segunda-feira, 28 de novembro de 2011

julio

- É por isso que meus pés estão sujos de lama. Estou te dizendo, andei duas horas naquela floresta, com a cara no sol e a sola da bota batendo no barro, estou te dizendo. Não sei quê me deu, só sei que fui - como sempre.

O interlocutor bebia calmamente, fumava um cigarro sob o aviso de "é proibido" e olhava o amigo. Além das lamas nas botas, o amigo tinha a alma na lama, isso era fato. Ao menos ontem, pensava o interlocutor, ao menos ontem ele estava na lama. Mas agora...

- Desci do ônibus e vi uma trilha por entre as árvores, pra lá da cidade. Era outro caminho, não sei bem pra onde, era um caminho sem estrada asfalto fumaça sem gente e com mais sol que o normal na cidade. Sei lá. Só sei que fui.

O narrador sorria. O outro pensava, entre um gole e outro, que ele talvez não estivesse mais com a alma enlameada. Fumava.

- E por duas horas andei ali, seguindo a trilha, às vezes direita, às vezes esquerda, pisando nas poças e, volta e meia, parando um pouco pra olhar o lugar. Era engraçado, sabe? Aquela floresta cheirava a igreja. O cheiro bom de igreja, cheiro de incenso de igreja, mas tinha mais sol e brisa, e os pássaros cantavam. Andei lá por horas. Duas, acho.

O interlocutor era silêncio. A floresta também.

- Só sei que, quando vi, estava ao pé de uma igreja enorme, já fora da mata. Não sei. Uma igreja enorme. Durante o caminho minha cabeça parou de girar e pensar em mil coisas, lembrei a cada passo de apenas pensar em andar, durante a floresta eu não estava preocupado com nada e a mata cheirava a incenso. Chegado na igreja, não sei... as coisas mudaram. Lá não havia silêncio, tinham pessoas demais e o padre falava pelos cotovelos.

Ambos se olharam.

- Quando olhei pros meus pés achei que não havia lama suficiente. A trilha continuava chamando, em silêncio. Eu gosto de conversar assim.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

De Frente Pro Crime

As duas iniciais do nome estamparam jornais. No caderno Cotidiano, em reportagem mirrada, o texto narrava desde a abordagem, passando pelo breve cárcere enquanto as ligações para a família aumentavam. Um dia inteiro em pânico que tivera sorte, com um final feliz para a moça.

Ao lado dessa notícia, mais três estavam sobre a mesa da sala. Dispostas lado a lado e recortadas com esmero, dignas de um caderno de recortes. Como ele pediu, a identidade da esposa fora preservada. Uma notícia errou a idade, outra informou uma agressão física que não existiu. Ele pensava que a violência psicológica já era o bastante.

Era tarde da noite. Caminhou até o quarto do casal e observou a esposa. Sentou ao seu lado na cama, vendo a respiração subir e descer. O copo d´agua estava pela metade. Fora ele que, três horas atrás, lhe trouxera para que tomasse os sedativos. Recomendação médica para o ataque que ocorrera há dois dias.

Sua jaqueta brilhou no bolso localizado do lado esquerdo. Era possível ouvir um leve zumbido. Caminhou para fora do quarto, fechou a porta silenciosamente com cuidado e clicou o botão atender do celular.

Poucas frases foram ditas. Cessou a ligação, foi até a sala, pegou as chaves e desligou a tevê que, até então, estava emudecida. Saiu de casa com medo de confrontar o porteiro a uma hora dessas. Desceu pelas escadas para evitar o velho elevador barulhento. No térreo, pela janela de vidro, observou se Jeremias estava na portaria. O velho, as vezes, tirava uma soneca no quarto ao lado. Mas o sono era leve, não era ruim no trabalho.

Intensificou sua própria expressão de cansado, preferindo exagerar os fatos como uma desculpa. Abriu a porta da escadaria sentindo-se estúpido por ter evitado o elevador. Se conversaria com o porteiro de qualquer maneira, porque pegou outro caminho, como um espião que não era. Assistia televisão demais, pensou.

Jeremias perguntou de sua esposa. Respondeu mentindo sobre o horário que lhe deu os sedativos. Bem como mentiria sobre aquela saída. Insone, procuraria algo para comer. No bairro que estava havia alguns locais com atendimento vinte e quatro horas. Era apenas uma desculpa, mas fez questão de soar verdadeiro.

Saiu do prédio atravessando imediatamente a rua. Dobrou a esquerda e encontrou o sedam azul escuro no local combinado anteriormente. Achou engraçado a seqüência de idéias. Rua escura, carro escuro. Parecia tão óbvio. Sentou no banco traseiro. O homem que estava ao volante se inclinou para fitá-lo nos olhos.

