segunda-feira, 30 de abril de 2012

que ninguém busque o racismo onde não tem

Ela puxou uma pétala.

Do lado de fora do universo, o cavaleiro de armadura branca desferiu um golpe certeiro no flanco esquerdo do inimigo. A ponta da lança trespassou a armadura e o cavaleiro negro urrou de dor.

Outra pétala. Agora já são duas sobre o balcão.

Do lado de fora, o cavaleiro de ébano aperta seus olhos vermelhos enquanto investe contra o outro, mão esquerda pressionando o ferimento e mão direita, também certeira, atingindo o pulso alheio. A lança do cavaleiro branco caiu ao chão junto a um dedo. Era o mínimo, talvez não fizesse falta.

Mais uma pétala arrancada.

O cavaleiro branco salta do cavalo e tira das costas a espada bastarda. O negro, desmontando cuidadosamente, silvando contra o alvo, desembainha a estúpida espada de duas mãos.

Os dedos frágeis da menina arrancam outra pétala da flor. O balcão salpica de amarelo aleatório.

Ambos os guerreiros gritam e rezam a seus deuses. Jogam-se furiosamente um contra o outro, cavalos à distância observando a luta. O universo que separa a cena do balcão tremeluz um pouco e some. A briga agora está lá fora, na rua, uma porta de distância da menina.

Que tira da flor mais uma parte.

O cavaleiro branco golpeia o elmo inimigo e esse, partido ao meio, voa longe, deixando a face monstruosa do outro guerreiro à mostra. Apenas um fino corte de sangue verde escorre do rosto em frenesi.

Mais uma pétala sobre o balcão.

A espada de duas mãos acerta o braço do branco. O cavaleiro negro grita, em êxtase. O cavaleiro branco finta, com meio braço a menos.

Alguém na mesa 8 chama a garçonete. Sobre o balcão, ao lado das pétalas arrancadas, uma flor incompleta aguarda o fim da batalha.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

