doces normais, mas ainda faltava o conhecimento de suas propriedades e seus limites. Por enquanto eram a melhor idéia. O Guia se esforçava para segurar os gemidos de dor e logo estaria morto. Podemos realmente morrer aqui, nesta terra que parece um sonho? Paul não estava disposto a pagar o preço para alimentar a curiosidade; sem o guia, estariam eternamente perdidos dentro da Bruma.
Colocou o doce na boca do homem e o fez mastigar enquanto grudou os olhos na feia mordida, forçando-o mordida após mordida.
Esperou e esperou.

Jimmy se guiou pelos sons, imaginando o que aconteceria, caso fosse estocado por uma das lâminas. O som aumentava, conforme ele se aproximava da batalha em andamento. Ele podia escutar os passos de Robert e do Homem da Bruma, atacando e defendendo letalmente. Cada golpe poderia ser o último e o resultado não era certo: o golpe seria de um lado ou de outro, mas Jimmy não podia enxergar de quem seria, o que era por demais irritante. Uma idéia brotou em sua mente, como se estivesse no ar, apenas esperando para ser captada por alguém. Fechou os olhos em sua mente - seu corpo já não tinha mais olhos - e quando abriu, estava novamente nas Terras Distantes. No céu esverdeado, duas gigantescas espadas duelavam entre nuvens, provocando terríveis trovões a cada beijo entre as lâminas. Jimmy, um garoto de doze anos, ergue os braços e duas montanhas de pura prata se desmancharam um incontáveis barras, derramando um rio de prata sobre um lago de petróleo borbulhante. Aquele mundo era sensível e vivia sobre regras próprias, cujo entendimento escapava de qualquer um e ser tratado daquele modo provocava um fúria desconhecida. Jimmy notou que suas mãos estavam suadas. Com um movimento das mãos, abriu vales, cortou florestas e secou rios; em seguida, criou espécies e civilizações, despedaçou o próprio céu e fez chover lava. As Terras Distantes tremiam em convulsão, somando uma ira que nunca antes fora vista e Jimmy podia sentir toda sua força em ebulição.
De repente ele sentiu o ar estagnando ao seu redor. Fechou os olhos - desta vez físicos - e voltou para o corpo sem face.
Um vento, violento e selvagem, soprou de Jimmy, explodindo com a força capaz de existir apenas nas Terras Distantes, limpando a Bruma por um tempo e lançando tudo que encontrava em seu caminho. Jimmy viu o samurai se segurando uma planta, viu com perfeição uma de suas mãos presas em um caule cheio de espinhos, com milhares de dentes procurando dilacerar sua carne e envenenar as veias que corriam quente pelo braço forte. Jimmy teria sorriso se tivesse uma boca quando Robert estocou a planta com sua katana, lutando contra a dor e o vento alienígena que era derramado sobre ele. Mas o verdadeiro sorriso, sádico e cheio de uma perigosa satisfação, surgiu quando ele viu o rosto do Homem das Brumas. O inimigo vestia um kimono parecido com o de Roberto, mas portava uma lâmina três vezes mais larga e um pouco maior em seu comprimento. Havia insanidade em seus olhos azuis, olhos que Jimmy conhecia muito bem.
“O nome dele é James Powers e ele é o machão de minha escola”, Robert escutou claramente quando a ventania parou. Ele viu, pela primeira vez, o seu inimigo e sorriu. O Homem da Bruma já preparava um primeiro golpe para retomar a luta, mas agora ele parecia um garoto fraco. Uma criança, exatamente como eles. Robert havia alcançado o momento com uma pequena ajuda de Jimmy.
“James Powers, não se mova!” Os olhos do Homem arregalaram até quase caírem das órbitas e ele travou em pleno ar, pernas afastadas em uma corrida rápida, braços acima da cabeça, segurando a espada com um punho firme. O golpe fatal de uma estátua. “Não se atreva a mover um músculo, James Powers. Um fio de cabelo sai do lugar e… seu coração explode.” Robert não sabia até onde podia abusar da mágica de um nome, mas achou que valia o risco. “As Brumas serão sua prisão, não mais o seu domínio. Eu venci. Nós vencemos…”
John, Paul e o Guia se aproximaram, o Corvo parou em seu ombro ferido, estudando o sangue que pingava de seu braço.
“Como… como você descobriu o nome dele?” Paul pegava uma bala de alcaçuz e entregava para o samurai.
“Jimmy me contou. Parece que eles se conheciam.”
Todos olhavam para o garoto parado no ar. Uma atmosfera mais leve começou a se formar entre eles e Robert se deixou descansar pela primeira vez em muito tempo. Achou que se não fosse o doce de Paul, estaria deitado no chão, inconsciente. Perguntou, por fim: “este é o Guia?”
“Sim”, Jonhatan respondeu. “Meu nome é… Guia.”