Eu tenho cara de motorista, Fábio?

E assim, foi para a parte da frente. Perguntou sobre o amigo do homem do volante, aguardando a resposta que ansiava. Estava no outro ponto de encontro, como desejado.

O tráfego estava calmo a essa hora. Ruas desertas. Pensou que a cidade poderia ser dessa maneira também às quatro da tarde. Um ninho vazio. Conforme reconheceu a proximidade do local de chegada, seu estômago embrulhou. Não recordou quando fora a última vez que tinha colocado algo na boca. Talvez na conversa com a polícia anti-sequestro tenha tomado um café. Sim, tinha. Lembrou-se das bolachas duras e adocicadas.

Que foi, Fábio?”, perguntou o homem do volante.

Azia”, respondeu.

O homem abriu o porta luvas e lhe deu uma barra de cereal. “Coma, meu filho deixou aí mais cedo. Tenho milhares dessas em casa, o garoto viciou”. Fábio comeu para não sentir-se mal. Não tinha fome.

O carro prosseguiu em linha reta por mais dois quarteirões e, subitamente, virou a esquerda. Uma rua escura seguida de outra rua escura. Lembrou-se da obviedade do sedam lhe esperando na penumbra.

No final da segunda rua, havia um carro parado em transversal. Era um automóvel velho, enferrujado, que se não tivesse com um dos faróis acesos, lhe daria a impressão de ser inútil como veículo.

Ao pararem o carro, o homem do volante saiu de súbito. Fábio permaneceu no carro, compondo a coragem pela respiração. Ainda sentia o sabor dos cereais nos lábios. Saiu.

Pelo colarinho, Jorge segurava um homem. Utilizando o encosto do banco da frente como proteção entre ele e o meliante. Fabio lhe deu um aceno respondido com um meneio de cabeça.

O homem do volante se aproximou. “Fábio, você tem certeza?”. E no escuro, parecia que seu rosto apresentava alguma dúvida.

Tenho sim”, respondeu e ficou em silêncio.

Olha, te direi. Isso muda a gente. A primeira vez que numa diligencia observei um homem sangrar... Confesso, fiquei algumas noites sem dormir, exagerando no café para evitar o sono... Acostuma-se, claro. Mas você não parece homem disso. Se quiser desistir, há duas quadras daqui tem um boteco. Nos espere lá que, em vinte minutos, terminamos o serviço”.

A polícia anti-sequestro conseguiu resgatar Marina, sua esposa, as 20 horas de uma terça feira. A descrição que fez de um dos sequestradores não era precisa. Mas evidenciava uma cicatriz na sobrancelha e outra no queixo que parecia mais um estilo do que um símbolo de violência. A imagem pictórica trouxe aos históricos policiais um homem procurado em mais dois sequestros e um latrocínio. Conhecida figura carimbada, cujo nome popular era Mágico.

Era um apelido sem graça. Porém, como os registros de seus crimes tinham um espaçamento de dois anos cada entre eles, a polícia supôs que, a cada quebra da lei, o homem desaparecesse, como mágico. E, atraído pela podridão da metrópole, voltava talvez tentando uma boa vida mas caindo naquilo que sabia fazer bem.

Era quarta-feira. Portanto, dia seguinte ao resgate de Marina quando Fábio prestava seu depoimento final ao delegado. A notícia da prisão do meliante chegou ao seu conhecimento na hora, por um policial indiscreto em relatar o acontecido. Esse policial era Jorge. Imediatamente seus olhos tornaram-se revoltosos. Queria matá-lo. Fazê-lo sofrer como a esposa sofreu durante o sequestro.

Não foi preciso muito para convencer os três envolvidos na prisão do meliante de que o melhor a se fazer seria acabar com aquele sequestrador. A polícia, palavra de um deles, poderia fazer isso, sem problemas. Mas com o salário baixo, um incentivo sempre é visto como positivo.

Fabio não hesitou em suas economias. Retirou o que pode do banco e, um dia depois, ofereceu a policial que, na ocasião, também estava ao volante. “De bom tamanho”, respondeu. “Bem simbólico. Normalmente fazemos por mais. Mas estamos ao seu lado. E, assim, tem a garantia de que prestaremos um bom serviço ao senhor”.

Fora essa história que relembrou naquela escuridão. Olhou para o bandido e sua raiva explodiu. Aproximou-se do meliante. Um de seus olhos estava inchado e outro parecia ora disperso, ora com medo. Desejava uma resposta dele.