As Várias Vidas de Zack – 2


“E se eu disser que aqui nessa caixa, tenho o que poderia ser o fim do mundo como conhecemos?”. O homem que segurava a caixa estava vigorosamente embriagado, concluiu Zack. O cheiro do whisky alcançava, forte e acre, as narinas do cansado bartender. O homem parecia uma mancha branca no Clube, vestindo camisa e calças brancas, coberto por um sobretudo inacreditavelmente reluzente e limpo. Cabelos longos e rebeldes, quase prateados, cobriam parcialmente seu rosto, mas era possível identificar um nariz pontiagudo acima de lábios finos; um único olho verde, injetado e delirante encarava Zack, enquanto um tapa-olho repousava em simetria.
Nada como um pirata moderno louco e bêbado para continuar esse dia pirado, pensou desanimado. “Eu diria que o senhor já bebeu o suficiente por hoje e comfiscaria sua chave... mas provavelmente deixaria a caixa”, respondeu afinal.
“Toque na caixa e eu arranco seu coração.” Zack congelou, sem saber como reagir diante da ameaça. A voz embargada transformou-se momentaneamente em um tom sóbrio e sério, sem qualquer traço da bebida, apenas intenções cruas e sinceras.
“Temos um problema aqui?”, finalmente perguntou o bartender.
“Não, desde que você fique longe de minhas coisas. Mais uma dose, dois dedos, sem gelo”.
Zack contornou o balcão e pegou a garrafa, servindo uma dose exagerada da bebida, contrariando todos seus impulsos. Sabia que se ficasse, iria escutar os problemas daquela figura exótica. Hey, a Regra de Ouro já estava quebrada de qualquer forma. Ele queria saber o que havia de tão perigoso naquela caixa e o sujeito estava bêbado o suficiente para contar.
No canto escuro do balcão, há diversos ano-luz de distância, um incessante tic-tic-tic denunciava a presença das três velhas.
Em apenas um gole, o estranho homem de branco bebeu metade do conteúdo que estava no copo. “Desculpe por antes. Assumo uma posição defensiva com essa caixa. Nem sei porque a carrego comigo, deveria enterrar essa maldita coisa no meio do deserto e explodir minha cabeça com uma .12, isso sim seria o...”, um arroto subiu pela sua garganta, “correto. Seguro.”
“Acho que está na hora de você sair do...”, um forte murro no balcão interrompeu Zack. Por alguns segundos apenas a voz de Robert Plant ecoou pelo Clube. Tic-tic-tic, disse um dos extremos do balcão, quebrando a atmosfera pesada.
“Peço desculpa por isso também. Fique e me escute por alguns minutos e sumirei da sua vida, sem ter de pedir desculpa pela terceira vez, eu prometo. Escute bem e não me interrompa, vou tentar ser o mais direto possível. Nessa caixa estão meus pensamentos, em sua forma mais pura e bruta.” Ele olhou Zack com o único olho no rosto. Um olhar embriagado e, no entanto, concentrado e penetrante.
A caixa, notou o bartender, era na verdade um antiga recipiente para cigarros, talvez apenas vinte e cinco centímetros em seu lado maior. Nada daquele volume poderia ser tão perigoso. Qual o tamanho de uma idéia?, uma voz ecoou em sua mente.
“Primeiro algumas coisas que você precisa saber sobre mim. Sou inteligente, não tenho vergonha ou falsa modéstia em reconhecer isso. A porra do meu QI beira duzentos. Eu trabalhava no desenvolvimento de novas tecnologias e hardwares para quem oferecesse trabalho. NASA, Apple, IBM, você cita uma marca e eu listo o que fiz por elas. Amava meu trabalho, amava pensar e colocar as coisas no papel, traçar novas bases para novos horizontes; meus limites ultrapassavam o céu, literalmente. Passava horas debruçado sobre algum projeto sem ao menos desviar o olhar. Eu era bom, é o que quero dizer. Dedicado e inteligente, o que mais poderia oferecer?” Secou o copo em outro grande gole e apontou para o tapa-olho. “Até esse carinha aqui aparecer. Perdi meu olho em uma pequena explosão na minha máquina de café. A ironia nunca me falha: café foi meu combustível por todos esses anos e acabou sendo minha sentença. O olho se foi com uma velocidade impressionante, um pop e pronto, lá se foi minha noção de profundidade. Aqui começa a parte estranha da minha