“Você consegue nos tirar daqui?”, Paul perguntou. A Bruma já avançava ao redor e logo estaria sobre eles. O garoto aproveitou para procurar por algum tipo de caminho ou direção, mas atrás da Bruma, havia apenas mais da mesma névoa asquerosa.
Jonhatan olhou ao redor. O caminho não poderia ser mais direto, pensou consigo mesmo. “Sim”, apontou para a trilha, “vocês não conseguem enxergar esse… caminho de tijolos amarelos?”
“Não, essa névoa atrapalha.”
“Névoa?”
Paul viu o olhar cheio de perguntas de Robert no último momento, antes que o cinza tomasse novamente o mundo. “Seus olhos… você não vê essa Bruma?”
“Eu… sinto alguma coisa do meu lado, mas não, não vejo nada de errado. Vocês têm de chegar em um farol, certo? Foi o que me disse antes do dragão nos atacar.” Estou louco, Deus! Porra!
Paul e Robert confirmaram ao mesmo tempo e Jonhatan começou a caminha para o Farol. “Meia hora de caminhada e estaremos lá”, prometeu. "Vamos logo, se temos de alcançar o Farol, de nada adianta ficarmos aqui."
Poderia ser tão fácil assim? Estavam perto esse tempo todo e mesmo assim presos dentro da Bruma? Paul sentiu o sangue subir para sua cabeça um calor tomou conta de seu rosto. Garotos perdidos, nada mais do que garotos perdidos.
“Como posso chamá-los?”
“Eu sou Paul. Jimmy e John você já conhece e o samurai é chamado de Robert.”
Jonhatan parou. “Jimmy, Robert, Paul e John?” Paul não entendeu, mas o Guia continuou na trilha por um tempo, gargalhando a cada passo. “Aliás, obrigado pelo meu braço, ele está be-”
As palavras do Guia foram cortadas por um grito agudo, carregado de dor e medo. Jimmy caiu de joelhos na terra dura e colocou as duas mãos no peito. “Eu… eu não consigo mais segurá-lo… o vento me deixou fraco…” Um brilho, como uma lâmpada que morre após brilhar tudo o que podia em um único segundo, e o Dragão escapou das Terras Distantes, de volta para o Bosque e mais furioso do que nunca.
Paul sabia que ele não iria querer apenas a ponte de volta.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

As Brumas do Farol 9 - O Guia (II)


Quando você está fora do seu habitat natural, seus instintos ficam mais aguçados. Não importa se você vive nas montanhas e caça a própria comida ou se é um japonês gordo e cheio de sebo no cabelo, que não sai do quarto há mais de cinco anos; fora de sua zona de conforto, você está pronto para lutar. Isso se chama instinto e faz parte de cada ser vivo. É bem verdade que ele pode estar adormecido ou soterrado por baixo de uma vida entediante, vivida dentro de um cubículo onde você deveria fazer a contabilidade para um corporação que sequer reconhece sua existência. E isso, eu diria, se chama falta de colhões, mas não temos tempo para isso. Eu achava que depois de um tempo em um lugar hostil o corpo reconheceria que não haveria perigo e o instinto falaria mais alto - a adrenalina baixa, as pupilas se dilatam e o suor seco nas palmas das mãos - mas não foi o que aconteceu. Depois de quase uma ano nessa Londres, a Londres deles, a minha prontidão ainda está afiada e meus nervos em frangalhos. Sempre que estou em algum serviço ou chegando em minha casa, conspirações absurdas tomam conta de minha mente, teorias fora da realidade e que fariam rir o mais demente contador de histórias. Bom, talvez eu seja o mais demente contador de história; não iria me surpreender se eu narrasse a minha própria morte e acordasse babando em uma parede almofadada.
Mas, ei, eu não morro, certo? Afinal, estou contando essa história, então você pode, pelo menos, contar com a mínima integridade física de seu protagonista.
Quando vejo carros, pretos e gigantescos, daquele tipo que você olha e tenta estimar o consumo ridículo de combustível daquela besta de quatro rodas, sinto meu coração palpitar e aguardo as armas aparecerem e os projéteis disparados em minha direção.
O estranho é que nada disso acontece. O que é pior, de certa forma.
Estou condenado a viver ao lado de uma esposa que me ama e de uma filha que tem a mais pura admiração à sua figura paterna. A casa é confortável e sempre na temperatura ideal; do jardim, apanho as frutas mais suculentas que já experimente. É um terreno em que quase posso sentir o calor do sol e isso é muito especial, se você considerar que estou em Londres. Vivo a vida do outro eu, aprisionado em meu mundo, minha realidade.
Todos os dias, quando finalmente relaxo e percebo que eles não virão, sinto nojo de meus atos, um gosto amargo que tenho de lavar com whisky.