Me diga, por favor, porquê?”. Tentou ser firme, mas parecia suplicar ao bandido.

Fábio buscava uma razão superior, diferente daquela que sabia que seria a resposta. Facilidade, dinheiro, drogas, o que fosse. Não importava. A resposta que procurava não estaria lá. Pela inércia da resposta do homem, Fábio ergueu a mão esquerda e lhe bateu. Um estampido forte em uma das faces do homem. Não sangrou, mas deixou o bandido assustado, centrado naquela situação que deveria saber que seria definitiva.

Fábio, Fábio, o que é isso? Nós prometemos outra coisa. Conseguimos até o carro para parecer outra coisa”. Pela primeira vez, Jorge falava desde o outro encontro. Era o mesmo que tinha colocado o pés pelas mãos e avisado, sem querer, o marido da vítima que o sequestrador estava preso. Seu silêncio até então parecia uma espécie de punição própria por falar demais.

Fábio se recompôs e foi para o espaço combinado, atrás da cena. Desejava ser apenas um expectador. Encomendar a morte do bandido seria funcional, mas não lhe daria uma realização completa. Precisava ver. De longe, acenou com a cabeça para o policial falastrão, era o sinal de que tudo poderia ser realizado.

O homem do volante aproximou-se de Fábio estendendo uma das mãos, um contrato entre homens. “Espero que com isso fique em paz”, lhe disse.

O reencontro de Fábio com a esposa, ainda na divisão anti-sequestro, fez seus olhos se encherem de lágrimas. Enquanto o peito, ainda aprisionado pela dor, precisava se libertar de algum sentimento até então desconhecido. Observar a esposa em agonia, sem dormir até o nascer da madrugada, o transformou em um homem infeliz, decidido a ir a um ponto extremo. A gota d água fora quando, no dia seguinte, viu o bandido sendo preso, gritando que nada fez.

Fábio?”, chamou novamente o policial.

Sim, ficarei”. E continuou a fitar o meliante, ainda que de longe. Tirou os óculos do rosto, limpou-o na camiseta e novamente pôs seus olhos nele. Queria gravar todos os detalhes da cena. Pensou que o seqüestrador deveria ter ido embora. Mas, provavelmente, ficara na cidade para comer alguma vagabunda antes da fuga.

O policial poderia discursar. Dizer que não reconhecia a diferença entre polícia e bandido, bom e mal, mas afirmou apenas que gostava daquele momento. Da pequena vantagem de destruir a escória. Utilizaram uma arma recolhida em uma invasão de um morro. Arma que não está nas fotos iniciais nem no relatório. Era velha, pesada, mas funcional.

Clemente, Jorge lhe perguntou se haveria algumas últimas palavras. Ouviu Fábio gritando de longe.

Espero que você vá para o inferno e pague tanto aqui quanto lá pelo que fez, filho da puta”. Depois se arrependeu de ter gritado. Alguém da redondeza teria ouvido? Provalmente, não. Local ermo demais.

Foram três disparos rápidos em direção ao meliante. Em um deles a arma vacilou, mas dois o acertaram em cheio fazendo sua cabeça explodir e pintar um dos vidros do carro. Aquela morte, dentro do carro velho, pareceria acerto de contas de um traficante da redondeza. Uma estratégia fácil.

Fábio prendeu a respiração, deu um rodopio e ficou de cócoras. Agredido pela alta dose de adrenalina e medo. Vira um homem morrer e, pior, fora graças ao seu comando que perdeu a vida. Levantou-se novamente e caminhou até o morto. Mesmo ensanguentado conseguiu distinguir um fio de expressão nos olhos, imagem que seria gravada em suas próprias retinas.

Sua esposa está melhor?”, perguntou Jorge.

Sim”, respondeu Fábio.

Tome cuidado da próxima vez. Não é sempre que damos a sorte de flagar o imbecil quase cometendo outro crime e ainda topar com a vítima do anterior”, e fora a vez do segundo policial lhe dar uma das mãos como firmamento.

A viagem pareceu demasiadamente demorada. Sentia fome novamente. Nova fome renovada. Pediu para que o homem do volante parasse o carro a cinco quadras de sua casa. Comeria um lanche em um carrinho e de lá voltaria a pé.

Encomendou para viagem, assim estaria em casa com mais rapidez. No prédio abriu a porta com a própria chave. Jerônimo cochilava e assim era melhor, evitava perguntar. Foi de elevador para seu andar.

A luz da sala estava acesa. Não lembrava se apagara ou não. No quarto, a esposa dormia na mesma pose, com o mesmo respirar, o copo d´agua sem nenhum outro gole.