história. Algumas pessoas estão destinadas, acredito, a realizações no mínimo impressionantes, elas mudam o curso da história e se libertam das nossas prisões pseudo-neoplatônicas”, Zack se peguntou quando estaria a japonesa. “Mas para a maioria dos Grandes, dessas pessoas tão incríveis, as condições são impostas, como uma piada de Deus ou dos deuses ou de qualquer filho da puta transcendental que brinca com minha miséria. A perda do meu olho direito foi um ato imposto, veja bem. E disso saiu toda minha... condição, por falta de palavra melhor. A primeira mudança que notei foi quando tiraram as bandagens do que agora chamo de ‘Buraco’, porque é justamente isso que tenho agora; você poderia ver parte do meu crânio, se eu ousasse retirar o tapa-olho.”
Zack colocou um pouco mais de whisky no copo e bebeu da garrafa que tinha nas mãos. A cerveja aliviou a garganta seca. Sentia algo estranho no Clube, algo que não deveria estar acontecendo. Seu balcão parecia o centro de confraternização de um hospício.
“Quando retiraram as bandagens, notei uma mancha negra no tecido que ficou sobre o machucado. Era um pequeno quadrado negro, nada surpreendente. Quando sai do hospital, peguei uma lupa e examinei aquilo com maior atenção. Você conhece a Sequência de Fibonacci?”
“0, 1, 2, 3, 5, 8”, ele recitou sem problemas.
“Exatamente. Lost, magia e Bolsa de Valores, meu bom rapaz. Quando estava de repouso no hospital, fique a maior parte do tempo lendo um livro sobre as diversas abordagens da Sequência e em que locais do mundo natural ela se aplicava com perfeição, como em bromélia, girassóis e crustáceos. Bem, aquele quadrado era na verdade duas imagens sobrepostas, descobri mais tarde. O espiral de uma bromélia e um girassol.”
“Os maiores exemplos da Sequência”, a voz de Zack saiu com dificuldade. Sentia que estavam olhando diretamente para as leis que mantinham a realidade estável. Ele odiou a sensação.
“Foi como ver meu pensamento impresso naquelas bandagens. Meu coração quase parou quando vi as duas imagens. Aos poucos a idéia se instalou na minha cabeça e se tornou natural, verdadeiro clichê. Comecei a testar com pequenos desenhos e equações: tudo que precisava fazer era me debruçar sobre uma folha branca e... imaginar! O raciocínio simplesmente jorrava do buraco no meu rosto e aparecia no papel. Era mágico! Projetos inteiros facilmente desenhados, imagens, quadros, desenhos... Se eu colocasse o tapa-olho e pensasse em plantas elétricas ou em imagens complexas com calma e em detalhes, páginas e mais páginas de material poderiam ser preenchidas em alguns segundos. Nomei qualquer coisa, bartender”.
Zack pensou durante alguns segundos. Na jukebox, outra música tocava, mas ele não registrou qual. “Calvin e Haroldo. E pode me chamar de Zack”.
O homem de branco sorriu e retirou um guardanapo que vinha com uma porção de amendoin. Fechou o único olho por alguns instantes e levantou minimamente o tapa-olho. Zack sentiu a própria realidade se dobrar, sua cabeça ficou leve e ele teve que se segurar em algo para não desabar no chão sujo do Clube. Uma fumaça negra caiu de onde deveria haver um olho humano e aos poucos a imagem de um tigre e de um garoto andando sobre um tronco morto se formou. Com mãos trêmulas, Zack pegou o guardanapo e estudou o desenho. Havia erros de proporção e pequenos detalhes trocados, exatamente como se alguém tivesse desenhado os personagens sem qualquer imagem para se basear, apenas contando com a memória para formar os traços. Um desenho espontâneo de um velho bêbado.
“Incrível, não?” Zack concordou com ele sem desviar o olhar do desenho. “Por alguns meses eu produzi como nunca antes, projetos e mais projetos eram criados e concluídos em questão de horas, minha conta bancária triplicou em algumas semanas. Assim, Zack, finalmente chegamos na caixa”, ele batucava na tampa de madeira. “Responda uma coisa, você sabe o que alguns... especialistas”, ele fez o sinal universal de aspas com as mãos, “dizem dos sonhos que não lembramos?”
