quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Fernando e Natália

Estávamos na segunda ou terceira semana do novo emprego, voltando para nossas casas a noite. Caminhávamos por um trecho que me lembro muito bem: Dutra paralela com a Sete de Setembro e Prudente de Morais.

A ocasião não me recordo com precisão. Poderíamos estar falando de mulheres, sempre falavamos sobre mulheres. Filosofando sobre a vida. O que foi importante é que disse para Fernando: você não encontra motivos para mudar, então, sempre será essa pessoa infeliz. Hoje as palavras pesam em meu coração como uma maldição. Seis anos depois, sinto que ele continua o mesmo, mais responsável, mas igual nos defeitos.

Em alguns pontos, quebrei barreiras que ele não conseguiu. Fernando se prendeu em uma história de amor, eu deixei sangrar muitas delas. Quem é capaz de esconder sua tristeza é ainda mais infeliz. Ajudaria se me pedisse. Mas nunca compartilha seus sentimentos. E não cabe a mim remover camadas que ele mesmo inseriu na vida.

Quando Fernando e Natália se separaram algumas amigos insistiram que deveriam ter mantido a relação. Perguntavam de um retorno, talvez pelo costume de vê-los juntos. Minha opinião sobre o caso é que ele era feliz. Ela parecia também. Porém, novos demais enfiaram espinhos profundos em um e outro.

Mas, ainda estão ai. Há doze anos se conhecem, dez deles separados. Ele em vazio. Ela após três namorados. Tento compreender quais são suas motivações para nunca ter se envolvido com outra mulher. A mesma timidez juvenil que ainda persiste em estar presente?

O homem fez trinta e um anos. Tem coração de ouro, cuida da mãe, mas não parece que tem domínio de si. Como se vivesse subjugado. Não que isso transpareça com a maneira que lida com quem está a sua volta. Digo isso pois o conheço.

Não sei se após esse anos Fernando mente ao me dizer que se importa com Natália. Que ainda se importa com ela ou tem um sentimento vivo. Depois de três anos cuidando dela como a única mulher do mundo, pode ser que ele se esqueceu de outra maneira de trata-la.

Não quero soar agressivo. Adquiri maturidade suficiente para me depreender de relações desequilibradas ou aquelas que contém um passado nostálgico do que um presente vivo. Afinal, o que os liga ainda hoje e os mantém próximos? Não sei quem seria capaz de, a essa altura, defender o discurso íntegro da amizade acima do bem e o do mal. Pouco se falam, mas não se deixam para trás. Como se convencidos a escolher uma pessoa como sua, aquela que não será desagarrada em nenhum momento. Parece nobre, mas tão frágil. Um homem que não desiste de alguém não faz necessariamente a escolha correta.

Quando nos conhecemos conversamos sobre sua maneira de ser. Um adolescente, na época, que acreditava nas pessoas e não desistia em vão. Ao mesmo tempo que sei quanto desistiu de seus sonhos. Portanto, não compreendo porque Natália é tão especial, tão significativa hoje além do passado tortuoso.

Eles estão juntos pela proximidade. Pela constatação de que mesmo sem nenhum assunto em comum não vão se deixar. Estarão presentes um para o outro como um pacto silencioso entre humanos. Pelo apelo de não ficarem completamente sós.

Por isso, acho que ainda terminarão juntos novamente. O tempo progride, voltas do parafuso cada vez mais doloridas e, no fundo, só se separarão com a morte. Ela aceitará seu carinho como o único homem, além do pai, que não a abandonou. Ele retomará a relação no ponto de onde pararam, na curva do futuro em que o carro começava a sair da pista. Imagino que se aproximaram pelo medo de perder a única pessoa que lhes mantém afeto,.

Durante esses doze anos, esperei que um dia fosse possível compreender que se tornaram diferentes. Que depois de perdas se recompuseram melhores. Mas tudo estava igual. Como há um ano. Semelhante a dois. Emparedado como Antígona há mil anos. Por isso, nunca se deixarão.

Foi quando eu soube que eles envelheceriam um ao lado do outro. A margem de algum abismo.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Lá e de volta outra vez.