Por isso eu me abrigo nas sombras de Londres, lidando com o pior tipo de escória que povoam as páginas dos livros baratos nas estantes das bancas de jornal: traficantes, psicopatas, pedófilos… gente com perversão cujo nome não sei apontar. Falar com prostitutas cheias de heroína no sangue é o ponto alto do meu dia, na maior parte das vezes. Um estilo de vida saudável. O interessante nessa história, e é aqui que paro de divagar e inicio minha narrativa de verdade, é que as sombras de Londres guardavam algo muito pior para mim. Quando seus monstros vivem nos cantos escuros de sua casa, você deixa a luz acessa, foi a minha lição.
Entre em um beco e senti, logo no meu primeiro passo, o cheiro de mijo impregnando em minhas narinas e na minha roupa. No quinto passo, uma seringa usada se espatifou sob o peso de minhas botas. Grossa, uma névoa tomava conta do lugar e eu mal conseguia ver meu próprio corpo. Perguntei-me por quanto tempo ainda iria ficar brincando de detetive naquelas condições miseráveis até um viciado enfiar uma faca em minhas costas. Avancei um pouco mais para dentro do beco e contive todos meus movimentos - pelos céus, eu parei de respirar! - quando escutei o barulho abafado de asas batendo. Olhei para cima, mas não poderia dizer se havia algum pássaro por perto e tentei me lembrar se a neblina estivera forte daquele modo quando eu ainda estava em meu carro. A resposta era provavelmente uma negativa. O barulho se tornou mais alto e rápido, enquanto comecei a sentir uma forte vendo de minha costas. Um corvo, aparentemente vindo do nada, pousou em meu ombro esquerdo e abriu o bico negro: “você precisa vir comigo”, disse com naturalidade. Os pensamentos mais clichês cruzaram a minha mente. É claro que pensei estar morto, dormindo ou drogado. “Você está vivo, Guia. E acordado… ao menos ainda está acordado”, ele disse como se tivesse lido meus pensamentos. “Siga por esse turno, não temos muito tempo, Robert está em perigo.” Eu não sabia quem era Robert ou a natureza de seu risco, mas quando um pássaro pousa em seus ombros e fala com você, maldito seja, é bom prestar atenção em suas palavras. “Você vai encontrar o Jimmy. Ele é legal, meio caladão, mas confiável. Você vai ter que entrar nele, como numa porta”, avisou o corvo. Andei mais alguns metros e vi um vulto à minha frente, o contorno de um garoto de doze, treze anos, totalmente tatuado pelo mais realista dos desenhos. Tudo parecia uma ilusão de ótica e o garoto poderia ser a porra de um desenho na parede, não fossem os movimentos de seu interior, no melhor estilo Harry Potter. Ray Bradbury estaria orgulhoso.
“Ande logo, Guia,” repetiu, impaciente, o corvo.
Da mesma forma como subo em uma calçada, ergui um dos pés levemente e ultrapassei o contorno do garoto e cheguei ao outro lado. Entre um passo e outro, Londres deixou de existir. A névoa se dissipara, o cheiro da amônia ficara em uma realidade deixada para trás.
Eu entrei nas Terras Distantes, descobri mais tarde.

Robert saltou para trás e derrapou na terra seca do Bosque. Acompanhava com dificuldade os movimentos do Homem da Bruma, aparando os golpes no último momento possível. Ele culpava a Névoa, mas sabia que mentia para si mesmo: o Homem era tão ou mais rápido do que ele. Uma preocupação crescia em seu peito e o samurai se esforçava para ignorá-la. Mas, como uma semente no solo escuro, a mente de Robert estava no futuro. Ao menos estava pensando se haveria algum.
Até o momento, não tinha certeza contra o que ou quem lutava. Via apenas uma lâmina, parecida com uma katana mais larga e comprida que surgia da névoa como um relâmpago em um céu azul. O mínimo atraso o forçava para trás e rapidamente perdia terreno. O suor escorria por todo seu rosto e apenas por um milagre não caía sobre seus olhos. Paul, onde você está? O momento… tudo que importa é o momento, ele mentiu para si mesmo.
Paul estava com o queixo apoiado em uma das mãos, enquanto a outro cobria parte do largo estômago. Tentava ignorar o som das lâminas se chocando, tentando precisar onde e quando poderia ajudar Robert. Era esse seu papel, afinal. Não tinha físico bom para correr ou pular como os outros - bem, Jimmy não conta - ou um décimo sequer da capacidade de combate do samurai. Cérebro, ele pensou. Eu sou o cérebro deste corpo. Pense, gordo, pense!
Ele viu os dois guerreiros atravessando parte do terreno, chocando golpe e contra-golpe. Robert cortava o ar vez ou outra, mas lutava na defensiva. Paul precisava ganhar tempo para ele. Jimmy, John, voltem logo!