Zack buscou resposta no labirinto confuso que era o seu cérebro naquele momento. “Eles... eles dizem que não lembramos de alguns sonhos como um mecanismo de auto-preservação. Acho que alguns sonhos dizem mais sobre nós do que gostaríamos de saber.”
“Exatamente. Alguns meses atrás acordei sem o tapa-olho, o elástico estava frouxo e a proteção deve ter caído no meio da noite. Todas as paredes da casa estavam cobertas com desenhos e equações, medidas e graus. Fiquei um tempo decifrando e montando o que era um manual e acabei com uma máquina gigante montada na minha sala. Um Oscilador Tesla. Quando o tapa-olho caiu, meus pensamentos estavam livres, sem o filtro cultural ou qualquer outro substantivo que você quiser aplicar aqui, o fato é que meus pensamentos mais... primitivos, menos convencionais, escaparam e montaram uma máquina de terremotos! Pior, uma máquina de terremotos que funcionava. Eu destruí um raio de três quilômetros quando a liguei no nível mais fraco. Depois disso, meus pensamentos... meu intelecto, ganhou vida própria. Comecei a perceber padrões e pequenos acontecimentos em corrente que acarretariam desastres. Os Efeitos Borboleta, se você quiser assim chamá-los. Percebi como derrubar governos com uma ligação ou causar pânico com uma notícia falsa, tudo muito fácil. Mas sempre, sempre para pior. Quando uma pessoa olha para seus pensamentos em seu estado mais puro e visualiza o fim de incontáveis vidas, Zack, está na hora de sair desse mundo.”
Zack pensou no poderia fazer pelo homem vestido de branco. Pegar a caixa seria perigoso e inútil, depois de lutar pelo pequeno retângulo de madeira que poderia causar guerras e catástrofes (não havia dúvidas, afinal o desenho do Calvin e Haroldo fora suficiente), o deixaria com algo muito perigoso nas mãos; isso sem considerar que as idéias iriam surgir em uma continuidade torrencial, fluindo pela cratera facial daquele homem. Pela segunda vez em menos de meia hora, o bartender se sentiu impotente. Duas pessoas chegaram com histórias fantásticas do tipo barato, que ele poderia ler nos livros editados com folhas de jornal, brochuras descartáveis que ele poderia comprar na banca de revistas que ficava naquela mesma rua, alguns quarteirões para baixo. Em ambas ocasiões ele não tinha qualquer oportunidade de interferir, ajudar ou interromper o caminho peculiar que aquelas pessoas cruzavam: ele ouvia e assistia os estranhos saindo pela porta. Alguns retornavam, outros não. Não era essa, no fim do dia, sua principal (e única) regra?
Tic-tic-tic.
Registrou em sua visão periférica as três idosas sentadas no canto do balcão e então entendeu as estranhezas daquele dia. Com um baque quase físico, ele viu novamente a realidade dobrar, desta vez em expansão. A presença daquelas três mulheres que alternavam a visão, que teciam eternamente explicava a última hora... Ele estava em um momento em que as leis que gerem o Todo não se aplicavam e o Paradoxo aproveitava seu espaço.
Zack fez o que podia fazer diante da situação: virou a garrafa de whisky no copo e o ofereceu para o homem de branco.
“Por conta da casa.” Olhou para os outros dois homens sentados perto da Jukebox. “Tenho que atender meus outros clientes. Pegue sua caixa e vá, faça o que você tem de fazer. Ache um lugar seguro... ache o deserto do qual falou, enterre essa merda que você carrega e coloque uma bala em sua testa, o que mais posso dizer? É o correto? Não sei. Mas não posso interferir em seu caminho. E também acredito que não iria adiantar queimar essa velha caixa de cigarros. Como queimar uma idéia, ainda mais uma que simplesmente se renova?”
Zack então deu uma última olhada para o homem de branco, o pirata moderno. Resistiu à intensa necessidade de tocar na caixa e começou a caminhar até as velhas.
Pensou melhor e foi até a Jukebox. Iria seguir o ritual.
Ele nunca viu o homem sair, certamente cambalenate. Ele nunca viu se ele levou a caixa ou se estava com o tapa-olho.
As primeiras notas agressivas de The Rime of the Ancient Mariner dispararam da Jukebox.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Erva Daninha