Quando entramos na sala quase começava o A Sociedade do Anel, conhecíamos pouco um do outro. Assistimos o filme sem igualmente conhecer muito sobre o universo de Arda e ainda menos sobre o que esperar do resto do dia. Era nossa segunda hora de conhecimento mútuo; as primeiras palavras trocadas na fila do cinema, onde eu estava atrás dela, entre um elfo e um hobbit gordo e cheirando suor.
“Você não veio fantasiado”, ela constatou.
“Está errada, senhorita”, respondi fazendo um leve gesto com a mão, tentando manter um ar élfico - ao menos até onde tal coisa é possível - “sou um elfo, mas estou vestido de humano.” Coloquei as duas mãos sobre as orelhas, tentando esconder as orelhas pontudas. Ela sorriu, um sorriso estranho quase como um soluço. O hobbit atrás dela girou os olhos. “Leu o livro?”
“Não, mas amo cinema. Não sei o que esperar, nunca li uma palavra dos livros.”
Eu também não tinha aberto o livro uma vez sequer, mas estava naquela fila para ficar por dentro das conversas no escritório, nada poderia me preparar para o que estava para começar.
Nossos queixos ficaram, quase que literalmente, caídos durante todo o filme. Foram mais de três horas de suspense e fantasia pura, mãos entrelaçadas e trocas de olhares. Naquela noite, fizemos amor pela primeira vez e nos apaixonamos. Foi algo que nos atingiu com a sutileza de um meteoro caindo sobre a Terra… não, foi com a sutileza do Melancolia, aquele planeta que destrói a Terra naquele filme. Existíamos apenas para nossos corpos e mentes, aos poucos queimamos tudo: amigos, emprego, moderação. O tipo de bolha que formamos e não percebemo o quanto somos egoístas, esquecendo de todo o resto, de tudo aquilo que importava.
Tudo, menos a Terra Média.
Compramos e trocamos os três livros, devoramos cada página do épico de mais de mil páginas. Três vezes. Eu destacava as passagens que mais gostava e ela as lia em voz alta, depois de ler, com direito à interpretação, as falas do Gandalf. Ela amava as palavras daquele que trazia problemas.
Estávamos em uma espiral tão profundo que nunca percebemos o quão longa da superfície havíamos viajado.

Depois veio As Duas Torres. Dessa vez, enfrentamos a fila para a primeira sessão, de madrugada. Ela tinha os cabelos prateados e eu usava uma imitação dos pés peludos dos halflings. Eu fazia caretas para as mudanças do roteiro e ela sussurrava cada fala de Gandalf.
Nosso relacionamento, assim como a trilogia, alcançava o ponto agridoce do segundo ato, quando todo o cenário está posto e não há alternativa, tirando continuar caminhando ate o fim. O corpo dela era um território conhecido e explorado e praticamente não havia novidades; lugar confortável, receptivo. Qualquer sinal de cansaço passava despercebido e os telefonemas que ela atendia depois de sair do quarto foram completamente ignorados.
Tudo estava indo bem na Terra Média, eu acreditava.

Durante o Retorno do Rei nossas mãos nunca se tocaram. Quase não dialogávamos e nosso relacionamento se resumia apenas nas noites de sexo. Fazíamos amor de forma fria, distante. Apenas pelo orgasmo, sem qualquer sentimento. Enquanto a saga que coroou nosso amor chegava ao ápice, havíamos atingido o nadir pessoal.
Ela era uma pessoa praticamente desconhecida, fechada para qualquer investida de minha parte. Não respondia mais minhas mensagens ou respondia minhas perguntas. Ficava quase uma semana sem aparecer. Começou a fumar e a se refugiar em festas, muitas vezes acordando sem qualquer memória do que tinha acontecido na noite anterior, enchia minha caixa de mensagens com vergonha e arrependimento, para depois lançar olhares de desprezo e superioridade.
Arrumou outros amigos e logo não estava mais falando comigo.
Lia outros livros, que desapareciam antes que eu pudesse ler uma única linha.
Assistia aos filmes sem perguntar se eu queria ir junto, saía para longas horas de caminhada no meio do dia.
A distância se tornou intransponível.
Eu me transformei em passado.