De repente, entre os sons do combate, Paul escutou a voz do samurai. “Mais alto, Robert! Não consegui te escutar!”
“O momento, Paul,” girou a katana para a direita e aparou duas estocadas seguidas, mas uma terceira o atingiu no braço. Ele fez um som de dor, saltou para trás novamente e completou: “preciso viver o momento, não antes, não depois…”
A voz de Robert estava estranha. Paul ergueu a armação do óculos, empurrando-a com o dedo até a base de seu nariz. Medo. Ele está com medo. Uma idéia se formou na mente rápida do garoto e ele repetiu as palavras do amigo, sussurrando para si mesmo.
Um sorriso cruzou seu rosto e Paul andou para perto do Homem da Bruma.
Antes do segundo passo, no entanto, o Corvo explodiu de Jimmy, batendo as asas em uma confusão de penas negras. Jimmy caiu, apoiado nos braços, e um homem desconhecido surgiu ao seu lado, sangrando em cascata do estômago. Rápido, Paul escutou em sua mente, ele está morrendo, Paul. O Guia está morrendo!

sexta-feira, 5 de abril de 2013

As Brumas do Farol 8 - O Guia (I)


Estavam cegos pela Bruma. Seguiam em linha reta para evitar sair da estreita trilha, pouco mais que uma pequena depressão apagada em seus piores trechos, quase tocando um no outro. Podiam ouvir os passos arrastados nas gramas e o suave movimento do vôo baixo de John. Nos dias que seguira à travessia da ponte, Robert liderava o grupo em uma interminável andança pelo Bosque. Tudo seguia normalmente. Eles sabiam que havia algo perigoso no meio das Brumas -
o Homem das Brumas - e que precisavam encontrar o Farol o quanto antes, mas eram obrigado a caminhar lentamente, cautelosos para não tropeçar no acidentes que pontilhavam a trilha. Paul tentava entender a situação o melhor que podia, mas as informações acumulavam em sua cabeça. Havia o perigo latente da entidade que permanecia dentro da Bruma, sem mencionar as bestas que passavam por eles há apenas alguns passos, felizmente cegas pelo grosso nevoeiro que a todos cercava. Pelos céus, essa maldita Bruma está viva. Tudo nesse maldito lugar está vivo e quer nos devorar! Maldição! Maldição! Tudo estará bem, desde que fiquemos no nosso caminho para o Farol. E realizar algum grande feito. Chegar até o Farol era apenas uma parte problemática daquela complicada equação, o garoto sabia. Enquanto os outros andavam, de certa forma confiantes de estarem no caminho correto, Paul remoía constantemente os acontecimentos em sua cabeça. O velho da ponte, a orquídea venenosa, a mosca gigantesca e a mensagem no corpo do coelho… Conte-me mais sobre essa tal de Alice e seu coelho, ele pensou com um sorriso irônico estampado no rosto.
“Parem!” Robert disse de forma cortante e todos congelaram os passos. John se jogou no chão e permaneceu em silêncio. “Uma encruzilhada.”
Paul olhou para a trilha e viu apenas o cinza da Bruma penetrado em sua visão. Maldita coisa. “Uma encruzilhada?”
“Sim,” ele respondeu. “O velho nos disse para seguir a trilha, não havia nada sobre uma encruzilhada.”
Após andar alguns passos e ultrapassar Robert, Paul olhou para a bifurcação alguns metros dele. A trilha estava cortada por um pequeno monte de terra e grama, suavemente a separando em dois caminhos distintos. “John? O que você consegue ver?”
O Corvo bateu as asas prontamente e desapareceu no céu sem vida que os cobria. Tudo era Bruma. Mesmo acima, o manto cinza tornava impossível distinguir a continuação dos dois caminhos. John desceu até o ombro de Paul e negou com movimentos rápidos de sua cabeça de pássaro. Não, camaradas, me desculpem.
“Podemos nos dividir”, Paul sugeriu, arrependido no momento em que a última palavra saiu de sua boca. Não… dividir o grupo não podia ser uma boa idéia.
“É a única saída, se precisamos alcançar o Farol.” Olhando para uma das trilhas, Robert mantinha ao menos uma das mãos em sua arma. Jimmy adiantou-se e colocou sua mão, etérea, no ombro do samurai, alarmado com a idéia que escolhiam. Devemos continuar juntos, ele disse na mente de Robert - a voz fazia seu cérebro coçar, uma sensação terrível -, separados apenas ajudaríamos o Homem da Bruma. Além disso, precisamos do Guia e não tenho a mínima idéia de como encontrá-lo. Eu preciso encontrá-lo, Robert. Tenho de trazer o Guia para a Bruma. Mas como? A Jimmy cabia o papel de encontrar o Guia em um caminho onde não podia encontrar a si mesmo. Os garotos sentiam que a Bruma penetrava em seus pensamentos e raciocinar se tornava cada vez mais difícil.
