quarta-feira, 30 de junho de 2010

Meu Pedaço

Escolheu pimenta, salsa e alho como tempero de sua refeição. Selecionou com cuidado, dentre as panelas disponíveis na vasta cozinha, a mais indicada para refogar seu almoço. Tinha comprado o vinho na noite anterior, uma boa safra, imaginava.

A carne ainda denotaria certo tempo, cuidado para talhá-la, retirar as partes que não parecessem suculentas e, após a seleção, temperá-las com cuidado, para a especial refeição.

Estava nitidamente cansado. Porém, o tempo de demora a realizar o prato lhe dava mais apetite. A cada vez que passava o escovão no quarto dos fundos, a memória se prolongava no futuro, e os lábios umedeciam de desejo. Esperou muito por esse momento e, finalmente, chegara.

Comprou livros como estudo, tamanho o prazer. Descobrindo a melhor maneira de produzir a carne, selecionando pedaços cruciais e descartando aqueles não tão nutritivos. Era necessário prática para corta-la sem transformá-la em pedaços feios e disformes. Mas havia treinado há meses para seu jantar especial.

A cabeça já havia retirado no quarto dos fundos. Não imaginara que tanto sangue escorreria, mas valeria o esforço. Restava agora o corpo, que retirava do gigantesco freezer alocado na sala.

Colocando desajeitadamente o corpo sobre a mesa da pia, corpo ainda inteiro, de homem branco na faixa dos trinta anos. Escolheu as pernas como primeira refeição. Dois talhos precisos nas carnes da coxa, com a faca mais afiada. O homem era grande, os dois pedaços de bife recém retirados lhe dariam uma boa refeição. Tornou a guardá-lo no congelador.

Picou a coxa em quadrados, como orientava a receita que tinha lido, trocando a eventual carne bovina por aquela que tinha desejo. Fez o picote quase com devoção, salgou-a e foi para o fogão.

Esperou que o fio de azeite espanhol começasse a emanar seu cheio no ar para concluir que a panela estava quente suficiente para os ingredientes. Colocou o pimentão, a salsa, o alho e a carne humana ao mesmo tempo. E exalou, pela primeira vez, o cheiro que diria depois ser a comida dos deuses.

Refogou mexendo com uma colher de pau, até sentir que as carnes vermelhas parecessem tenras e prontas para a degustação.

Abriu o vinho, deixando-o descansar, enquanto aguardava os legumes serem cozidos. Acendeu uma vela para a cena se tornar mais romântica e serviu o prato. Preparou a primeira garfada suculenta, com a boca cheia d´agua, e, colocando o alimento em seus lábios, realizava um sonho contido de trinta anos. Era um momento espetacular de sua vida.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

bistrô quarenta e dois

- Sim, claro. Posso chamar o chef. Um instante, sim?
- Vá, vá, mâitre. Fico com meu vinho enquanto isso.

- Pois não?
- És o chef, vejo.
- Sim, sou o chef. Nota o chapelão?
- Belo sorriso, cara, mas que seja. Olha, esse foie gras, aqui, tá vendo?
- Sim, senhor, claro que vejo.
- Pois bem, esse foie gras é de um pato ou de um ganso? Sabe, porque sinto gosto de...
- Pâte de abricot? Du pomme? Pâte d'amande? Nossos víveres vêm diretamente das melhores fazendas de criação do estado, monsieur, e aposto que esse sabor peculiar, essa nota como um flavor sincopado (se o senhor me permite), essa marca nítida da presença culinária criativa de nossa cozinha premiada...
- Premiada?
- Sim, claro! Premiadíssima. Por três das melhores revistas de crítica mundiais do momento, quatro estrelas pelo Le guide culinaire, recomendadíssimo (repito, recomendadíssimo!) pelo chef Rémy. Talvez essa sensação nova e ousada, talvez seja a influência oriental que temos experimentado, a pitada leve e quase indistinguível de gengibre, não?
- Não. É bucho. Gosto de buchada, meu filho. Faz favor, traga lá o catchup e não se toca mais no assunto.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Trovas de Santo Antônio

"Em volta da fogueira
dançando alegremente
está toda faceira
a moça sorridente

E será que essa moça
poderia por favor
conceder-me uma dança
com todo o seu amor?"

Essa seria a trovinha que José enviaria à Mariazinha pelo correio elegante da quermesse da igreja. Será que ela aceitaria?

Foi logo de manhãzinha à loja de seu primo João, para comprar a melhor roupa que pudesse existir. Claro que não adiantaria, já que sendo uma festa caipira, de caipira deveria vestir.

Comprou a roupa mesmo assim, a melhor calça remendada, o melhor chapéu de palha, a melhor rolha queimada para a barba desenhar.