Nos encontramos no refeitório todos os dias. Nunca conversamos mas a conheço. Almoça perto de mim. Não por afinidade muda mas pela preferência do ambiente mais remoto. A postura na cadeira é exemplar. Talheres posicionados milimetricamente antes da primeira garfada.

A primeira vez que a reconheci fora do trabalho, e tive um misto de simpatia e repulsa, foi quando a vi no ponto de ônibus. Roupas sociais perfeitamente alinhadas, cabelos sem nenhum fio fora do lugar, corpo ereto. Perfeito exceto pelas lágrimas. Me impressionou.

Não imagino que seja vontade própria sua solidão. Parece-me que ela tentou nestes últimos anos. Porém, nessa década que trabalho na empresa, lembro-me de ter visto poucas vezes sua interação com outro que não perguntas metódicas sobre o trabalho, que não a falsa educação polida de dizer obrigado e assinar atenciosamente cada comunicação interna.

Uma espécie humana que confia naquilo que estático. Orgulhoso de ser a pedra permanecida no caminho. Estática, sem olhar para os lados, os meios não justificam os fins porque nunca há ação, somente métodos. Deus, estou saindo de mim.



Laura me deixou hoje pela manhã. Preparou suco de laranja como despedida. Tentei resistir. Mas chorei. No banheiro, longe do cachorro, me debulhei em lágrimas. Não queria que ele se assustasse com os soluços, latindo feito um louco. Então, tomei um banho, liguei o ar condicionado do carro no menor grau possível e vim para o trabalho. Silencioso, plástico, fodido por dentro.

Dois minutos antes das oito horas, a funcionária está a frente do sistema de registro de entrada. Todos os dias aguarda o momento preciso para inserir sua digital, confirmando a presença diária no emprego. Hoje ela me disse bom dia, sentou-se em seu cubículo e retirou a maçã da bolsa, colocando-a estrategicamente a sua direita.

Eu queria ser como ela. Independente, autômato, dono de si. Sobreviver com estilhaços no corpo e membros destroçados. Mas a frente de meu computador, minha planilha de cotações, tudo que eu sabia não fazer era mentir. 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

ninguém compreenderá a última risada de teu cadáver

- Você não me respondeu.

- Oi?

- Não me respondeu. Não me ligou no dia seguinte pra dizer o que pensava.

- Sobre o que?

- Como sobre o que!? Eu te fiz uma pergunta. A pergunta. E te deixei ir na noite fria...

- Ir na noite fria? Tu é o que, agora, um poeta?

- Não fuja do assunto. Você não respondeu.

- Não sei a pergunta.

- Mas eu te falei.

- Desculpa.

- Filho da puta.

- Eu sei.

- Passei a vida inteira dos últimos dias aqui pra você, olhando você, convidando você.

- Às vezes convidar para entrar é o mesmo que pedir pra ir embora.

- Não! Quer dizer... como assim?

- Preciso ir.

Levantou-se e saiu pela noite fria. Joshua, no balcão do bar do Clube, pestanejava sonhando com uma realidade estranha onde se chamava Zack e, com outro nome, comandava o mesmo bar. As velhinhas na mesa do canto ainda fiavam um xale. Joana tomava um chá. A menina, filha de Joshua, brincava com a jukebox que, para ela, era uma gigantesca caixinha de música. A noite esquentava pouco a pouco.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