Estavam em um impasse. “Bem”, Paul disse depois de alguns minutos de indecisão. “O que podemos fazer é escolher com base na chance de sucesso.” Inconscientemente sua mão se movimentou, como se estivesse lançando dados. Gostava de ler sobre RPG e sonhava em ter amigos para poder participar daquele jogo misterioso. Conhecia todos os modelos e suas regras, tinha histórias inteiras escritas e esquecidas em uma gaveta, envelhecendo ser qualquer chance de ser mostrada ao mundo; magia que perdia sua cor conforme ele se apaixonava pelo mundo do conhecimento e deixava para trás os dragões e os magos. Pelo menos até ser jogado no meio da loucura em que se encontrava. Não havia jeito, fora metaforicamente abocanhado pelo Dragão. Portanto, lançaria os dados. Naquele momento, Paul pensava como líder, considerando a situação em um quadro maior. “Nosso objetivo é encontrar o Farol e o que estiver em seu topo. Se nos dividirmos, ficaremos mais vulneráveis. Ou podemos arriscar um dos lados e teremos uma chance de 50% de acerto. Acho que ainda assim é melhor seguirmos juntos. Metade é mais do que… bom, nada, considerando onde estamos.” E que morreríamos miseravelmente sem sua espada, Robert, completou em sua cabeça. Jimmy o encarou - o rosto sem face, impassível e ainda assim intenso - como se pudesse ler seus pensamentos e compartilhasse da mesma opinião.
Um barulho, quase um grunhido grave, surgiu da direita e praticamente decidiu o que fariam em seguida. Os quatro garotos pegaram a trilha da esquerda e correram, tentando se afastar dos sons ameaçadores que pareciam se aproximar. A trilha continuou por alguns minutos de corrida até chegar em outra bifurcação, onde eles escolheram novamente a esquerda. Depois de mais algumas centenas de metros, a trilha se dividia mais uma vez e eles escolheram, sem pensar, a direita. Enquanto corriam em linha reta, seguindo por curvas aleatórias, Paul lutava contra os músculos fracos e o suor que ardia em seus olhos. Sentia um deseepero crescendo no peito, ameaçando paralisar as pernas que ardiam como se alguém tivesse espetado uma grossa barra de ferro quente. Foi quando notou algo na bifurcação que se aproximavam. Agiu rápido e gritou para que seguissem na esquerda e alguns metros depois, lançou para o chão uma das barras de alcaçuz que tinha no bolso do uniforme rasgado. Se estivesse correto…
Eles escutavam passos pesados em perseguição, acompanhados por uma respiração longa, calma e assustadora. Robert sentia uma energia maligna exalando da criatura que os caçava e John grasnava repetidas vezes.
Sem surpresas outra bifurcação surgiu pela trilha que seguiam, dividindo-se em dois: esquerda e direita. A Bruma engolia as duas opções e eles não podiam enxergar mais do que alguns centímetros. “Esquerda”, Paul repetiu, entre golfadas de ar. Eles escolheram a direção indicada e depois de poucos metros, ele parou e apoiou as mãos nos joelhos, fazendo com que todos interrompessem a corrida. “Olhem”, apontou com um dedo trêmulo para o doce deixado por ele mesmo. “Estamos presos em um caminho que se repete… um loop, acho que é isso que eles chamam.”
De um lado, um caminho confuso e traiçoeiro, de onde nunca conseguiriam sair; do outro, provavelmente o horror do qual todos os outros monstros fugiam.
Jimmy sabia que era preciso agir. Tinha que confiar em seu instinto… e no Corvo. Agarrou John com uma das mãos e alcançou pelas Terras Distantes, onde encontraria o Guia.
Robert sacou de sua espada e esperou pelo monstro da Bruma. Não havia escolha; estavam presos em um labirinto com o Minotauro. Caíram na armadilha da névoa que os envolvia, mesmo depois de todos os sinais de perigo e avisos dos estranhos que encontraram no caminho… eles precisava proteger seus amigos, precisava relaxar e viver o momento. Estava pronto para o embate. Respirou profundamente, inalando e exalando com calma. Prestou atenção no ar que entrava pelas suas narinas. Aprendera na escola que o ar era levado para todo seu corpo pelos glóbulos vermelhos. Imaginou milhares de pequenas bolas de oxigênio sendo levado para todos os seus órgãos. Respirou e deixou para trás o passado, onde ele deveria permanecer. Respirou novamente e não mais havia o futuro. Mais duas vezes e o resto do grupo estava em algum lugar distante de sua mente, enterrados pela tensão do momento. Vivia pelo momento. Em suas mãos, o pincel. Cada corte é único e ficará eternamente gravado para que todos possam ver. Eu preciso pintar minha obra-prima.