Chegou bem cedo na festa, todo perfumado, de caipira trajado, esperando alegremente a Mariazinha chegar.

Ela veio, demorou, mas veio. Chegou linda como podem imaginar, vestida toda de chita, com um vestido rodado todo enfeitado com fitas de cetim.

José não perdeu tempo, foi logo correndo até o correio elegante e depositou sua mensagem, a trova especial, no cestinho, endereçada à menina mais bonita daquela cidade e além.

Esperou alegremente, ansioso mas contente, que a trovinha fosse entregue e que Mariazinha viesse encantada lhe beijar.

Mas viu outra coisa. Viu, debaixo da estátua de Santo Antônio, Pedro, seu vizinho, chegar devagarinho e pedir a garota de seus sonhos, que lhe acompanhasse ao altar.

Mariazinha aceitou, com lágrimas nos olhos, chorava de alegria, e beijava seu amado, que não era e nunca seria o nosso querido José.

José chorou ele mesmo, chorou de dar dó. Chorou e correu velozmente atrás do correio elegante, para poder sua mensagem recuperar.

A mensagem, a trovinha elegante, jamais chegou à Maria, agora mulher casada e direita. E José ficou pra sempre com aquele gosto ruim na boca de quem senta e deixa a vida passar.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Escola Estadual Bento de Abreu


É esse o nome do lugar onde estudei da 1ª série até o 3º colegial, aqui em Araraquara. E sendo Araraquara uma cidadezinha do interior de São paulo, mas que poderia perfeitamente estar situada no Texas ou Alabama, é lógico que, em todo mês de Junho, tínhamos festas típicas.

Para começar, tipicamente obrigatórias, visto que eram uma oportunidade excelente para a direção de um colégio público de 500 alunos extorquir dinheiro dos pais e dos filhos. Lembro-me que o diretor, seu Osvaldo Malaspina (sim, Malaspina, coincidência ou não, à vossa guiza) passava de sala em sala falando da festa, explicando que era tantos cruzeiros por pessoa da família, que já ia deixar 4 para cada aluno e que tinha que levar o dinheiro até sexta-feira. A gente tinha no máximo 9 anos e acreditava quando a "tia" ainda tinha a cara-de-pau de dizer que a participação valia nota. Pensando nisso agora, vejo que nossa sociedade tem isso de bom: já vão te acostumando a ser logrado desde os primeiros dias, para não traumatizar depois. Lembro-me que no meu colégio faziam uma competição fundamentada em exploração de trabalho infantil chamado "Miss Caipirinha". Cada criança recebia uma folha de sulfite com uma tabela de cinqüenta quadradinhos impressos em tinta azul de mimeógrafo velho. A criança pegava isso, e ia de parente em parente, por vezes vizinhos e amigos dos pais, esmolando X cruzeiros para cada quadradinho. Era uma rifa, excetuando-se o detalhe de que quem comprava não concorria a nada, o que enquadra a coisa toda em prática de mendicância infantil. A criança que vendesse tudo podia pegar outra folha e sair vendendo mais, e a que mais vendesse ganhava um jogo de dominó ou quebra-cabeças de 100 peças. Como o nome pode sugerir, era inicialmente exclusivo para meninas, mas em pouco tempo a direção percebeu que podia lucrar o dobro ao criar o "Mister Caipirinha".

Mas o melhor das festas era a própria festa. Primeiro porque nossas mães, precursoras desavisadas do movimento grunge, nos vestiam com camisas xadrez furadas, calças jeans surradas e remendadas e para completar, sujavam nossos rostos. Bigodinho era obrigatório e, se a mãe fosse agressive mesmo, chegava a pintar uns dentes de preto. Imagino como seria o Kurt Cobain aos 8 anos numa dessas.

A quadrilha. Uma série de coreografias feias, de origem européia medieval, regadas com expressões pitorescas da cultura local como "Ói a cobra!" e "Oi a chuva!". Tinha ensaio para ensinar toda essa micagem aos pobres e forçosos alunos. Alguns, como eu, eram demasiadamente descoordenados para tanto, e ficavam de testemunhas no Casório da Roça, papel cuja performance exigia pouco além de saber ficar parado. Os nerdinhos gordinhos-introspectivos-de-óculos-alvos-preferenciais-dos-moleques-que-faziam-karate ficavam todos lá, geralmente.