Quase uma década depois, eu escrevo isso no meu tablet, equilibrado sobre um livro do George R. R. Martin. Estou agora na fila para comprar minha entrada para a sala 8, O Hobbit. Estou usando barba falsa, uma armadura pesada que me custou dois meses de salário e vinte semanas de meu precioso tempo, além da peruca ruiva. Ela está na minha frente, mas não me reconheceu, por baixo de toda a fantasia. Está usando uma blusa curta, com dois esqueletos se abraçando; meia-calça rasgada e sombras negras ao redor dos olhos.
Meu coração está saindo pela minha boca, literalmente: acho que estou sentindo gosto de sangue.
Claro que tive meus anos perdidos por causa dessa mulher. Cheguei ao fundo do posso. Catatônico. Bêbado. Perdido. Vagabundo e ainda mais adjetivos. Escolha algo degradante; eu fui, mas retornei, voltei a andar com minhas pernas.
Ainda assim, meu corpo se inunda com algo incontrolável nesse momento.
Imbecil. Eu me odeio.

Não. Passou. Finalmente, não sinto mais nada. Estou livre. ‘Liberdaaaaaaaaaaade’, como gritou William Wallace.
Ela chegou na bilheteria e disse: “Um para o Amanhecer parte dois, por favor.”

Vaca.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A Mancha

Há uma mancha de sangue no chão da cozinha. A cor escarlate se destaca no azulejo branco. Tem aproximadamente três centímetros, um pouco disforme nas extremidades, mais avermelhado no centro. Foi um corte que fiz há três dias.

Parafusava um aparelho com o canivete. Com a força que fiz, a lâmina tentou voltar ao seu lugar. Um dos serrilhados penetrou em meu dedão, pequeno talho de meio centímetro.

O corte se avermelhou. Aos poucos, gotas começaram a cair na palma de minha mão. Pensei, dessa maneira, um após o outro. Sangue tem uma coloração bonita. Sua pressão vai cair agora. Foi o que aconteceu.

No banheiro, deixei que água escorresse sob o corte e a mão, limpando-a do sangue. Fui a cozinha a procura de um copo d´ água para melhorar, já trêmulo, sem sentir minhas pernas. Lembro-me do copo no filtro, do gole que dei e da dor em minha lombar, do lado esquerdo. Eu havia caído no chão, perdido a consciência momentaneamente.

Deitado, olhei minha ferida. Formigas caminhavam ao meu lado, sem consciência de minha queda. Apoiei as costas no chão, ofegante. Pensei nela. Me vi morto no chão, o telefone tocando sem parar para ela me encontrar, um dia depois. Um telefone foi meu pensamento. Nem que eu me arrasta-se até ele tinha que avisa-la que esse estúpido corte não me deixaria bem. Estava acordado há quatro horas, morto de fome sem nada comer. Obsessivamente quis arrumar aquele aparelho. Sem as ferramentes certas fiz do canivete meu aliado. Um amigo errado para a ocasião.

No chão tudo se estabilizou. De repente, ouvi o barulho da pia do banheiro. Não me recordava que a torneira estivera ligada. Levantei-me para desliga-la e compreendi melhor o que aconteceu. Cai derrubando a mesa do filtro que tombou na parede, fazendo com que água escorresse no chão, e também empurrando a geladeira que se moveu para o lado, dando me espaço.

Olhei minha mão. Queria rir por causa deste pequeno corte e da tarde faminta. Mas me sentia atordoado. Passei os próximos dias deixando a cozinha com os mesmos vestígios. Encontrei manchas de sangue no caminho, gostas escorrendo do meu corte a cada passo. E lá estava aquele belo respingo, seco, ainda vivo pela cor, como uma lembrança.

Não sou G. H. Não quero reencontrar o lado primitivo de meu ser, lamber a marca de sangue deixada no chão. Só não consigo tirá-la de lá. Como um sinal formado pelo acaso. A referência de minha queda literal.

Aquela marca de sangue parecia me avisar de que ainda estou vivo. Retirá-la me pareceu insensato, como se matasse a recordação de minha fragilidade humana, invariavelmente, propensa a quedas.

