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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Austeriana (3): helicoidal

Leia: Austeriana (1): escritor, personagem, papel
Austeriana (2): o texto de Charlote

As folhas ainda estavam em minhas mãos enquanto olhava fixamente o papel em vez de encarar Charlote. Era minha maneira de refletir a respeito do que li sem que ela percebesse ativamente meus pensamentos. Embora a narrativa fosse centrada nela como pessoa e personagem, me reconheci em algumas linhas, calculando que esta era sua sensação ao se reconhecer nas minhas.

- Eu pareço assim tão, tão... – ela começou a rir e meneou a cabeça – idiota?

Mas me parecia mais do que isso. Talvez eu nunca tivesse compreendido totalmente como havia, naquele momento, a completude do autor, personagem, leitor. E de como as histórias poderiam se moldar de uma maneira que estes patamares, em tese separados, se tornassem um novelo enevoado.

- Normalmente, sim. Acho que tem a ver com a concepção de se sentir diferente por escrever. – ela mesma se atropelou nas palavras – eu sei o que vai dizer, nem todo mundo que escreve é um escritor, mas vou te considerar como um.

Depois de anos escrevendo, era como se eu não soubesse ainda o sentido total por trás das palavras. Não a busca sistemática por encontrar-se no texto ou buscar, a partir dele, uma razão universal, mas a motivação escondida nas escrituras. Ao menos de minhas narrativas.

Charlote continuava apreensiva. Procurei selecionar minhas palavras com cuidado.

- Você tem medo de ser uma personagem?

- Talvez. Acho que as lembranças tornam-se mais sensíveis com elas. Ou posso parecer exagerada, talvez tenha exagerado no texto também.

- Não. A equação muda de escritor para outro, mas o resultado é o mesmo. Projeção, imaginação, trabalho árduo. Se você dissecar o texto, a composição parece fácil. Mas são apenas personagens vivendo uma história, Charlote. Há quem sinta falta deles quando o final do livro se aproxima, porém, por mais que estas personagens me inspirem, continuam sendo personagens.

- ...

- Lhe falta sempre alguma coisa. A completude, o erro, o paladar. Falta a demência humana.

- E se forem um desses personagens românticos, eles não deveriam ser dementes também?

- Acho que se torna invariável. Admiro mais as personagens que os humanos por sua lineariedade. Atingem seus objetivos mesmo com grande dificuldade. São criadas para irem de um lado para outro em uma história e são bem sucedidas, enquanto na vida real tudo é mais falho. Gosto do entusiasmo das personagens.

- ...

- E parte da força de um escritor vem de uma superioridade de se achar no direito de conhecer suas personagens ou de saber compreender uma parcela da alma humana. Gosto de acreditar que te conheço, embora saiba que não. Mesmo que especule que conheço a personagem e que a admire, isso é um engano. O reflexo é ela, não você. Mas, às vezes, para o leitor, isso não é claro, por isso as personagens criam vida.

- E existe outra Charlote por aí, da mesma maneira que existo. Mas ela não sabe sobre mim.

- É um tanto metafísico, mas pode se pensar por aí. Mas eu dizia que nem sempre um texto demonstra suas intenções iniciais. A criação primordial do autor pode se modificar. Se você lesse um “eu te amo” em uma narrativa, poderia imaginar que fosse uma declaração apaixonada se essa for sua interpretação, ou talvez seja a tendência momentânea de seu entusiasmo. Outro, frustrado, poderia achar uma ironia. Metade da narrativa está escondida em quem lê.

Não havia mais o que lhe dizer a respeito. Era este um dos conceitos da própria composição literária e, somente quando me tornei uma personagem, pude compreender. A urgência de histórias que precisam ser despejadas no papel, o desespero que muitos o fazem e o mesmo desespero que estas palavras são devoradas.

- Não se preocupe com isso, Charlote. Você, como personagem, será confundida um milhão de vezes com outras pessoas. O reflexo não é funcional como um espelho. É, continuando nessa ideia de um jogo de luz e sombras, uma imagem à meia luz. Se reconhecer em uma personagem é o mesmo que caminhar em uma noite escura. Às vezes passam vultos por nós e, até sabermos se conhecemos ou não alguém que passa ao nosso lado, é necessário um prazo de análise e compreensão. Nem sempre a Charlote personagem vai ser você mesma. Vai se transmutar entre outras pessoas que vão jurar que a personagem nasceu para ela.