Do outro lado da festa, os descolados (e acho que todos conseguem imaginar bem um descolado de 9 anos de idade) ficavam no controle das duas instituições mais cafonas da festa: a Cadeia e o Correio Elegante. Pagava-se (mas calma, o dinheiro ia para a escola, o que você estava achando?) para prender crianças numa salinha até os pais pagarem a fiança (e nessa hora nós nerds gordinhos éramos muito requisitados) e para mandar recados com xavequinhos de galãs de 9 anos para as meninas de 7 ou 8. Lembro que tinha um moleque filho da puta que sempre recebia bilhetinho e depois vinha me zoar. Hoje penso que talvez ele pagasse para receber os próprios bilhetes, e me sinto meio burro de não ter feito isso na época.

Tinha pipoca, algodão doce, paçoca, quentão, vinho quente, doce de leite, churros, canjica, cachorro quente, churrasquinho de kafta, mariola de bananada, amendoim doce, amendoim salgado, pé-de-moleque, chocolate quente, milho verde cozido, bolo de milho, bolo de fubá, doce de batata doce, doce de abóbora e muita, muita tubaína. Particularmente, era o único aspecto da coisa toda que me agradava. Não era nem nerd nem gordinho à toa.

Finalmente, tinham os fogos. Ah, os fogos! Festas juninas e viradas de ano-novo são as únicas datas do ano fora do Afeganistão e do Iraque em que é socialmente aceitável ver crianças brincando com explosivos. Traques, bombinhas, bombas 1000 e 2000, com cargas em pólvora preta e pavios da marca Papaléguas. Caramuru de três tiros, buscapés e, porque não, balões incendiários. Uma criança ou outra sempre perde um dedinho, mas afinal de contas são 2500 alunos, acidentes acontecem. E chega, já falei demais de uma festividade que não gostava nem quando era Mister Caipirinha. Aliás, Mister Caipirinha não soa um incentivo ao alcoolismo infantil?

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Festas Juninas

I - Junho, 1991

A lembrança é viva por uma foto, tirada ao pé de uma falsa árvore, com um falso sorriso, obrigada pela escola. Ele de mãos dadas com ela, a infeliz que, aleatoriamente, foi escolhida para dançar quadrilha com aquele garoto tímido. Um risco falso como bigode, retalhos de mentira na roupa e ela, japonesinha, de vestido quadriculado e chapéu com tranças falsas coladas.


II - Junho, 1994

A professora insistia que cada classe deveria organizar uma quadrilha. Aulas e aulas perdidas para tentarem sincronizar um bando de crianças da segunda, terceira, quarta série, que ainda não tinham vergonha em usar aquelas fantasias mas, em breve, teriam. E muito.


III - Junho, 1999

No ano da formatura da oitava série qualquer festa é motivo para arrecadar fundos para a formatura, o pior momento custo benefício da história da humaninade. Ele ficou, ao lado da mãe, responsável pela barraca de cachorros-quentes. Entregando, um após outro, pães embebidos naquele caldo forte de ketchup que dá azia estomacal só de pensar.


IV - Junho, 2000; Junho, 2001; Junho, 2002

Em escola Batista, festas de santos não tem vez. Corta.


V - Junho, 2005

Uma das grandes festas do ano. A primeira que o calouro decide ir, principalmente por ser na praça, a céu aberto, de graça. Meia hora em uma fila para comprar o que se comer, mais meia hora para ter o que beber. Metade são universitários bêbados, a outra calouros perdidos. O que marcou foi a japonesa – não a mesma da primeira cena – que após três horas dando em cima de qualquer homem, foi embora sem pegar ninguém. Os amigos apelidaram o lugar em sua homenagem: a praça da japonesa triste.


VI - Junho, 2010

Um dia depois o amigo que o visitava iria embora. Decidiram subir algumas quadras e conferir a festa que acontecia. Eles, outro amigo e a namorada de um deles. A dita festa se resumia a um quarteirão lotado de universitários, com duas barracas de bebida e duas de comida. Deram uma volta pelo local, falaram mal da gordinha que, vestida de caipira, mais parecia a capa de um bujão de gás e, perante a festa mais patética que já foram, decidiram voltar para casa e pedir duas pizzas.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

coisas juninas

Tomou uma lapada de cana e entrou na casa. Era velório, bebia ao morto. Tradição, sabe como é... entrou na casa cheirando a cachaça, camisa aberta e choro e lágrimas.

Seu João era seu vô.

O velório estava cheio, a essa altura. Pedro chegou tarde porque bebera antes. Antes de beber ao morto, até. Porque, sabe como é, tradição... e não conseguiria olhar pro caixão sem ter bebido um pouco. A dose do morto não dava conta, então tomou umas antes, fumou umas pontas. Sabe como é...

O velório cheio cheirou a sangue, quando o neto entrou. Todo mundo olhou pro velho João, porque o neto cheirava a cachaça, cheiro de sangue vinha mesmo era do caixão. A gente toda em silêncio com olhos abertos, tremendo, a gente toda cruz-credo ave-maria e nossa-senhora-olhai-por-nós. Além de uns "Puta que pariu!" que toda gente ouviu, de um canto e de outro.