As Várias Vidas de Zack - 1


Há momentos em que o tecido da realidade permanece fino, instável em sua própria natureza. Nesses momentos, uma física anárquica toma conta de pequenos espaços mundanos; o caos impera e o paradoxo reina. São momentos mágicos, musas quase sobrenaturais para poetas loucos ou romancistas psicóticos, momentos esses que são causados por eventos aleatórios ou entidades poderosas.
Zack, proprietário e bartender do velho Clube da cidade, estava preso em um desses momentos, desencadeado pela presença de três entidades míticas. Naquela singela tarde, uma tarde sem nada de especial na ignorante opinião de Zack, a vida de algumas pessoas tomariam rumos inesperados. Na verdade, o próprio passado iria mudar. Assumindo um ponto da sinceridade ainda maior, caro leitor, durante todas as mudanças, os destinos, os caminhos sempre permaneceriam os mesmos, pois seriam únicos, eternos.
Vestia uma camiseta branca com os quatro símbolos do Led Zeppelin estampados, calça jeans desbotadas e um velho par de tênis, confortáveis justamente por estarem desgastados. Zack tentava levar a vida na maior leveza possível; quando não estava repondo o estoque de cerveja ou preparando batatas ou limpando as mesas, ele lia grossos livros sobre a história da ciência e escutava discos velhos de rock setentista. Ficava fora dos problemas de seus clientes, oferecia apenas um pouco de batata frita e conforto etílico. Sempre parava de servir os que deixavam para trás a linha da sobriedade e ficava fora de seus problemas pessoais, essa era a única Regra de Zack.
A vida do bartender seguia suave e sem surpresas. Zack era, no entanto, infeliz. Sentia que vivam em um prisão temporal. Não acreditava que vivia o destino certo, estava sempre deslocado. Mesmo em no conforto de sua cama, na familiaridade da pequena biblioteca particular, algo estava errado. Zack não era quem deveria ser, esse era o problema.
No Clube, as mesmas pessoas engoliam batatas fritas e cervejas; a jukebox tocava Stargazer, do Rainbow e a televisão passava algum silencioso tumulto estudantil. O Clube não era famoso pela televisão pendurada atrás do balcão: era a jukebox que trazia de volta os clientes. No Clube você poderia, com uma moeda de 25 centavos, escutar todo o Rubber Soul, dos Beatles ou um dos Remasters, do Zeppelin. Terminou de lavar um copo e andou até o fim do balcão, onde uma mulher terminava a terceira cerveja da noite. Ela era japonesa, baixa e magra. Diria que estava na casa dos cinquenta, mas não se atreveria a adivinhar a idade de um japonês, eles têm uma estranha mania de sempre paracer jovens.
“Mais uma?”, perguntou.
Ela considerou por alguns instantes. “Não, obrigada. Vou pegar a estrada.” Ele a estudou mais atentamente. Vestia uma jaqueta de couro e tinha ao lado um capacete vermelho.
“Você está em condições de dirigir?”
“Não me julgue pela aparência, jovem”, ela sorriu. Não conseguia se lembrar da última vez que fora chamado de ‘jovem’. “Consigo lidar bem com minha bebida. Além disso, acho que a cerveja vai me acalmar um pouco, vou fazer uma viagem longa.”
“Para onde?”
Ela olhou com profundidade para o bartender, talvez medindo a confiança que ele emitia. Por fim, decidiu contar o que iria fazer naquela tarde, confiava em alguém que gostava tanto de Zeppelin, pensou. Não fazia diferença alguma, concluiu, apenas alguns quilômetros e nada teria importância. “A pergunta está errada. Para quando eu vou, você deveria perguntar.” Ela colocou uma chave sobre o balcão. Era uma chave comum, Harley Davidson dizia em seu corpo.
“Uma chave”, ele respondeu sem qualquer emoção.
“Não, não, jovem. A chave. Estou com a moto do meu marido... falecido... falecido marido. Ele sempre amou motos e mesmo levando uma vida simples, juntou dinheiro suficiente para comprar uma Fat Boy. Ano passado ele morreu. Câncer, essa Vadia. Eu me conformei”, segurava algumas lágrima, Zack percebeu, “e continuei a viver, o que mais poderia fazer? Nunca tivemos filhos ou amigos próximos, vivíamos um pelo outro... bom, ele vivia pela moto também. Sabe que cheguei a ter ciúmes da moto? Uma noite peguei um martelo, decidida a destruir aquela máquina maldita que dividia comigo meu marido, como aqueles primeiros artesãos que se rebelaram contra as primeiras fiadeiras que vi em um documentário.” Ela ponderou alguns segundos e retomou: “Os artesão não diviam os maridos, quero dizer. Eles destruíram as máquinas que roubavam os empregos. Por fim, não fiz nada, não tive coragem de destruir parte importante da vida do Tezuko. Ele andou naquela Fat Boy até quase o fim de suas energias, era impressionante a determinação de rodar alguns quilômetros, mesmo fraco e passando mal por causa da quimioterapia.”
Zack olhou ao redor. Um homem estava sentado perto da televisão, abraçado a uma pequena caixa de madeira como se fosse o maior tesouro da Terra; três senhoras sentavam na outra ponta do balcão, uma lia o jornal do dia com a ajuda de grossas lentes. As outras duas senhoras tricotavam com visível esforço para enxergar o que faziam. Outras duas pessoas sentavam perto da jukebox. Stargazer se aproximava do fim.
“Não vou demorar muito”, ela soltou em um tom ofendido.
“Não se preocupe, acho que todos estão bem. Continue, por favor.”
Ela o encarou, com os olhos pequenos e brilhantes. Vivos, ele pensou, como os olhos de uma criança que ainda acredita em magia.