- Eu gosto da personagem como eu gosto de mim, de alguma maneira.

- Agradeço pela sua boa vontade. Você é muito gentil.

Charlote e eu conversaríamos sobre literatura mais algumas vezes. Mesmo que tentássemos evitar a ideia romântica, debruçaríamos sobre o argumento como se fosse um mistério. Sabíamos que, no fundo, autores não são tão imortais quanto suas obras. E talvez por isso desejássemos nos transformar também em personagens. Para, mesmo que de uma maneira ínfima, viver à beira da morte sem nunca perecer propriamente.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Austeriana (2): o texto de Charlote

Leia: Austeriana (1): escritor, personagem, papel

Sei o que ele deseja; Ver meu lado para lendo-me dizer que sempre soube de mim. Mas não posso lhe dar esse prazer. Não posso ser gentil se me incomoda reconhecer que ele parece dialogar mais comigo do que eu mesma.

Se conseguisse ler todos os textos sobre Charlote que ele escreveu, encontraria alguém menos parecida comigo? Afinal, sou mais eu ou mais ela?

Sinto como se cada vez que escrevesse tentasse retirar um pouco de minha alma. Tomando-me para si. Tendo-me em suas mãos. Não posso aceitar. É tão difícil saber quem sou para um estranho dizer que sou assim ou dessa maneira. Não posso.

Então, surge ele. Baixo, de rosto engraçado, com uma presunção tão grande quanto sua barriga. Mas ainda assim um escritor. Quando me conheceu escreveu para mim. Enquanto eu ainda não era aquela Charlote. Enquanto não era dividida ao meio como mágica, sendo Charlote viva com sangue correndo nas veias e Charlote personagem realizado. Ao menos ele explicou para mim dessa maneira.

E pediu-me para fazermos o inverso. Porque você não escreve o seu lado da história, me disse. Mas como posso pensar por você, escritor? Sentar em um canto sorvendo a vida, tomando café ou sorvete até uma idéia genial? Sempre escrevi para curar minha própria dor, não a sua.

O que você via quando me olhava é o mesmo que vê ao observar Charlote? Ou me ve como um mistério, desconfortável dentro de seu mundo? Ou uma garota a quem você pudesse salvar? Não sei realizar este exercício...

Recordo-me do dia em que caminhou ao meu lado narrando meus movimentos. Tentando demonstrar-me como, a partir de mim, transformava a realidade em ficção. Talvez ele quisesse saber-me como sabia a personagem. Mas, depois de tanto tempo, depois de tantos escritos, comecei a sentir falta daquelas histórias também.

Comecei a viver nelas as aventuras que eu, covarde, não consegui viver para mim. A ilusão de uma Charlote não alcançada era mais aventureira, mais bonita do que minha estima, mais concreta. Mostrando como eu poderia ser se não tivesse medo. Se não tivesse lágrimas. Demorei muito tempo após as leituras para voltar a mim mesma. A me reconhecer dentro de minha amargura, dentro de minha felicidade, do equilíbrio agridoce.

Talvez ele quisesse me conquistar com suas palavras. Mas com elas fez uma pessoa melhor que a Charlote de carne e osso. E o que devo fazer, portanto? O que ele espera desse desafio que nunca deveria ter aceitado. Me ver ainda submissa? Ainda menina? Alguém que lhe ponha em seu lugar? Não.

Gosto da maneira como ele escrever e, mesmo sabendo, reconhecendo minha alma. As frases que já completamos um do outro assustam. Terrível encontrar um semelhante que parece te duplicar, pensando como você, mesmo não te sendo.

Somos assim. Tivemos esses momentos de palavras escritas ou mudas que nos projetaram como heróis.  Mas se eu recriasse a história novamente alteraria os fatos.

Produziria minha versão do escritor, uma outra segunda Charlote e tudo ficaria mais confuso do que me parece. Dignos de uma potencial tragédia ou uma dessas cômicas comédias antigas de trocas de personagens por sua semelhança.

Devo desistir. Não pela falha, mas pela luta que seria longa demais. Uma outra versão da mesma história seria o nascimento de outro mundo. Estes criados tem que nos bastar. Devemos isso a eles.