Era tradição, sabe como é. Quando o defunto sangra é sinal de que o homem tá por perto. O homem que matou o defunto. Tradição.

- Cês tudo aqui sabe como é? Sabe como é a cara do pilantra desgramado? Sabe? Sabe não, cês não sabem. Mas eu sei, ora porra, sei porque eu olho todo santo dia essa cara infeliz. Desde que me vejo por gente, até quando quebrei o nariz e no espelho tinha meio esparadrapo com dois olhos e o resto, as orelhas, tudo mais. Fui eu, tô dizendo, fui eu que mandei o velho encontrar com a onça Caetana. Rasguei-lhe o bucho a facão. Fui eu, maldição.

Daí perguntou alguém, "Por que matou Seu João?", e Pedro depois respondeu:

- Matei porque ele era bom. O vô era mais muito bom, vivia dizendo o certo, fazendo o direito, ralhando com o resto. O vô era bom demais pra aguentar um neto feito eu. E eu era novo, daí que entre novo e bom o novo chegou na frente. Na frente do velho. E matou.

A gente toda olhou, de novo, até que entendendo a razão. Pedro devia sair linchado, dali, provavelmente sairia, acho que saiu, até. A história não chega até lá. Pára antes. Até onde eu sei, depois da confissão, o neto ajoelhado, nem pedindo perdão, até onde eu sei a gente parou de chorar e lamentou o que ia acontecer. Toda a gente toda indo pra cima do Pedro, do Pedro de joelhos, sem facão nem nada, agora. Ouviu-se só um murmúrio, um lamento, vindo do meio da turba que ia. Lamento dizia que o velho era bom, mesmo, que o velho era um santo.

- São João...


sexta-feira, 18 de junho de 2010

O Termo da Copa

Uma cabeçada, simples assim. É claro que após isso ainda houve uma disputa de pênaltis, mas isso foi adendo, pois a Copa de 2006 teve termo naquela cabeçada de Zidane. Sempre é assim, um gênio põe termo à Copa, seja da forma que for.

A Copa de 58 não terminou no apito do juiz, terminou sim quando Didi – após o Brasil tomar o 1º gol da Suécia – colocou a bola debaixo do braço e proferiu a seguinte frase: “Vamos encher esses gringos!” Outros 6 gols foram feitos após isso, inclusive o lendário chapéu de Pelé, mas quando isso aconteceu a Copa já havia tido seu fim. Seu fim foi quando Didi, o gênio, decidiu que seria.

Em 62 a Copa terminou antes mesmo de começar a final. Terminou quando Garrincha, com 39 graus de febre decidiu ir a campo. O jogo pouco importa. A Copa teve termo quando Garrincha quis jogar.

Em 70 foi a vez de Pelé. Ele terminou aquela Copa quando – sem olhar – passou a bola para um possível Carlos Alberto que deveria aparecer por lá. Pouco importa se Carlos Alberto de fato apareceu para marcar o gol mais bonito de todas as Copas. Isso foi depois do fim. O fim foi quando Pelé soltou a bola no infinito das possibilidades.

Em 94 as coisas aconteceram ao contrário. O gênio no caso era Baggio e ele deu termo chutando para fora aquela bola que o perseguiria até hoje, assim como a cabeçada persegue Zidane.

Em 2002 foi um trabalho conjunto, 3 gênios puseram fim à Copa. Rivaldo ao chutar a bola, Khan ao rebatê-la e Ronaldo ao aparecer do nada para por fim não só ao sonho alemão, como ao seu pesadelo de quatro anos atrás. Ali terminou a Copa.

Em 50, ano da maior tristeza já vista na terra, quem pôs fim não foi nem Ghiggia, com seu gol que calou a maior das multidões, nem Barbosa, com sua pequena e monstruosa falha. Quem pôs fim àquela Copa foi Obdúlio Varela, quando tomou as rédeas da situação e – do alto da maior liderança já vista em um campo de futebol – esbofeteou Bigode e, com ele, todo o Maracanã e o equilíbrio emocional do escrete brasileiro.

Em 98, a outra tragédia, o final também coube a Zidane, que iniciou esse texto. Aquela Copa acabou assim que a bola saiu da cabeça do gênio a primeira vez. Não foi – como pensam muitos – quando Ronaldo caiu prostrado antes do jogo, não. Foi quando o francês subiu mais alto que toda a zaga para fazer o 1º de seus únicos 2 gols de cabeça pela seleção francesa. Uma cabeçada, simples assim!