22 de Novembro de 2012

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

bachiana

- Minha mão direita está gelada. Consigo ouvir o som do cachorro bebendo água lá na cozinha. Há estrelas no céu. A garrafa d'água está vazia. Um pinheiro de Natal, por sobre a mesa, não tem enfeites. Meus enfeites, contas, sementes espalham-se na mesma mesa do pinheiro plastificado. Aparelhos eletrônicos em suas tomadas, em suas entradas, usb, chapéu esperando cobrir a cabeça no topo da pilha de velhas revistas de psicologia analítica. A garrafa d'água está vazia. O cachorro já não bebe água, e agora patinha passeia se coça e tromba com a porta do corredor. Minha mão direita começa a esquentar. A esquerda, apoiada demais no teclado, machuca um pouco do lado, pra perto do dedo menor. Alguém sobe as escadas. Tento relaxar o braço esquerdo. O cachorro late insuportavelmente agudo. Relaxo o braço, desafogo a mão do teclado, atento à tensão pelo corpo. Cachorro continua latindo, e a garrafa continua vazia. Ela nunca vai se encher sozinha. O cão, ao menos, já parou. Os mecanismos internos do meu computador soam como grilos em noite fria enluarada. Noite de hoje. Grilos no HD, geladeira acionando o motor que gera o caos. Frio. O frio da minha mão direita foi embora, o frio de lá fora talvez não. A geladeira canta grilos coaxa sapos e talvez esfrie a noite. O inverno é culpa dessa minha geladeira. Cachorro se coça. Eu não; somente escrevo. A cada batelada, a cada tecla pressionada deste texto eu movo a mesa, e o candelabro faz barulho de cair. A garrafa vazia não vai se encher sozinha, o som da mesa balançando a vela não vai parar até que o texto encerre, não tenho porquê falar com travessão se não é conversa, e já que ninguém protesta vou lá buscar água. Que ainda não está na garrafa.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Poeira e Memória