Das sombras cinzenta da Bruma, surgiu a maior ameaça que vivia nos labirintos da névoa que tomava todo o Bosque.
Viva pelo momento. Robert não esperou e disparou o primeiro corte contra o terror da Bruma.

—

Meu nome é Jonhatan Raymond e vivo em um mundo que não é meu. Pertenço ao submundo de Londres, onde posso conquistar o dinheiro que coloca pão na mesa de minha casa, vivendo uma mentira televisiva todas as manhãs, dormindo com uma mulher que é a esposa de outro. De um homem que teve a realidade arrancada por minhas próprias mãos. Agora vivo sua vida. Sou um substituto. E logo eles me pegarão. Neste ou em qualquer outro mundo. É o que acontece, sabe? Eles chegam com aqueles carros enormes e negros, disparando primeiro e perguntando depois. A cavalaria da metafísica, perseguindo e eliminando os elementos que estão onde não deveriam existir. Eu sou o alvo. Eu sou a variável e preciso ser apagado.
Mas eles terão que me pegar primeiro. E, por Deus, eu vou lutar com unhas e dentes antes de me entregar.
Eu vivo uma mentira, mas o doce toque da mulher em minha cama, o calor de sua carne, é real.
Meu nome não é Jonhatan Raymond. Essa é a minha máscara. Meu nome é Chandler D. Humphring. Ou eu achava que era.
No momento em que você e puxado para a neblina, e é aqui que minha historia começa, seu nome deixa de ser uma palavra conhecida e passa a ser um segredo.

sexta-feira, 22 de março de 2013

As Brumas do Farol 7 - Dentro da Bruma (II)


Seus olhos podiam ver pouco, preso do jeito que estava, dentro do nevoeiro. Havia algo de sobrenatural na névoa, como se ela estivesse viva. A bruma que o cercava era grossa, quase palpável e Robert sentia que de alguma forma, ela o espreitava, esperando por alguma brecha em sua posição de defesa. O samurai andava com a katana em punhos, realizando pequenos passos diagonais pela ponte, retesando os músculos prontos para uma manobra de defesa e contra-ataque. Tal base exigia um enorme gasto constante de energia, mas ele não conseguiria relaxar enquanto estivesse dentro da Bruma. Perguntou-se onde estavam todos os outros - principalmente seu irmão, o Corvo - e girou o corpo para olhar para trás, apontando a espada para aquela direção. Nada. Nada além da cortina cinza que caía sobre seus olhos. Olhava, imaginou, pelos olhos de um velho cuja visão se deteriorava com a idade avançada. Cortou com raiva o ar, abrindo por um milésimo de segundo uma brecha na névoa, nada além de uma minúscula vitória. A Bruma reagiu e Robert teve a impressão de que enxergava ainda menos. Eu posso sentí-la pulsar, maldição. Essa… coisa, está viva. Decidiu que devia agir com máxima cautela e firmou a empunhadura de sua arma, formando uma tensão que podia ser sentida por toda a ponte.
Quando girou o corpo para a direção que seguia originalmente, viu uma sombra distinguindo-se e, sua área de alcance, demasiadamente perto para ele nunca ter sentido sua aproximação. Pelo primeiro golpe de vista, julgou ser um homem sentado com as pernas cruzadas e com duas espadas amarradas na cintura. Ele era magro e tinha o cabelo em um pequeno coque no topo da cabeça. Seus dedos firmaram um aperto na empunhadura de sua própria katana e Robert ergueu os braços, pronto para realizar um corte vertical.
“Sente-se, garoto.” Robert sentiu o tom imperativo do homem - aquela voz não abria espaço para hesitação ou fúria, existindo nela apenas a mais plena calma daquele que melhor analisava o momento que se passava. Sem indecisões, sem pânico. “Venha ver isso, é interessante, eu lhe asseguro.”
Robert caminhou dois passos curtos, mãos tão firmes que não denunciavam o nervosismo que sentia. Nervosismo e medo. Medo crescente à cada respiração minha. “Onde eles estão? Meus companheiros, diga onde eles estão ou fique preparado para encontrar seu criador!” O samurai gritou com todo seu fôlego.
“Você diz o corvo, o portal e a criança? Não sei onde eles estão, samurai. Estou aqui na Bruma por você e outros estão cuidado deles. Agora, venha aqui e veja isso.” Ele estendeu uma das mãos para Robert, mostrando a sombra de uma flor.