Pôs o lanche sobre as notícias recortadas e mastigou-o em longas mordidas. Aos poucos, o alimento foi engordurando as notícias. Mas não se importava. Daquele momento em diante elas não serviriam mais para nada. Contavam apenas um fato que tentariam esquecer que aconteceu.

A vítima M.A. foi assaltada e sequestrada na saída de um conhecido mercado da cidade. Leu em um parágrafo aleatório. “Não mais”, disse a si mesmo. Fizera questão de tirar esse homem de circulação, dessa para a melhor, pensou. Não se sentia infeliz ou ruim por isso. Demoraria um longo tempo para que sua esposa voltasse ao normal. Achou necessário que o meliante pagasse um preço por isso.

O sanduíche gordo de carne, bacon e queijo desceu macio. Ligou a televisão e com os pés derrubou a notícia e a embalagem da comida no chão. Amanhã tudo estaria em paz.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

a zia

Ressaca. O salto da garçonete parece batucar no assoalho de sua mente. Madeira. Ponta de ferro. Ponta de ferro? Ponta de ferro. Um novo modelo, supõe. Algum desses saltos da moda, da estação. Que estação, a propósito?

Primavera quase verão? Outono quase inverno? Não sabe, de fato. Só ouve o sapato. O toc toc se aproximando, pelo menos, é sinal de que a bebida vem. Foda-se a batucada.

Quarta-feira de cinzas sem carnaval. E numa segunda. Pior que nem é a primeira vez. Qual será?

Sabe não. A cachaça chegou e os saltos batucam pra longe. No fundo da mente um demônio espera o banho de álcool. Marcílio bebe de um gole e, com o fósforo aceso, incendeia a si mesmo. Por dentro. Que o demônio vá pro diabo que o carregue.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011


Marry me


Sim, amar é a coisa mais doce que existe.

Mas há ocasiões em que é imperativo saber abrir mão do amor, por maior que ele seja.

Quem já fez, como eu já fiz, algo equivalente a pintar uma bicicleta com canetinha vai entender o que estou querendo dizer.




Em tempo: o curta é velhinho, de 2008. Hoje o menino nem deve mais ter aquele mullet estilosão. Direção de Michelle Lehman.


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Desejo

Desejei com todos os motivos que me destes pra desejar.
Nada se consumou.
Morreu.
Chorei.
Com todas as magoas do meu pobre coração motivado por ti.
Não evaporaram-se minhas lágrimas.
Molhado vaguei por aí.
Destruído por desejar.
Desfaleci.
Algum tempo depois me vi internado.
Me tranquei por muito tempo.
Tanto tempo para te apagar.
E retorna agora para me atormentar ?
Me dá mais motivos para não se confirmar.
Não considera a possibilidade de sumir e nunca mais retornar.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Encontro Amoroso

Quando se encontraram a atração fora quase imediata. Não eram tímidos e sabiam aquilo que queriam. Estavam dispostos na mesma equação e na mesma sintonia. Conversaram, inicialmente tentando parecer por acaso. Depois desenvolveram uma espécie de elo, buscando consensos em comum, maneira de dizer “sim, temos uma conexão”. E, duas horas depois de tal diálogo, beijavam-se pela primeira vez.

Eram dez horas da noite quando ele derrubou os livros de cima da cama, para dar um espaço para eles. Talvez tenha dito que nunca se sentira assim antes. Era bobagem, ele sabia e ela, se não soubesse, enganava-se.

Enquanto ele a despia, ela temerosa tentava lhe dizer: tenho algo a lhe falar, é importante. Dane-se, pensava. Qualquer coisa que poderia ser dita, poderia ser dita mais tarde. No início, imaginou que seria algo bobo. Poderia ela ser virgem? Não. Impossível. Ele reconhecia aqueles olhos de caçador que observa a caça, como ele a tinha olhado também.

Ela tentava, mas ele irrompia em beijos. Não queria obstruir a ação com um comentário sobre sexualidade, algum problema psicológico ou nada no estilo.

Meia noite, já vestidos, trancou a porta da casa e a levou, a pé, para a casa dela. Ainda era romântico. No fundo, bem no fundo.

No dia seguinte, ele acordou feliz. Tivera uma noite excelente. O telefone tocou, era ela. Após se identificar, as frases se coincidiram. Ambos tinham o que dizer. “Diz você primeiro”, ela pediu.

- Tenho algo para você, comprei hoje, e você?

- Eu não.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

o homem da gravata florida

Doutor Oséas sentado no canto do palco, ao pé do piano, tomando uísque. Oséas feliz arrogante e triste, embora a tristeza não desponte de todo. Oséas tomando outro uísque, o terceiro, passando a mão no traseiro de Ana. Garçonete.