Quando cheguei em casa, segui o ritual. Despejei as sacolas que carregava em um canto da pia, abri a geladeira e alcancei a lata de cerveja mais gelada e retirei o peixe crú; separei arroz, cebola, tomate e dentes de alho. Olhei para o relógio e ignorei o início da madrugada. Eu não poderia esperar os horários das pessoas normais, seguindo a vida que levava para pagar as contas que se acumulavam na pequena mesa da cozinha. Tinha de trabalhar, não é? Esse é o ritmo normal das pessoas que se formavam em minha área de estudo: deixar de lado o diploma e iniciar uma carreira em algum emprego desumano. Puxei a camisa preta de dentro de minhas calças e abri a cerveja, sentindo-me imediatamente mais relaxado. Apertei um botão no rádio e Since I’ve Been Loving You, do Led Zeppelin começou lentamente. Antes de começar a preparar meu jantar, como todas as noites, notei que havia esquecido a porta aberta. Não sou o tipo de pessoa neurótica com segurança, mas gosto de manter minha integridade física e não sou ingênuo a ponto de pensar que todas as pessoas são boas. Há o tipo como eu, calmo e quieto, introspectivo e pensativo; mas também existe o indivíduo capaz de enforcar, sufocar, esfaquear e picotar pessoas exatamente como eu.
Andei até a porta e coloquei as duas mãos sobre a madeira para fechá-la, quando um pé surgiu entre a porta e a parede, quebrando meu movimento completamente. Como uma criança que se vê surpreendida por um carro em alta velocidade, eu fiz o mais sensato e condizente com o instinto de preservação: fiquei completamente paralisado pelo aparecimento súbito do membro estranho: era um pé feminino, calçado em um sapato que provavelmente custaria três meses de meu salário e de unhas bem feitas, pintadas com um vermelho vivo.
“Olá?”, a voz surgiu do outro lado da porta.
Puxei a madeira e vi o resto do pé. Ela tinha cabelos compridos, naturalmente ruivos e olhos escuros, escuros como o abismo que atormentava Nietzsche toda vez que ele o encarava. “Pois não?”, tentei manter a naturalidade e provavelmente falhei miseravelmente.
Ela colocou um dedo sobre o queixo e perguntou se podia entrar. Abri espaço para ela passar e limitei-me a esperar, calado, enquanto ela deixava a bolsa do lado de minhas contas e estudasse o pequeno apartamento. “Quer algo para beber?”
“Uma estranha aparece”, ele checou o relógio de pulso, “à meia-noite e quinze sem qualquer aviso e a primeira coisa que você faz é oferecer bebida?”
Concordei com a cabeça. “Se você vai ficar por aqui, é o mínimo que eu poderia fazer.”
Um sorriso cresceu, lentamente, em seu rosto. “O que você tem?”
“Nada muito ostensivo. Água, cerveja… um suco, talvez.” Abri a geladeira. “Não. Água e cerveja. Ah, um vinho.”
“O vinho.”
“O vinho.” Retirei a rolha e servi o líquido vermelho em uma taça. “Você estava na festa”, afirmei.
“Sim.” Deu um pequeno gole e olhou, com desprezo, para o rótulo.
“Não foi a melhor safra”, desculpei-me.
Ela ignorou o vinho barato e continuou, encostando o corpo perto de onde eu estava: “Não me deixe atrapalhar, pode continuar o que você estava fazendo. Sim, estava na festa.”
“E você me seguiu.”
“E eu te segui. Boa música, o que é isso?”
Estava cortando uma cebola, quando a faca escapou de minha mão e quase arranquei um naco do meu próprio dedo. “Você não conhece Led Zeppelin?”
“Led Zeppelin… Stairway to Heaven?”
“Não me diga que só conhece essa música deles.” Ela me olhou com uma expressão vazia no rosto. “Meu Deus, você só conhece Stairway to Heaven. Foi para isso que você veio? Conhecer o principal pilar da música ocidental?”
Sorriu novamente. Seu rosto ficava perfeito quando ela sorria, mostrando todos os dentes da frente. “Eu vim… eu vim porque te achei interessante.”
“E como eu poderia ser interessante? Quero dizer… olhe para mim, chegando em casa no meio da noite, depois de horas servindo bebidas e comidas para pessoas estranhas que sequer notaram meu rosto, com uma carreira como jornalista esquecida em qualquer ponto do passado e sem qualquer perspectiva concreta à frente. O que uma mulher como você poderia ver de interessante em mim?”, parei novamente de cortar a cebola e cruzei os braços, olhando para ela profundamente.
“Não tente polarizar as pessoas assim. ‘Uma mulher como você’”, ela me fez soar como um imbecil, “Somos todos humanos iguais, defeitos e qualidades. Não importa se você me serviu comida em uma festa ou se me pediu uma dança, todos somos iguais. Você chamou minha atenção, só isso. Pareceu um cara legal no meio de toda a conversa enfadonha na qual eu agonizava lentamente. Odeio essas festas, odeio com todo meu coração.”
“Então não vá! Fique em casa, ou vá dançar, como todas as outras…”