“A quimioterapia era um veneno para meu Tezuko. Ele vomitava e vomitava e vomitava. Às vezes dizia que iria virar do avesso. Se arrastava pela casa, branco e sem energia, mas quando estava perto da moto, um pouco da cor voltava nas bochechas e rugas de seu rosto”, lágrimas caíam livremente. “Ficava longas horas limpando cada centímetro da Harley, medindo o nível do óleo, polindo o tanque, verificando as marchas. Acho que a moto lhe deu alguns meses de vida. Mas no final, o terrível dragão venceu e agora ele é um punhado de pó. Depois que ele morreu, pensei em me livrar da moto e achei um comprador, mas no dia antes de receber quase o mesmo valor de uma moto nova, um envelope escorregou por baixo da minha porta. Meu coração gelou e caí de joelhos no chão da cozinha. Era a letra do Tezuko!”, a velha japonesa agarrava Zack pelos ombros, com força suficiente para deixar marcas vermelhas de dedos.
Mais uma maluca com muito álcool na cabeça, ele amaldiçoou.
Ela largou o bartender e apontou para a chave pousada na madeira do Clube. “Dentro do envelope tinha essa chave. Com mãos trêmulas, fui até a moto e a testei. Precisei de um pouco mais de força para dar partida, mas a chave funcionou como deveria. Quem tinha me mandado a chave? Meu nome no envelope tinha um smiley, um brincadeira que ele sempre fazia quando escrevia algo importante para mim. Fazia anos que não andava na moto, mas a tirei da garagem mesmo assim, vesti minha velha jaqueta e coloquei o capacete. Foi maravilhoso sentir o cheiro do cabelo de Tezuko, ainda que fraco. Quando percebi, estava na estrada, longe de casa. Dirigi nove horas seguidas. Sem parar, sem descansar, sem precisar de mais combustível. Aliás, o tanque continuava cheio. Dormi em um hotel qualquer e voltei para casa. De manhã, quando peguei o jornal, vi que marcava o dia anterior na capa. As mesmas manchetes, as mesmas fotos, os mesmos assassinatos. Achei que era um erro do entregador, mas tudo bem, sem problemas, não iria causar confusão por causa de um jornal errado... não sou esse tipo de pessoa. Resolvi preparar um pouco de café e separar os documentos da moto. A volta tinha sido boa, o barulho do motor agradável, mas o que eu iria fazer com uma moto? Achei, naquela hora, que o Tezuko queria que eu tivesse dado uma última volta e pediu para algum amigo para entregar a chave”, ela brincava com o objeto, rodando entre os dedos.
Zack não sabia o que dizer, apenas se debruçou no balcão e alcançou uma cerveja. Estava fisgado pela história da velha japonesa. Mesmo ferindo sua única regra, queria ouvir a história.
“É claro que separei a chave que chegou no envelope, tinha a intenção de guardar com carinho: a última lembrança do meu amor de toda a vida. O comprador, no entanto, me ligou e disse exatamente as mesmas coisas que tinha dito no dia anterior, na mesma ordem, na mesma animação, marcando para o encontro para o próximo dia. Será que eu tinha circulado o dia errado no meu calendário? Liguei a televisão e o jornal de ontem estava passando. Então eu pensei que...”
“Você viajou um dia no passado”, ele concluiu.
“Exatamente. Agora, você deve estar achando que sou apenas uma japonesa velha e bêbada, mas estou bem sóbria, apesar de ainda continuar velha. Eu pense, hey, não posso deixar isso assim, tenho que testar. Coloquei o casaco e voltei para a moto sem pensar... afinal, quem iria continuar essa loucura toda se tivesse parado para raciocinar? Liguei a moto e dei a partida. Antes de sair, tive uma idéia louca. Precisava de alguma prova, alguma marca. Desliguei a moto e, com a chave, fiz um pequeno corte no meu braço. Tive que voltar para casa e fazer um curativo, saiu mais sangue do que eu queria. Dirigi as mesmas nove horas, dormi no mesmo hotel. Ninguém falou comigo como se me conhecesse, como se eu estivesse voltando para o mesmo hotel pelo segundo dia consecutivo. Quando voltei, o jornal, a televisão, o telefonema... tudo igual. Meu braço estava sem o corte... até mesmo o curativo havia sumido, meu corpo viajou junto, percebe? Não fui contra a correnteza do rio, a própria água andou comigo. Testei novamente, mas dessa vez dirigi dezoito horas. Saí de casa na quinta-feira e retornei na terça-feira da mesma semana.”
Ela se levantou e deixou o dinheiro das cervejas perto do copo. Sorriu deliciosamente para ele.
“Tenho que ir...”
“Zack.”
“Tenho que ir, Zack. Você pode achar que sou louca, mas isso não tem qualquer importância, tem? Você não vai se lembrar de mim. E se lembrar, não vai se perguntar onde está aquela velha louca, mas quando está aquela velha louca”, ela piscou para ele e começou a andar para a saída. “A estrada me chama e tenho muitos quilômetros até conseguir voltar para um diagnóstico precoce... assim vamos matar a Vadia. Quando chegar no dia certo, depois do tratamento do Tezuko, venho com ele para tomarmos uma cerveja.”
Zack assistiu a velha japonesa comicamente vestida e disse a única coisa que poderia ser dita:
“Boa sorte!”
Ela agradeceu, sem se virar, e saiu.
Ao fundo, o bartender ouviu risadas agudas e olhou para as três idosas. A mulher que lia jornal retirou os óculos e passou para a que estava sentada no meio, ela pousou no rosto as grossas lentes e começou a assistir o que passava na televisão, enquanto guardava as agulhas de tricotar. Perturbado, ele viu que ela havia feito apenas uma longa linha com a lã. Na esquerda, a terceira velha desmontava uma coluna feita com a mesma lã, apenas para começar a tricotar novamente.
Kashimir tocava na jukebox.
Enquanto andava até o homem que portava a pequena caixa, Zack se pergundou quando estaria a velha japonesa.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Esqueça Socrates