Ele sabe quem somos. Mas como? Quem é ele? Sentou-se perto do homem, enxergando apenas seu contorno e alguns detalhes do kimono que o estranho usava. A sombra colocou a flor na boca e realizou um rápido golpe com a mão direita, esticando a mão aberta próxima ao rosto de Robert. Como mágica, a névoa foi expulsa de onde estava - concentrado-se no centro da palma do homem alguns momentos antes de ser expelida para longe deles. Para o garoto, era como se estivessem dentro de um cúpula onde a Bruma não podia tocá-los e pela primeira vez ele o viu. O homem era feio, o nariz largo e torto, os olhos esbugalhados pareciam que iam cair do rosto duro a qualquer instante e uma barba rala poluía o maxilar; pela sujeira colada na pele, Robert acreditava que ele não tomava banho há meses. Percebeu, no entanto, uma aura ao redor do samurai sentado a sua frente, os joelhos quase tocando os seus. O kimono estava impecavelmente branco e poucas rugas marcavam o tecido; as espadas estavam bem cuidadas e, ele sabia por instinto, afiadas em um grau impossível. Bem, talvez essa lâmina possa cortar a Bruma de verdade. “Samurai…,” saboreou a palavra, regozijando cada sílaba, “foi essa a palavra que você me disse. É isso que sou? Um samurai?”
O homem sorriu com dentes brancos e perfeitamente alinhados, exógenos àquele rosto feio. “O caminho da dura justiça e da lealdade cega está presente em você, sim. Samurai.”
“Mas… como? Eu nunca tive permissão de encostar em uma faca afiada…”
“Esqueça o que você era, Samurai. O que importa é o agora. E agora você está na Bruma.”
“Qual… qual o seu nome?”
“Ah,” ele exasperou, “nomes não foram nomeados para serem entregues assim, jovem samurai. Não onde estamos, não com o tempo que nos foi dado.” O sorriso que ele ainda exibia nos lábio inchados morreu e um brilho sombrio tomou conta de seus olhos. “Agora escute com atenção, pois o que tenho para te mostrar será a diferença entre o sucesso e a derrota. Muito está em jogo, Samurai, coisas piores do que a morte podem acontecer caso vocês não consigam recuperar o Fogo. Escute com atenção, mas primeiro veja essa obra de arte. Olhe com atenção.” Ele entregou uma orquídea para Robert. “Olhe-a como um samurai.”
O garoto encarou o homem por mais alguns segundos, confuso com aquele tipo de pedido, e baixou os olhos para a orquídea. Não era uma planta perigosa - diferente das flores que haviam encontrado no Bosque - mas uma planta comum, branca. Estudou a flor durante quase cinco minutos, tentando decidir o porquê classificá-la como obra de arte. Olhe como um samurai. Seus olhos então se abriram quando a surpresa o atingiu em cheio. “É uma planta bonita,” disse com convicção, “mas o corte oculta qualquer beleza.” O homem sorriu, satisfeito com a resposta do jovem. Robert estudou de perto, assombrado, o corte limpo, perfeito, feito no caule da flor. A ele, parecia possível simplesmente encostar as duas partes da planta para que ela voltasse a ser um corpo unido, tamanha perfeição do corte que fora realizado. “Impressionante”, disse mais para si do que para o outro samurai.
“Nunca havia segurado uma lâmina afiada, você me disse. Por isso estou aqui, no meio desse monstro, para mostrar o que e um corte. O verdadeiro corte não está na katana empunhada, mas na mente daquele que a segura, Samurai. Cortar com a lâmina, é golpear como um cego contra o inimigo. Qualquer um pode golpear com raiva e cortar a carne com uma lâmina bem temperada, Robert, mas apenas os samurais golpeiam com a mente. O que importa é o momento e nada mais. Não existe futuro, não existe passado. Há apenas o agora e você viverá e morrerá por ele… pelo instante. Como em uma pintura, cada golpe de sua mão deverá ser permanente, certeiro e livre de indecisões. Sua katana deverá cortar onde você quer e quando quiser, jovem. O melhor espadachim cairá diante do mais lento dos homens se falhar em dado instante. Viva para o agora e para ele apenas e viverá até o final de sua busca, Samurai. Pinte seu quadro livre de erros, uma pincelada depois da outra. Você entendeu?” Sem desgrudar os olhos do homem, Robert afirmou com a cabeça. “Ótimo. Lembre-se: cada duelo que se inicia é um quadro em branco. Cabe ao seu traçado completá-lo sem falhas, pois apenas assim ele poderá ser terminado, sem erros. Continue seu caminho, jovem. Volte para os seus e viva pelo momento. Muito depende de vocês.”
Levantando-se rapidamente, ele cruzou o olhar mais uma vez com o samurai sentado e sentiu a bondade que havia em sua alma. Os outros estão assegurados por pessoas como ele. O coração de Robert aquietou e ele caminhou, espada embainhada. Assim ela permaneceria assim até o momento em que deveria ser usada. Não antes e nunca depois, decidiu.
O samurai desapareceu na Bruma.