“Eu não gosto de dançar. Não vejo o ponto de balançar os braços e pernas para alguma música idiota, sem sentido. Fico completamente sem graça nas pistas de dança. E faltar nessas festas… simplesmente não é uma opção. Você quer alguma ajuda?”, bebeu mais vinho e dessa vez pareceu apreciar o sabor.
“Pegue outra faca na terceira gaveta e corte esses tomate.” Coloquei o arroz na panela e comecei a fritar a cebola. A quarta música do Led Zeppelin começava, Kashmir. “Já que você não gosta dessas festas obrigatórias e de danças, você resolveu me seguir?”
“Exatamente. Estou presa em um mundo de fachadas e superficialidades, uma espécie de mulher troféu, um robô programado para acenar, sorrir e ser agradável. Vim à procura de uma conversa de verdade, uma companhia real. E veja: eu cheguei, entrei e agora estamos conversando, como dois seres humanos normais, enquanto preparamos uma refeição juntos. Essa é provavelmente minha primeira conversa de pia.”
“Conversa de pia?”
“É. Não estamos sentados em um sofá caro, tomando cuidado com a postura e bebericando café feito por empregados mal pagos. Engraçado pensar que é a primeira vez que falo com alguém enquanto sujo minha mão de tomate!” Olhei para a tábua de vidro e vi o tomate fatiado sem qualquer uniformidade, fatias tortas e desproporcionadas. O corte mais sincero que ela poderia fazer.
Ela não parecia uma pessoa estranha. Era mais uma garota da alta sociedade que estava submersa em um mundo isolado da realidade, povoando uma existência dividida em carros de luxo e festas absurdas, verdadeiros festivais de bizarrices e exageros. Uma vida que muitos não hesitariam em pular e mergulhar até não sobrar qualquer traço de suas personalidades, mesclando suas individualidades em um enorme teatro regida por vodka e drogas.
“Eu te reconheci de hoje”, confessei. “Seu rosto era o único que não tinha um sorriso predatório estampado, a única mulher fora das pistas de dança, quem sabe o tipo de pessoa que prefere conversar por horas e não ficar pulando música após música, até os pés sangrarem.”
“Não, sem sangue nos meus dedos, muito obrigada. Eu segui o seu carro até aqui. Quando te vi, sabia que seria interessante conversar com você, mas como poderíamos ter uma conversa longe de todas aquelas vozes que cuspiam palavras vazia? Você me pareceu um cara legal e queria te conhecer, nada muito estranho.”
“Nada estranho? E se eu for uma pessoa violenta… um psicopata ou algo do gênero?”
“Você é?”
“Não, claro que não. Mas se fosse não diria, certo?”
Ela estudou meu rosto e eu a olhei de volta. O abismo encara de volta, percebi.
“Acho que vou ter que arriscar minhas chances. Preciso de novos pensamentos, conhecer pessoas e falar de outras coisas. Aprender sobre Led Zeppelin.”
“Definitivamente.”
Cortamos cebola, alho e tomate. Esperamos o arroz ficar pronto e temperamos o peixe.
“Coloque o peixe na frigideira, por favor. Obrigado. E sobre o que você quer falar?”
“Qualquer coisa.”
“Como, qualquer coisa?”
“Um assunto qualquer, oras.”
“Eu não consigo pensar assim. Precisamos de um fio condutor, um tópico para seguir, uma trama principal para essa história.”
“Não seja bobo, não estamos em uma história. Não temos uma trama principal, apenas uma costura confusa sem começo, meio ou fim, sem propósito e sem sustento. A vida é assim. Minha vida é assim, a sua também. Qual o propósito de servir comida para pessoas que provavelmente iriam te odiar enquanto você poderia estar fazendo o que ama?”
“Pagar as contas?”
“Você poderia pagar as contas como jornalista. E não estaria fritando peixe de madrugada. A vida das pessoas raramente tem um propósito. Não há sentido, meio ou fim explicativos. As coisas simplesmente acontecem e mudam ou acabam. É assim, e não podemos mudar, apenas seguir com nossos cotidiano. Até que ele se acabe, ate que nada sobre, apenas poeira e memória.”
“E há algum sentido para você estar aqui, ao meu lado, enquanto frito peixe de madrugada?”
Ela ponderou. “Acho que não preciso de um propósito. A resposta mais sincera é que quero estar aqui, com você. Um relance de uma outra vida, quem sabe. Um espiada fora da bolha, na esperança de que ela finalmente se rompa.”
Tirei a bolsa e as contas da mesa, coloquei uma toalha limpa, dois pratos, talheres e duas taças. Quando terminei de fritar o peixe com cebola e alho, montei os dois pratos e comemos com calma, aproveitando a conversa e a música.
Não havia sentido na visita inesperada daquela mulher. Apenas um início. Ela comeu o peixe que preparamos juntos, aprendeu sobre rock inglês enquanto fazíamos amor e desapareceu na manhã seguinte. O único indício de sua existência eram os pratos sujos na pia e alguns fios do cabelo vermelho.
Como numa colcha de infinitos retalhos, ela se perdeu na confusão de costuras e fios que eram meus dias, deixando para trás apenas o absurdo de se conhecer apenas uma música do Led Zeppelin.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Cento e Oitenta Minutos