22 de Abril de 2013

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Austeriana (1): escritor, personagem, papel

Olhei para Charlote tentando adivinhar seus pensamentos. Não que fosse necessário uma conversa para descobrir suas reflexões. Bastava ir até o computador, abrir uma tela em branco e dar vazão a minha própria versão de Charlote. Eu havia feito esse procedimento outras vezes e, agora com distanciamento, não consigo mais discernir quem era a mulher real da personagem que criei.

Em algumas vezes, ela leu meus escritos mencionando o quanto pareciam feitos por ela. Você tem um jeito que parece observar meus pensamentos, dizia. Sentia-me feliz pela conexão invisível, embora não houvesse uma resposta. Desejava acreditar que, de alguma maneira, tínhamos uma ligação que, em situações certas e ambientes controlados, seriamos capazes de finalizar a frase um do outro.

Quando sentia falta de Charlote, dedicava algumas narrativas a ela. Nada que ultrapassasse um estilo de ficção tradicional. Reprisava nossa história, inseria novos elementos, levando-nos, pelas palavras, a lugares que nunca fomos de verdade mas que, parte de mim, gostaria de ter ido.

Não que algumas dessas palavras me deem grande orgulho. Mais novo, menos maduro, escrevi para lhe machucar. Ainda tenho apreço pela potência da arte mais suas lágrimas me doeram. As vezes, Charlote é minha consultura. Ela escreve também e gosto de sua prosa. Ela diz que não.

- E se houvesse uma história em que uma personagem fosse testemunha de uma cena que não poderia ter visto, mas guardou segredo do que viu?

- Como assim? Uma dessas histórias carregadas de drama e sentimentalismo?

- É o que tenho medo que aconteça, Charlote. Mas pensei em algo mais visceral. Uma história tão vergonhosa ao ponto de que a pessoa nunca tivesse vontade, ou coragem, de contar a alguém.

- Escondendo uma humilhação de alguém para si?

- Exato. Mas isso machuca a personagem. Ela não consegue mais viver com aquele segredo de saber que tudo, de alguma maneira, foi vivido como uma mentira. Mesmo que não seja a dela. Ela começa a pensar que se tivesse interferido na ação, os planos seriam diferentes, mais verdadeiros.

- Hum – e faz a mesma expressão que faço, de deixar o olhar no horizonte para refletir – pode ser possível.

Mas dessa vez queria propor a Charlote uma ideia diferente. Que ela escreve sobre mim. Ser sua personagem, cansado de ser um autor.

- Eu queria ser seu personagem, dessa vez. Você recontaria o que quisesse, ou adicionasse a essência que achar. Confio na sua capacidade de escrever e, mais ainda, confio que sabe minha essência, nem que um pouco dela.

- Acho arriscado.

- Porque? Que mal haveria de haver?

- Justamente o mal. E se eu escrevesse o que você não fosse gostar?

- É sua visão da minha. Se te fiz minha personagem, agora se faça de autora. Se um dia foi minha musa, vamos trocar de planos. Realizar uma história as avessas. Você escreverá sobre um escritor que escrever sobre uma Charlote que, por coincidencia, é você mesma.

- E como diferencia-las? Como me diferenciar? Se você diz que quando escreveu sobre mim se confundiu e hoje não sabe mais o que é eu de carne viva e o eu de papel, como não confudir? Se metade dessas histórias foram inventadas?

- A diferença é que você, a Charlote real, poderá criar também a Charlote da ficção.

- Você está confundindo minha cabeça.

- Eu sei, mas você adora isso.

Ela sorri.

- Eu quero ver seu lado, Charlote. Sei que te tomei muitas vezes. Agora é sua vez de quebrar a quarta parede. Escrever sobre mim. Me dê um novo nome, uma personalidade além da tradicional. Quero ver como você me vê além de minhas palavras e impressões. Eu nunca pude realmente estar dentro de ti, de qualquer maneira, não?

- ...

- Não me de seu silêncio como resposta. É apenas um exercício como você fez antes. Não vai causar mal nenhum. Sei disso.

- eu ...

- Entendo a relutância. Mas me dê esse prazer de ser sua personagem, Charlote. Me ver pelo seus olhos será curioso.

- Tudo bem - relutante - aceito a proposta.

23 de Março de 2013