"Quanto tempo", foi a frase de minha terapeuta ao me ver. Duas palavras ditas de maneira tão bem composta que não compreendi se era ironia ou apenas constatação. "Não me lembro quanto", e não me lembrava. Não me agarro aos calendários.

Conversamos sobre a escrita literária. "Não consigo compor", disse. "Parece um texto fraco, mimado, raquítico", continuei. "E porque você simplesmente não escreve, em vez de pensar?", perguntou-me. "Mas isso não é literatura", e não era.

Quando adolescente, em processo proto-escritor, tive a fase poeta. Em versos de rimas pobres, temáticas frias e romanticas. Ao envelhecer, assumi a verve prosaica. Falo demais, escrevo também. O sincretismo poético que vá aos diabos. 

"O problema é que não dá para ativar um sistema. Despertar com a consciência de estar pronto. Sim, agora sou um escritor. Há elementos mais frágeis que isso. Doí", repliquei. Nunca era questão de escrever. Palavras seguem palavras, as vezes sem razão. Explosões não são literatura.

Mas eu precisava de um caminho, um significado para que aquelas palavras não fossem em vão. As mesmas palavras repetidas, oração de rosários aquebrantados pelo tempo. Eu queria levantar-me da poltrona e sair da sessão. Negava minha incompetência de escrever. Por falta de esforço. Por me acreditar especial. Venham, venham até a mim, meninas. Me inspirem com seus corpos nus, musas. Quero banhar-me de sua insensatez.

Eu tinha vinte e cinco anos. Não sabia de nada. 

Continuo sem saber. 

domingo, 15 de abril de 2012

o cheiro no ar

Joana debruçada no balcão, Joana bored, Joana sem clientes que a entendam. Joana sem cliente a atender. Viu a porta de entrada balançar ao vento do último cliento que saiu, um homem meio frio com um sorriso eterno face ao rosto. Não era pro seu gosto, pensou Joana, mas não era de todo mau.

Vitrola tocando um samba antigo samba Cartola, Joana de rabo de olho olhando a vitrola. Lá fora o vento do homem saído levava resquícios de alguma coisa, futuro prenhe, de algo não ido mas pra onde ia. O homem saído só sabia que caminhava no rumo ao sol.

Joana não sabia, mas podia imaginar.