Jimmy flutuou para frente, consciente da ausência dos três amigos. Seus pés estavam em chamas, enquanto o sol poente pintava o peito e cabeça do garoto. O contorno que formava seu perfil seguiu adiante, em constante mutação interior. Conseguia ver melhor do que seus amigos, presos aos olhos físicos durante o forte nevoeiro. Olhos físicos têm a mania besta de se deixarem confundir com o ambiente, ele pensou em certo momento. O que cegava seu caminho era pior do que as adversidades dos outros garotos, no entanto. A névoa de Jimmy era interna. Ele não conseguia manter a mente coesa e qualquer pensamento, por mais simples que fosse, exigia hercúlea concentração e esforços. Tentava decidir o que fazer, mas a névoa mental era dura como o ferro e refletir era impossível.
Pensou em globos oculares, depois em dragões, corvos, borboletas e formigas. Tubarões tomaram sua mente e deram espaço para os diferentes modelos de sistema solar de Aristóteles, Copérnico e Kepler. A rápida sucessão de pensamentos fragmentados e aleatórios deram continuidade enquanto a confusão se instalava, confortável e sem pressa, em sua cabeça privada de rosto. Sem ter a capacidade de raciocínio, o garoto-sonho vagou pela ponte sem destino certo.
Uma voz, originada onde seria o umbigo de Jimmy, penetrou nas brumas mentais e alcançou o garoto como um soco no nariz. “Jimmy! Jimmy! Consegue me escutar, Jimmy?”
“Eu… eu não sei. Não consigo decidir se escuto ou não. Acho… acho que sim, estou pensando nisso, afinal. Ou essa é a minha voz?”
“Jimmy!”, cada palavra machucava, “Me escute com atenção Jimmy. Eu me perdi na Bruma e não conseguiria chegar onde deveríamos nos encontrar, por isso estou sonhando. Há mais alguém aqui dentro, Jimmy. Uma presença antiga e perigosa está planejando seu declínio. Derrote-a quando for a hora, ela não estava nos planos, Jimmy.” O nariz de Jimmy - perdido em algum lugar entre os dois lados da entrada do Bosque - sangrava em torrentes. A voz cortava fundo, mas era necessário, ele teria de suportar o custo. O contrário era por demais terrível para ser seriamente cogitado.
“Estou machucado.” Jimmy não sabia como sabia. “Se você continuar, vou morrer.”
“Serei breve. É necessário. Eu deveria encontrá-lo na ponte, você seria como uma chama… um farol, no meio da Bruma, mas sua mente… está bloqueada pela outra prese-”
“Um Dragão,” interrompeu, “eu o prendi depois de roubar a ponte. Ele ganhou meu nome. A trapaça foi justificada,” mentiu para si mesmo.
“Você tem de superar o Dragão, Jimmy. Seu corpo, garoto, é um portal para as Terras Distantes, um local onde todos os sonhos existem ao mesmo tempo. Como já descobriu, muitos têm a habilidade de cruzar objetos e pessoas entre os sonhos. É assim que vocês vão conseguir o Guia para atravessar as Brumas e chegar no Farol. Ache o Guia nas Terras Distantes, Jimmy, e assim você poderá levá-lo para o Bosque. Siga Jimmy. Siga em segurança.”
A voz cessou e, com ele, a névoa que interrompia os pensamentos do garoto-sonho morreu. Jimmy podia pensar com ímpar agudeza. Ele era um portal para as Terras Distantes, o que explicava muito do que sentia que podia fazer. Era seu papel encontrar o Guia, mas não sabia quem era ou como trazê-lo. Tentou, em vão, encontrar a voz novamente, mas acreditava que só podia pensar porque o dono daquela voz estava distraindo o Dragão.

Jimmy vagou sempre em frente e lentamente cruzou a ponte. No fim da travessia, viu as Paul, John e Robert ganharem contraste e texturas. Estavam uma vez mais reunidos. Cada um deles, Jimmy percebera, estava diferente, de alguma forma mais sérios e conscientes da própria natureza. Não eram mais garotos perdidos em um bosque surreal. Eles eram um grupo com um objetivo e iriam chegar ao ponto final, ainda que este fosse uma incógnita.
Havia um olhar profundo em Paul, um poço de onde sentia que poderia beber do mais vasto conhecimento; a postura de Robert era perfeita e ele via que o samurai tinha total controle do que acontecia ao seu redor. Mas os pequenos olhos amarelos do Corvo… havia duvida no pássaro. E talvez traição. Jimmy não tinha certeza. Algo estava errado com John, mas sabia que seria inútil perguntar. O que fora dito no encontro dele, era para ele apenas. Não tinha outra escolha a não ser confiar no pequeno pássaro negro. Não podia se deixar distrair com os problemas dos outros.
Afinal, tinha seus próprios desafios.
E não tinha a menor idéia de como enfrentá-los.