“E vamos terminar inventando uma nova canção,
 nem que seja uma outra versão
 pra tentar entender que acabou”
 Tudo Novo de Novo, Paulinho Moska.

Ela passou duas horas chorosas tentando extrair de mim uma afirmação inexistente. Nada iria ficar bem, não para nós. O tumor que engolimos faria até nossos vermes se corroerem. Investida depois de investida, ela repetia as mesmas palavras alterando apenas as formas. Primeiro, de maneira branda, depois saudosa, raivosa, irritada, chorosa, o diabo. Depois da sétima bravata decidi dizer a verdade que eu tentava poupa-la.

Nesse momento, e somente percebi quando o revi mentalmente, eu abusava de sua fé. Se encerrasse o fim duas horas antes teria me poupado do teatro, de mais lágrimas, mas talvez não tivesse satisfação. Precisei vê-la chorar.

Alguns me chamarão de sádico. Minha defesa é argumentar que nem mesmo sei que por que quis rir. Como um jovem que se torna sedutor e conquista o carisma da garota popular. Lembrei-me de uma crônica que escrevi para um jornal sobre um reencontro de dois colegas de escola. O embate da história era o viés da vida, ele bem sucedido e ela sem a beleza juvenil. A inversão provocava o embate. Eu deveria estar me vingando de alguém quando o escrevi.

 Na segunda hora de lágrimas me sentia cético. Os anos degringolam-se de uma maneira tão rápida que, se não tivermos um parâmetro, uma certeza de irmos de um ponto a outro, temos a sensação de estarmos rumo a algo sem fim. Quero dizer que nem saberia ao certo se sentiria sua falta por si só ou pela falta de sua presença, do costume de estar sempre vendo televisão enquanto eu tentava me comunicar.

Na casa agora vazia, caminho por cada cômodo tentando resgatar suas ações cotidianas. Tentando vê-la como um ser etéreo, dessas imagens cinematográficas, que quando passam por nós se esvaem. Mas tudo que há na casa é silêncio e gosto disso.

Queria poder desliga-la como faço com a televisão. Meu silêncio a fez avançar, etapa por etapa, rumo ao descobrimento. Eu não queria expor seus erros. Quis que soubesse por si própria.

Então, eu lhe disse. Não fui eu. Mas ela sabia. Ela sabia quem era, conhecia seus limites, reconhecia o vício em caminhar em círculos e a incapacidade de ver o novo em uma mesma trilha.

Tentei esconder a verdade o máximo que pude. Não, deixe-me reformular: tentei evitar a verdade de que não mais a amava o máximo que pude esperando que ela reconhecesse que não foi a melhor, nem a maior por causa de seus próprio limites.

Sua ausência me deu mais espaço para arrumar minhas estantes.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

não tenho nada com isso

- E aí, quando a gente passava do segundo pro terceiro andar - acho -, vi o Arnaldo Baptista subindo junto. Ele e a Lucinha Lins.

- Lucinha Lins?

- Lucinha Lins, a mulher dele.

- Hm...

- Enfim, vi o lóki subindo lá, quase junto comigo - um pouco atrás, pra ser preciso - e na mesmíssima hora voltei pra abraçar o bicho.

- Que da hora. E ele, o que fez?

- Me abraçou também, cara, foi isso aí. Eu disse que ele era gente boa: na hora em que eu disse "Arnaldo, lóki, malandro velho" ele abriu um sorrisão. Foi mó demais, cara, sério mesmo.

Jukebox tocava o que tinha de tocar.

- Mas e aí, pegou um autógrafo e caiu fora?

- Pô bicho, que nada! Depois a gente ainda foi andando junto, batendo um papo. O Arnaldo até chegou a me dar umas dicas, velho.

- Sério? Que massa. Sobre música?

- Nada; sobre mulheres!

- Demais...

Mais uma cerveja, depois outra, depois um suco de laranja. Quase silêncio.

- Barbosa!

- Como?

- Lucinha Lins porra nenhuma, mané. A mulher do Arnaldão chama Lucinha Barbosa.

- Ah...

Agora sim, silêncio inteiro.