Joshua enxuga seus copos e olha de rabo de olho a Oséas. Filho da puta, merda, pensa ao balcão. Queria expulsar esse Oséas daqui, maldita hora em que precisei de ajuda, maldito dinheiro, filho da puta, Osé arrogante Osé arrogante Osé arrogante.

O doutor coloca os pés sobre o palco, que é baixo o suficiente para não distender nenhum nervo, nenhum nada. Oséas é velho e orgulhoso, com seu dinheiro no bolso e os pés balançando no palco, na cara do Otávio, pianista da banda de hoje. Macacos Molóides cover, o nome da banda, e tocam demais. Otávio é negro e bom que nem o Ray Charles, mas não é cego. Só de um olho, verdade, um olho é de vidro.

Joshua quebra uma taça enquanto a enxuga com raiva nos olhos olhando Oséas. Corta o dedo, Merda!, Diabos!. Ele aparece, então, e Joshua vê entrar pela porta um engravatado, mais velho que Otávio mas menos que Osé. Joshua não sabe quem é, mas desconfia. Já o vira outras noites ali, a beber. Pagava bem e não molestava ninguém, então era um bom cliente, isso era.

O da gravata vai direto à mesa do palco, onde Oséas está, puxa um cadeira, acende um cigarro, senta com ele e sorri para Otávio. Bate no pé gordo Oséas e faz com que caia de cima do palco, sapato de couro caro caindo no chão com estrondo. Maldito, pensa Oséas, já não mais sorrindo.

Maldito momento em que precisei de dinheiro, Joshua continua a pensar. Ana sabe que se não fosse por isso, por esse momento, o gordo doutor já seria há muito expulso do bar. O Clube não é um lugar para gente arrogância.

- Que pensa que está fazendo, moleque? - pergunta o doutor.

O homem da gravata sorri. Agora Osé pode ver que a gravata é florida, numa combinação de cores que ofusca as vistas. Maldita gravata, maldita gravata.

Hoje é o dia das maldições.

- Estou sentado, meu amigo, senhor, estou sentado ouvindo o bom som. Ouves? Esse menino aqui do piano parece um amigo que tive há um tempo, um preto velho que via pouco e tocava muito.

O doutor Oséas não estava ali para conversar, decididamente. Quando saía de casa, à noite, queria apenas beber e botar suas botas na cara de alguém, rir com desdém e se impor sobre o mundo. O homem da gravata, Meu Deus, mas como é bonita esta gravata!, estava estragando sua noite, e o nobre doutor já não tinha mais paciência.

Depois de beber seu gim o homem da gravata sorriu e levantou da mesa. Vou ao banheiro, senhor, logo volto. Cá estarás?

- Ora...

Foi o que Oséas pôde dizer. O homem foi e, estando ausente, deixou o doutor a pensar nas poucas e boas que ia falar assim que voltasse, o homem daquela magnífica gravata. Ainda sozinho na mesa, fechou os olhos e acendeu vagarosamente seu charuto, colocando de novo os pés sobre o palco, aos pés de Otávio.

Sentiu seu pé queimar, por dentro das botas, por dentro do couro. Não sabia se o que queimava era o couro sapato ou o coro do próprio pé. Na dúvida, seus reflexos fizeram o que qualquer reflexo faria e puxaram os pés de volta para baixo da mesa. Quando abriu os olhos estava ali, à sua frente, o homem engravatado. Sorrindo.

Otávio parecia num transe louco, tocando feito um demônio.

Doutor Oséas tinha pensado, mesmo que pouco, nas poucas e boas que ia dizer ao recém-chegado. Petulante, debruçou-se sobre a mesa e começou:

- Olha aqui, rapaz, com quem você pensa que está falando?

O homem sorriu, as cores da gravata tremularam e, cobrindo a mão de Oséas com a sua própria, em cima da mesa, o engravatado piscou para Joshua.

- Não penso. E com o quê você pensa que está falando, meu bom homem?

As mãos sobrepostas amassavam a brasa do charuto, que queimava lentamente a carne do gordo e soltava no Clube um cheiro fraco de enxofre. A atenção do lugar estava em Otávio, desvairado, tocando como num concerto internacional.

Outro copo quebrado, outro corte na mão, Joshua percebeu então que seu Osé não estava sentado. Não estava, na verdade, em canto nenhum do bar. Talvez lá fora, pensou. Mas lá fora não é problema meu. Depois de apanhar a gorjeta da gravata, Ana teve uma noite tranquila e leve como não tinha há muito tempo.